“Notas” – 17/02/2019

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“Notas” – 09/02/2019

Sobre o “Breviário de Um Canalha” de Eduardo Almeida Reis

“Breviário de Um Canalha”, o segundo romance de Eduardo Almeida Reis, lançado em 2010, é, como o anterior,”Bumerangue”, de trama simples. Um simples enganoso, mas simples.

Naquele, a trama girava em torno da ligação do narrador com a primeira-dama de um estado e neste a ligação amorosa do narrador com a sogra. Em ambos, o autor pouco trata destas ligações no conjunto das páginas. Suas reflexões, ou as evocações de memória (suas ou de outros, contadas a ele) compõem 90% do material. O peixe fisgado…esquece das tramas amorosas, entrega-se ao fluxo digressivo pedindo mais.

Bom, o narrador deste “Breviário” narra a um amigo, ao que parece, na meia-idade, sua juventude e vida adulta atravessadas por ligação amorosa e sexual com a sogra. Sim, com a sogra, durante décadas, em segredo, sem que uma borboleta desconfiasse.

Coisas do acaso, coisas de cama; o autor parece dizer. Poderia ter sido com alguma Rainha do Rádio. Poderia, no romance anterior, ter sido com a copeira do palácio. Aconteceu de ter sido com quem foi; a vida é para ser enfrentada, sem tentativas ridículas de disfarces ou exercícios inúteis de culpa. Neste “Breviário”, como no romance anterior, o narrador não transmite vaidade pela façanha. Para orgulho ou para vergonha, a vida exige mais que ir para cama com esta ou aquela. Até pelo fato do homem ser um mero escolhido.

O que torna o livro além de delicioso, necessário, é o conjunto das observações cortantes sobre a Política e os homens do dinheiro, sobre jornalistas às voltas com políticos e homens de dinheiro; sobre o Poder, resumindo.

Um personagem, político e banqueiro, é, por exemplo, apresentado assim:

“Sua biografia, nos milhões de santinhos que mandava  distribuir pelo interior do Espírito Santo, contava que nasceu muito pobre na divisa com a Bahia, engraxou sapatos para pagar seus estudos e se empregou num pequeno banco aos 14 anos, como contínuo.
Já naquela época, era muito comum político dizer que havia começado a vida engraxando sapatos. A política nhambiquara é, quase toda ela, composta de ex-engraxates, mas o Senador  nunca engraxou nem os  próprios borzeguins, que não dispensava nas andanças pelo interior do estado. Fez o primário e o ginásio em Vitória, a expensas de seu pai, pequeno fazendeiro no sul da Bahia.
Trabalhou, sim, num pequeno banco, onde entrou como escriturário aos 18 anos, quando já estudava Direito. Banco pertencente a um tio seu.”

A cafonice destes poderosos anda de mãos dadas com a gula pelo dinheiro e o nenhum escrúpulo em obtê-lo e acumulá-lo, pelo que se nota em algumas das descrições do livro. Tampouco experimentam vermelhidão no rosto quando apanhados com as mãos nas carteiras alheias. Riem-se. Referem-se aos seus pares como “malandro”, sem desejo de ofender,mais como reconhecimento de méritos, ou como como saudação diária.
Não parecem temerosos de serem apanhados ou denunciados. Por quem, hein? quem pode acusar quem neste meio? E mais que isto: quem conhece quem neste meio? O narrador confessa ser pego de surpresa algumas vezes:

“E sempre fui bom analista de caracteres alheios, embora não consiga entender o meu próprio caráter. Que se pode dizer de um sujeito que come a sogra?”

Todos neste meio conhecido como “a Elite” carregam seus baús de historinhas, e tratam-se de abastecer dossiês, ou mandar vigiar os “amigos” encarregados de transportar suas arcas de tesouros. O narrador reconhece a dificuldade de narrar tudo que sabe, tudo que não tem como não se ficar sabendo:

“Mas a história deles dá um livro que não tenho tempo de escrever, mesmo porque ainda preciso contar minha história, se é que interessa ao leitor a história chocha de um sujeito que veio do Pará para estudar Engenharia, casou-se com bela moça, teve filhos e trabalhou mais ou menos honestamente, sem deixar de comer a sogra.”

E o narrador não faz estas observações com a pieguice de quem considera o Brasil um país perfeito, de gente maravilhosa, que só não prospera mais porque sugado pelos parasitas bebedores de champanhe. O Inferno é arquitetado e construído por cada brasileiro que desrespeita, sempre que a oportunidade surge, o direito e o espaço alheio, tornando a convivência um suplício de todos os dias:

“Não sabendo conviver, entre outros motivos porque não respeita o direito dos outros, o patrício inviabiliza os condomínios horizontais e verticais. Mata-se por vaga de garagem, mesmo  numerada e pintada no chão.”

O narrador narra as vicissitudes do seu tempo, mas observa, em algumas passagens, a piora no que já era ruim, ou a deterioração (irreversível?) do pouco que era bom. Tanto na segurança como na urbanidade no trato, quase tudo piorou. Mas a comparação mais pungente foi esta:

“Coisa curiosa: naquele tempo as pessoas decoravam a tabuada e sabiam fazer as quatro operações.”

O personagem narrador sente cumprir em si profecia feita por um conhecido sobre seu futuro como homem de banco: adquirira “olhos de vidro”. O dinheiro, e apenas o dinheiro, interessava e ocupava a mente. “Amigos? Quem tem amigos? São todos uns interesseiros.” “Tempo para descanso ou desfrute das coisas e pessoas das quais gostamos? Tempo roubado da obrigação de ganhar mais dinheiro.”

A ordem é conseguir e acumular, cada vez mais. E tirar da vítima preferencial:o pobre. O pobre se endivida e tem que pagar caso queira continuar se endividando. Os ricos? O narrador aprende que estes são excelente companhia para fins de semana em condomínios fechados; bebidas e gente bonita com pouca roupa. Não espere tirar nada dos ricos.

E todos aprendem a explorar os pobres, ou a classe média desejosa de respirar. Os banqueiros contam com exército de saqueadores. Os gerentes todos esmeram-se na rapina, senão estacionam na carreira. Ou são dela expelidos. Uma hora o sujeito não sente qualquer dó das vítimas; “antes eles do que eu”, dizem,  marcando jantares com as filhas deste mesmo meio, em restaurantes grã-finos, mirando seus Rolex.

O sujeito não apenas se acostuma, declarara amar o que faz:

“Um empreiteiro riquíssimo me disse, não faz muito tempo, que resolveu seu problema aprendendo a gostar daquilo que faz. Levado a extremos, seu raciocínio  permite que o cavalheiro aprenda a gostar de matar,  roubar,  teatro japonês,  discurso, festa infantil, buchada de bode,  música sertaneja, festa junina, baile funk, reunião de diretoria – essas coisas intoleráveis.”

Muito desta capacidade de adaptação ao ofício vem das anestesias; anestesia administrada em farras, ou na alegada religiosidade:

“Alguns dos maiores bandidos que conheci no meio bancário, e fora dele, eram incapazes de dar um traque sem falar da bondade de Deus, sem invocar Sua proteção, como se Ele existisse para abençoar agiotas, ladrões, estelionatários e homicidas.”

Esta observação do narrador leva às reflexões sobre Deus, e os deuses das diversas religiões, que terminam sintetizadas assim:

“quase todos feitos à imagem do Homo sapiens sapiens, sinal de que não são de confiança.”

Estas palavras, estas reflexões digressivas lembram as do autor do livro, expostas em um sem número de crônicas, tantas delas reunidas em livros. O que fez que o livro fosse apontado como autobiográfico, o que o autor sempre negou. O escritor empresta ao personagem muito do que é seu, e isto deveria ser conhecimento já estabelecido em apreciadores de literatura.

O narrador tem vida diversa da do autor do livro. O que pode ser dele, Eduardo Almeida Reis, em Cláudio, o narrador-protagonista, me parece irrelevante. “São apenas vidas e palavras”, parece nos lembrar a todo instante o autor do livro. Aposto que ele divertiu-se com as ginásticas mentais que sabia que leitores realizariam para identificar no livro quem é quem: personagens (alguns de identificação de relativa facilidade) mudam da vida real para vida ficcionalizada de estados,de épocas (que se fundem),graus de parentesco de personagens sofrem o mesmo processo. Como se Eduardo Almeida Reis dissesse:

“Isto, se Fulano é Beltrano, se X apontado como irmão mais moço de Y, era na verdade, primo distante ou sobrinho, se determinada Fulana é inspirada em Sicrana,se os fatos narrados deram-se mesmo nas décadas tais ou quais; nada disso importa, nada disso muda o que o livro quer dizer.”

O livro trata da luta pelo topo, ou o que muitos acreditam ser o topo, e o vazio e desespero que preenchem este topo. Tudo ilusório, nada aplaca ou atenua certas fomes. O dinheiro, a celebridade, o Poder.

Como o narrador percebe sobre aspirantes aos holofotes:

“Durante a subida íngreme, fazendo manobras audaciosas em tarefas hercúleas para realizar seus sonhos dourados, são capazes de conceder seus respectivos rabos pelos primeiros 15 minutos de fama. No poleiro, afetam aborrecer-se com aquilo que chamam de invasão de sua privacidade: só a pau!”

A satisfação, o narrador observa, vem do trabalho duro, do trabalho físico no contato com a natureza. Acordar cedo, sentir o aroma da vegetação úmida, enfrentar ferramentas, abrir caminhos, ocupar  o solo virgem. Como o narrador em “Bumerangue” na lida com a fazenda com um dia inteiro de trabalho a cumprir. Isto, a volta ao campo, salva a vida do narrador do “Breviário”.

Quem conhece a obra de Almeida Reis sabe de sua admiração por Eça de Queiroz, sobretudo “A Cidade e as Serras”, que celebra o campo rústico e másculo,contrapondo-o à cidade fútil e ladra da vitalidade. E quem conhece mesmo Almeida Reis sabe a diferença entre seus escritos rurais, nos quais celebra o cansaço e o recomeço de cada dia na lida com bois e vacas e as exigências da fazenda e a amargura do Almeida Reis urbano (contido, por exemplo, no volume de crônicas reunidas,”Burrice Emocional”); o humor cético tratando dos shoppings vazios de calor humano, os vizinhos insuportáveis (avós recebendo os “demônios de estimação”, impedindo a vida intelectual da vizinhança), os carros de luxo na Savassi transportando casais emburrados, os atendentes mal educados do comércio, os comerciantes com suas economias estúpidas, a feiura que embrutece pessoas já sem educação; tudo na cidade é Inferno. Talvez Inferno com alguns barzinhos agradáveis, mas mesmo estes, raros…

Eduardo Almeida Reis é dos últimos gigantes do texto entre nós. Sonho com série de livros memorialísticos que sei que transportariam muito do mundo da Imprensa e do Poder, que ele conheceu bem. E que são um making-of de seus romances, como este “Breviário”.

Sonhar não paga imposto.

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“Notas” – 02/02/2019

Sobre agir mais, lamentar menos

Recebo, via Whats’App, de um leitor e amigo, três vídeos que “têm tudo a ver como que a gente conversa, com o que você escreve”: um do Jordan Peterson explicando o Poder da penetração marxista na Universidade e nos meios de comunicação de massa, outro do Christopher Hitchens respondendo a uma confrontação de um ativista anti-ocidente,e a entrevista do Steve Bannon ao Allan dos Santos.

“Tudo a ver mesmo,você precisa assistir.”

Jordan Peterson já conheço há alguns meses, sou mesmo inscrito no seu canal no “YouTube”; um dos críticos mais agudos ao totalitarismo da casta acadêmica e nas reproduções deste totalitarismo nas mais diversas esferas da vida do homem médio, o qual não possui qualquer defesa, mesmo por desconhecer, na maioria absoluta, qual é a origem de muitos controles sobre sua vida. O homem comum sente o peso sobre si, apenas.

No vídeo enviado pelo amigo, Peterson diagnostica a razão de muito do Poder do marxismo, Poder que, se em outros tempos tinha a justificativa de ser um sonho do qual não se sabia,ou se sabia pouco, de como era quando realizado, hoje tem apenas o magnetismo de ser linguagem agradável aos que não desejam qualquer responsabilidade por seus fracassos. Claro que quando Perterson fala,e eu escrevo aqui sobre “marxismo”, não é o marxismo como escola de pensamento, a qual exige como qualquer escola de pensamento, estudo e leituras. Não, trata-se do conceito vulgar de marxismo, no que este tem de mais simplório, e atraente para cérebros que não desejam trabalho.

Para este conceito simplificado, até o máximo de distorção, de marxismo, qualquer êxito na vida de um indivíduo vem acompanhado não de esforço ou mérito, mas de exploração e roubo. Claro que intelectuais marxistas de fato sabem que esta é uma simplificação grotesca, mas burocratas de partidos de Esquerda não hesitam em utilizar esta fórmula de explicação de sucessos pessoais com a etiqueta “marxismo”. E esta etiqueta que se apresenta como marxista fala alto aos corações da massa adormecida na ignorância e nos corações de burocratas que sabem que o Poder está na mistura de ignorância e ressentimento fermentando no ânimo da maioria. E na estigmatização do indivíduo que tenha obtido sucessos em sua vida, ainda que com sacrifícios, ainda que com muito estudo,ainda que como exceção.

Peterson diagnostica o fenômeno, mas não sei se ele tem a fórmula mágica para a cura ou o tratamento. Bom, talvez o tratamento seja este, gente como ele, da Universidade, denunciar a Universidade por seus atos, por sua propaganda ódio mixado com mediocridade, ou cimentado na mediocridade. A denúncia do “politicamente correto” como forma mais bem acabada de totalitarismo. Não silenciar, não se omitir.

Como não se omitia Christopher Hitchens, o combatente oriundo do trotskismo. Não se admitia um convertido ao direitismo, ou conservadorismo (“paleo” ou “neo” ), ou ao liberalismo. Talvez desprezasse o liberalismo mais que ao conservadorismo.  Todas as entrevistas que vi dele em vídeos, exibem um sujeito em prontidão.

Quantos hoje podem se apresentar como “em prontidão”?

No vídeo, um ativista (não sei quem é, e confesso não ter procurado saber; sua “argumentação” sendo igual a de tantos) confronta Hitchens sobre a “culpa ocidental”. A conversa de sempre sobre imperialismo; não que não haja imperialismo, mas esta “denúncia” vindo carregada de pieguismos e simplificações ao gosto de plateia acostumada às simplificações e pieguismos. Hitchens primeiro apresentou suas credenciais: um combatente contra intervenções americanas desastrosas e autor de libelos contra Henry Kissinger. Em seguida, mencionou as atrocidades cometidas por islâmicos contra seus compatriotas, sobretudo mulheres. Para no fim devolver culpas ao interlocutor: “Se quiser se acovardar, faça-o em seu próprio nome, não no meu.”

Assim age um combatente, um intelectual que não foge de confrontações: apresenta dados, se mostra como contendor qualificado e avança sem temores. Quantos no Brasil de hoje em dia fazem isso? Quantos seriam capazes de dizer aos tiranos de casta acadêmica: “Sou um branco (ainda que por critérios brasileiros), sou contra racismos, já escrevi e estudei sobre a questão, e digo: nem todo branco é um herdeiro de exploradores e carregam culpa genética pela escravidão.Quer assumir esta culpa, faça-o usando você e seus filhos, seus colegas e filhos de colegas como exemplo. Não faça sua demagogia sobre as costas de brancos pobres ou apenas remediados.Não faça demagogia barata. Não venha culpar a mim, filho da classe média baixa. E vá, antes de qualquer coisa, procurar cura para sua dermatite de contato aos livros.”

Não tenho visto muitos intelectuais contrários à ideia das reparações fazendo isto. Uns por temerem marchar contra uma “verdade” estabelecida pela Universidade, outros por preferirem que os próprios negros vejam quem são estes “amigos” e não verem razão em se oferecer como mártires rotulados de racistas (incluo-me nesta categoria, admito), e a grande maioria por covardia mesmo. Pelo espírito de casta; não se consideram brancos, consideram-se “agentes políticos”, e decidem aderir ao coro da “culpa dos brancos” apontando brancos que não sejam do seu meio à execração pública.

Alguns que tentam combater sofrem de incompetência e mesmo de um certo racismo residual logo identificado por militantes bem treinados.

Aos cultos, falta coragem (e repito, não me excluo desta conta; em um dos últimos países do Mundo a abolir a escravidão, questionar certos dogmas é muito arriscado e muito contraproducente ) ; aos corajosos, habilidade e cultura mais sólida.

Haverá exceções, claro, mas não as conheço.

A entrevista de Steve Bannon ao Allan dos Santos foi o vídeo que mais me tocou; o que Bannon diz sobre a necessidade da Direita, ou dos inimigos dos totalitarismos de Esquerda (tanto faz, sobretudo no juízo da casta acadêmica), aprender com a Esquerda como agir, como ocupar espaços, como combater. Admitir que estes combatentes sabem das coisas, enfim. Não apenas sentar e chorar sobre avanços da dita Esquerda.

Bannon recomenda abrir canais do “YouTube”, criar blogs e sites, escrever peças e roteiros, militar na esfera cultural e no mundo dos espetáculos.

Como discordar?

Mas…como esquecer o que é a Direita no Brasil?  Neste ponto sou como Hitchens, não desejo ser reconhecido como conservador ou liberal,ou direitista)?

Bannon conhece pouco o que seja Direita brasileira. Conhece Olavo de Carvalho, mas muito pouco os ditos direitistas que se apresentam (ou são apresentados como, o que no fim dá no mesmo) como seguidores de Olavo de Carvalho.Ou direitistas não simpáticos ao Olavo de Carvalho, e seguidores de excentricidades variadas…

Bannon não sabe o número de canais brasileiros tidos como de Direita no “YouTube” ; soubesse e veria que muitos têm pouco público e nenhuma repercussão. A Direita (ou adversários da dita Esquerda) não prestigia a Direita (ou adversários da dita Esquerda). Há panelinhas acusando outras panelinhas de serem meras …panelinhas.

Blogs de Direita (ou adversários da dita Esquerda) idem…

Resta chorar? Não!

Eu por mim cito e sigo canais no “YouTube” com os quais me identifico (como me inscrevi no canal do Caio Coppolla,  que julgo talentoso e digno de respeito – e sobre o qual pretendo escrever mais),idem blogs e sites de gente que julgo com ânimo de combate e talento.

Sim, talento.Não me obrigo a prestigiar “formadores de opinião” que escrevem “mimimi” no lugar de “lamento” ou “lamúria” ou articulistas leitores de um só autor.

Já os que noto talentosos e combativos, sigo por gosto e, repito, por obrigação de militante.

E não deixo de escrever meus textos, mesmo sabendo-os divulgados apenas na surdina.

O que Bannon diz na entrevista me faz lembrar passagem da “História da Revolução Russa” de Leon Trotsky, onde Trotsky deitado no chão ao lado de Lenin, num intervalo das discussões no Instituto Smolny, no calor das reuniões do imediato pós-Revolução, via ali não dois indivíduos deitados, mas cinquenta anos de luta, trinta de Lenin, vinte dele, Trotsky.

Tempo… a Direita (ou os inimigos da dita Esquerda) precisa aprender a lidar com esta matéria.

E a determinação que vem dele.

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“Notas” – 26/01/2019

Sobre meu “pessimismo”

“Você viu as entrevistas do Flávio Bolsonaro durante a semana? Agora está esclarecido, só os que estão agindo de má-fé continuarão atacando; as pessoas vão perceber… olha não embarco no seu pessimismo. Você também me disse, no nosso último encontro, que se houvesse Direita que não  uns grupinhos de palhaços, Dilma Rousseff não estaria eleita para o Senado. E ela não se elegeu.”

Assim fui cobrado por um amigo e leitor do blog, no Centro. Estávamos próximos ao Ed. Acaiaca, o que exibe em sua fachada os dois índios que populares dizem ter o nariz escorrendo. Reputado como o edifício mais alto da cidade.

“Vê ali o Acaiaca? Edifício planejado, construído durante a Guerra. Até abrigo antiaéreo ele possui. O construtor não se agarrou a qualquer forma de otimismo que aconselhasse não gastar com uma possibilidade apenas remota de um ataque. A Guerra terminou, e ele está aí até hoje, como exemplo de algo bonito e bem feito. E que funciona; seus elevadores, garantem os admiradores do Acaiaca, viajam a 20km/h. Quantos edifícios mais recentes que ele desmoronam em decadência e feiura? O Poder é como um edifício planejado durante a Guerra. A derrota de Dilma Rousseff foi uma surpresa feliz, que poderia não ter havido; institutos de pesquisas davam-na como eleita. Não se calcula Poder por viradas eleitorais, ou pelas possibilidades infinitesimais de cálculo. Nem edifícios calculam-se assim. Bolsonaro ganhou a eleição presidencial e em menos de um mês está nas cordas.”

Lembro hoje deste diálogo de dois dias atrás. Todo o edifício do Governo Bolsonaro parece ter sido erguido sob a pressa eleitoral, com um punhado de sorte e noventa por cento de improvisação. Ganhou muito pelos erros do esquema de Poder do PT e associados, e assim mesmo com menos votos do que esperava (ainda que contando as reclamações de fraudes). Hoje exibe surpresa diante da orquestra e coral afinados nos ataques diários, com atualizações quase que por minuto. Esperava a trégua depois dos votos contados?

Escrevi no blog sobre a demora de cerca de quarenta e oito horas para responder às acusações sobre o ex-assessor; este intervalo de tempo teve na internet seu prazo de execução pública dos Bolsonaros. Não é difícil imaginar que a assessoria de imprensa,ainda que informal, da família do Presidente sofreu um golpe. Um “tilt”, como diriam os apaixonados por jogos eletrônicos. Tilt do qual parece vir se recuperando com a velocidade de um cágado reumático. Onde os tweets e vídeos atualizados ao menos de hora em hora?

Os inimigos do Governo Bolsonaro não parecem cansados de atualizar seus ataques.

Assisti as entrevistas do Flávio Bolsonaro durante a semana e a única conclusão à qual cheguei é que nelas falta o tom furioso da vítima de uma injustiça.

A melhor delas rendeu alguma coisa por conta do entrevistador, Boris Casoy. Este insistiu em apontar um erro cometido pelo entrevistado: a demora em responder aos ataques. Flávio Bolsonaro agarrava-se à lógica de que a imprensa não era a instância legal para sua defesa, ao que o jornalista lembrou-lhe que talvez não fosse mesmo a instância legal, mas era o meio adequado de se dirigir à massa. Documentos à mão (como os exibidos pelo Senador eleito) dizem pouco quando o ataque à imagem é reiterado dia depois de dia, minuto depois de minuto. Boris Casoy foi correto, e o que teve de incisivo teve de honesto nas perguntas. Não houve “pegadinhas” ou tentativas de confronto.

Quem aconselhará Flávio Bolsonaro? Algum advogado sem dúvida conhecedor de leis, mas ignorante de Política? Algum jornalista da escola “Não dê confiança, não responda provocações”, do tipo que orientou a então Oposição ao PT?

Pois não faltam jornalistas que deveriam assinar-se “Fulano É Isso Que Eles Querem Que Você Faça de Tal” ; não duvido que, a cada entrevista dessas do Flávio Bolsonaro que convenceram apenas a quem estava convencido de sua inocência, tenham telefonado a ele com a avaliação: “Ma-ra-vi-lha!!!”

Com amigos, aliados ou apoiadores (preciso escrever que de ocasião? onde muitos destes novos amigos há poucos anos?) do tipo, ninguém precisa fazer inimigos ou opositores.

O que noto é que os Bolsonaros estão assustados com a fúria das redes sociais inimigas; onde os conselheiros políticos que não os advertiram que com eles não haveria lua-de mel?
O ânimo de combate parece ter se esgotado com a eleição, e com a eleição a guerra apenas teve início. Não os advertiram de nada,nada.

Acusam Olavo de Carvalho de funcionar como guru da família Bolsonaro, mas suspeito que a família ouve muito mais os cientistas políticos improvisados que o autor de “O Jardim das Aflições”; não é possível que não tenham entendido as advertências feitas por Olavo logo houve o anúncio da vitória eleitoral.

Outra coisa que me inquieta: onde uma coordenação para monitorar ataques nas redes sociais? É preciso rastrear autorias de ataques ao Presidente, ataques que são replicados por celebridades televisivas sem um acréscimo de uma vírgula, muitas vezes. Os simpatizantes do Presidente no lugar de procurar a matriz dos ataques insultam as ditas celebridades televisivas, que apenas seguem o rebanho; como fariam mais que seguir rebanhos se as paredes de suas casas são nuas de livros? Os ataques e cobranças debochadas de explicações são de autoria de publicitários e assessorias de imprensa das ditas celebridades, e estes mentores de linchamento virtual seguem incólumes enquanto a massa de eleitores e simpatizantes os ignoram. Não há quem tenha pensado nisto? Não há quem esteja investigando isto? Não há assessoria presidencial?

Ninguém processa ninguém.

O que tenho visto são perfis fake de twitter atacando não apenas a política do Presidente (o que faz parte da Democracia) mas distorcendo dados e emitindo ataques pessoais. Sem medir palavras, abusando do anonimato. Intimidando quem ousa questionar.

Dois episódios recentes mostram que há regentes para estes corais: o anúncio da renúncia de Jean Wyllys e a tragédia da barragem de Brumadinho. Em ambos casos, twitteiros anônimos e famosos replicam-se sem constrangimento. No caso de Brumadinho, celebridades e anônimos exercem militância contra Bolsonaro, militância que não vi quando houve episódio do rompimento da barragem de Mariana. Replicam-se sem dissimulações ou cuidados.

Que esperam para reagir?

Poder é como edifício planejado durante a Guerra, repito.

O que os atuais governistas esquecem, quando não ignoram, é que nenhuma facção política realiza no Governo o que não forçou governos a realizar enquanto foi Oposição. O PT não fez muito mais no Governo do que forçou o PSDB a fazer enquanto oposição a este.

A militância oposicionista do atual Governo ao antigo governo teve seus méritos, mas isolados, sem coordenação e organicidade. E daí virão muitos dos problemas que sequer começaram. Como organizarão forças de pressão eficazes?

Vinte e seis dias e nas cordas. Como estará depois da operação do Presidente e do fim do carnaval, quando o ano começará de fato? Decerto os governistas contam com alguma trégua, quem sabe? Ou imaginam que a fé nos que votaram em Jair Bolsonaro não sofrerá abalos.

Não consigo ser otimista, embora consciente que esta minha maneira de perceber os fenômenos possa render acusações de “pessimismo profissional.”

Antes pessimista que irresponsável. Nós, que podemos ler e escrever, temos responsabilidade maior que milhões que saltam com o céu escuro da cama após noite mal dormida, apenas cochilada, neste verão que cozinha gente, para jornada de trabalho impiedosa.

Se não tivermos responsabilidade agora, como enfrentaremos o que virá se este governo fracassar, e fracassar muito antes do previsto?

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“Notas” – 20/01/2019

Sobre desistir de lutar aos vinte dias de governo

Vinte dias de Governo e parlamentares do partido do Presidente exigem questionamento suave dos eleitores e simpatizantes do Governo após viagem à China:

“Somos X votos, o Governo precisará de apoio”.

Sim, a faca no pescoço do Presidente, e nos pescoços de tantos que votaram (e que votariam de novo, ainda que seja provado algo contra seu filho Flávio Bolsonaro) em Jair Bolsonaro não esperou mais que vinte dias.

Como não considerar que se apostou errado? Como não desistir de lutar quando o fogo amigo não esperou um mês para demonstrar aos eleitores que os adversários do esquema de Poder do PT e associados não apenas não estavam prontos, mas não mereciam o Poder?

Ainda que, repito, não acredito que os eleitores mudassem o voto fosse a eleição amanhã, o ânimo para apoiar o Governo sofre golpes diários. E este Governo precisará, mais que qualquer outro na História do Brasil, de defensores dispostos.

Mas…como defender Governo que ou se cala diante de acusações ou responde acusações contando gotas? Como manter a disposição de combate quando o Governo parece cauteloso em excesso? Como discutir nas redes sociais com acusadores sem os dados da defesa?

A viagem dos parlamentares do PSL à China para conhecer projeto ligado à Segurança aconteceu na mesma semana em que a organização Human Rights Watch foi à Secretaria de Governo encontrar com o Ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz e exigiu do general definições sobre possível monitoramento da organização, conforme reportagem publicada n'”O Globo” e reproduzida na “Tribuna da Internet”. A reportagem diz que o general Santos Cruz tentou se esquivar da definição e viu-se cobrado pelo representante para as Américas.

Como eleitores de Bolsonaro não se decepcionariam com o que parece negar o tom da campanha presidencial? Eleitores sonham com Brasil que possa manter independência, ainda que mínima, de organizações que se consideram, ou parecem se considerar, acima de governos, e cujos representantes mostram-se dispostos a levar ministros às cordas.

Assim como esperam que Jair Bolsonaro ou qualquer outro nome forte do Governo se manifeste sobre parlamentares que exigem respeito, por serem da base de apoio.

Seria pedir muito? Seria exigência exagerada dos que se expuseram como eleitores ainda que isto implicasse em perdas de amizades e banimentos de determinados círculos sociais?

Mas há quem lute sem demonstrar cansaço.

Como não considerar meritória a intervenção de Olavo de Carvalho neste episódio da viagem à China? Quem levantou as discussões sobre a natureza da empresa autora do convite e do projeto de reconhecimento facial foi Olavo, em vídeo.Mesmo Reinaldo Azevedo, agora rompido com Olavo, defendeu sua intervenção.

Mas alguns discípulos de Olavo de Carvalho erraram, e feio, nas discussões, sobretudo com Alexandre Frota. “Burro “ e “ator pornô” foram os argumentos mais repetidos. E Frota tem razão ao apontar que estes direitistas em nada diferem dos esquerdistas que, sobre Frota, dedicam os mesmos argumentos. Contra Frota e sobre Frota,não precisa mais que isto, parecem pensar. Em ambos, noto que estes argumentos ficaram esquecidos quando não estavam em guerra contra ele. Parecem descobrir sua pouca leitura e seu histórico na pornografia apenas quando brigam com ele. Quando em paz com Frota, este é “autêntico”, “carismático”. Foi assim na Esquerda, e está sendo assim na Direita. Ora, como Frota respeitaria um lado e outro, ambos sobrelotados de hipócritas? E Frota é, apesar do equívoco de considerar uma viagem à China tratando de segurança como igual às que tratam de exportações, um combatente que vale muito. Ao contrário dos deputados eleitos pelo PSL que não se elegeriam (ou alguém acredita que se elegeriam,como afirmam?) sem o símbolo Jair Bolsonaro, Frota tem um nome e se elegeria,de qualquer maneira, com sua notoriedade e com as bandeiras que empunhou na campanha.

(Olavo de Carvalho não engrossou, até onde sei, estes ataques. Reiterou suas declarações de respeito pessoal a Frota, inclusive. Assim como Frota fez questão de dizer que separava Olavo e seu respeito por ele, dos hipócritas que seguem Olavo, ou dizem seguir Olavo)

E Bolsonaro chega aos vinte dias de Governo com o segmento ideológico que votou nele ocupado com guerras internas. Isto é estar sentado em cadeira com os pés mal parafusados, com o calço falho. Não sentiria o gabinete amplo, solitário e gelado demais?

O Poder é como mulher a quem não basta que seu pretendente zele pela mãe idosa, ou seja um conhecedor de literatura. Cuidados com o corpo e com sua posição social acima do que seriam apenas obrigações cumpridas.

A Esquerda sabe disto.

Lula viajou o Brasil quantas vezes, criando redes de apoiadores, antes de ser eleito Presidente? E o PT existia enquanto redes de militantes desde muito antes de sua fundação como partido. Souberam plantar o que não saberiam depois colher.

Mas a agenda do PT para Educação, e Segurança já estava sendo cumprida antes da chegada formal ao Poder, e isto é o Poder, compreendem?

Quantas redes de blogueiros esta Direita forma? Quantas redes de contato que não sejam grupinhos de WhatsApp estão em exercício?

Isto talvez contribua para o sentimento de extrema insegurança que o Governo deixa transparecer nestes vinte dias. Os inimigos são concretos enquanto apoiadores são virtualidades. Eleitores? Bom…isto pode desaparecer em uma onda de impopularidade.

Penso que a comunicação com os eleitores deveria ser melhorada; lives de Bolsonaro têm a inconveniência do formato, cansativo e quebradiço.

“Como não desistir de lutar nestes vinte dias infelizes?”

Lembrando da alternativa, he,he…

Mas este recurso de lembrar que tudo poderia ser pior tem data de validade. Jair Bolsonaro e seu governo precisam definir e unificar ações o quanto antes.

Porque depois não serão mais “apenas vinte dias”.

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“Notas” – 12/01/2019

Sobre algo bem pior

Jair Bolsonaro em evento recente advertiu sobre o perigo de seu governo errar “e voltar vocês sabem quem”. Parece não ser esta a primeira vez que adverte sobre este perigo.

Não, não acredito que o PT volte; o PT perdeu votos mesmo no território social que julgava seu: as classes mais baixas, que seriam, pelo cálculo que foi possível presumir, beneficiário de políticas sociais (na verdade, alguns programas assistenciais) e gratas pela eternidade ao Partido. Esqueceram (estes estrategistas de gabinete) que mesmo estas classes sofrem com a criminalidade e com a educação pública de qualidade nula. O PT parece ter perdido de vez os grandes centros.

Mas o “Pós-PT” não sofreu este desgaste. A coligação de forças (que incluiria o próprio PT, não mais como a vedete-chefe da companhia) da Esquerda (ou campo dito progressista, ou dito democrático) saberá capitalizar os setores insatisfeitos que poderão surgir, alegando não ter sido Governo e portanto, ter algo a oferecer. A eleição de Alexandre Kalil para a prefeitura de Belo Horizonte em 2016 mostra que o “Pós-PT” (o vice era, ou ainda é, da “Rede”) tem força nos grandes centros e não sofreu associação na mente da massa com o PT.

Vejo o PC do B como o carro-forte desta composição; movimentos ditos sociais e pequenas legendas da Esquerda foram quase que por completo anexados; o PC do B não descuida da formação de quadros, de seus institutos. De partido que era há vinte anos quase que dedicado ao dito movimento estudantil, vem ao longo destes anos transcendendo este limite, muito mais que o PT. Nada de filiações em massa de indivíduos, a operação mira lideranças. Mesmo quando tentou-se a candidatura controversa de Senhorita Andreza à Câmara Municipal de Belém do Pará, o objetivo era fixar lideranças, ainda que lideranças folclóricas. O mesmo se dá com candidaturas ligadas ao movimento de “profissionais do sexo”. Ainda que em muitos casos o resultado eleitoral não tenha sido bem sucedido, a ocupação de espaços no chamado lúmpen é algo a se considerar na luta política de médio e longo prazos. Mostra que o “Pós-PT” através de seu braço mais musculoso não está dormindo, ou resignado em prostração. Sem falar de movimentos de “sem-teto” e dos movimentos de “minorias”. O “Pós-PT” não descansa.

Vejo na Direita uma tendência ao descanso, ao repouso após a batalha de 2018, e a guerra sequer começou. Vejam que setores ainda insistem na “farsa do atentado”. Quem processa? Quem defende o governo recém-empossado com a energia que a Esquerda se defenderia fosse ela a vítima de um atentado e vítima de acusações de fraude do atentado?

Não noto nos vitoriosos de hoje a preocupação que seria fruto do raciocínio “Fosse eu a Oposição que faria para dificultar a vida destes sujeitos?”

Acusações sem respostas conclusivas, desencontros entre o Presidente e ministros; isso no primeiro mês ainda não machuca tanto, mas, e se em um ano a coisa permanecer errática? Capital político desperdiça-se nesta confiança demasiada na fidelidade do eleitor.

Incomoda-me esta Direita pró-Estados Unidos e pró-Israel; a massa que votou em Jair Bolsonaro não é toda assim, muitos que votaram no presidente atual tem no Brasil sua preocupação-limite. O Brasil tem suas guerras internas a vencer e nenhum país deve devotar alinhamento automático a outro.

Lembro passagem de “Veil”, livro de Bob Woodward que trata da CIA no período Ronald Reagan, onde o embaixador da Arábia Saudita nos Estados Unidos, Príncipe Bandar, recebe advertência do Reino sobre excessivo alinhamento, na qual eram lembradas passagens então recentes onde o interesse dos Estados Unidos e da Arábia Saudita não coincidiram.

Países têm suas questões de contato com países de sua influência e suas questões isoladas e o novo Governo do Brasil terá que discernir entre as naturezas destas questões.

Israel é questão que não diz respeito aos brasileiros. Os advogados deste alinhamento do Brasil invocam o exemplo de Osvaldo Aranha e seu voto na ONU por Israel.

Cito Carlos Lacerda:

“A minha tese era da abstenção (…) Eu achava que o Brasil deveria se poupar, porque não tendo ou não podendo ser suspeitado de intuitos imperialistas, poderia futuramente até ser usado como um dos intermediários possíveis entre partes litigantes, ao passo que, tomando partido, teria que sustentar o seu voto pelo resto da vida.”

Lacerda conta que o Min.das Relações Exteriores, Raul Fernandes, chamou-o ao Itamaraty e mostrou-lhe as instruções dadas ao embaixador do Brasil na ONU, Osvaldo Aranha: “Na questão da Palestina deveis abster-vos de votar.”

Continua Lacerda:

“Mas o fato é que o Osvaldo, envolvido pelo New York Times, envolvido pelo clima muito pró-judaico de Nova York, envolvido enfim por uma série de coisas, tornou-se assim, um dos heróis da nação israelita, porque mudou o voto do Brasil”

(“Depoimento”, Carlos Lacerda, pág.97. terceira edição, Nova Fronteira)

Logo…alegar o “papel do Brasil como fiador de Israel” como pretexto para comprar briga que não tem conosco qualquer ponto de contato…

Venezuela é briga nossa, não Israel.

Há o esforço de caracterizar qualquer crítico de Israel como esquerdista, e no Brasil esta nova Direita esquece, quando não ignora, os textos publicados na revista “Manchete” (a qual era pró-Israel) de crítica perfurante a Israel, de David Nasser. Seria David Nasser um esquerdista, no julgamento destas direitas colonizadas?

Há muito a se fazer para atender país que escolheu Bolsonaro para cuidar das coisas do País. Estes eleitores são os responsáveis pela vitória de Bolsonaro, não lideres religiosos ou líderes de segmentos político-intelectuais.

Como escrevi semana passada:

“Houve um sujeito dizendo: ‘Não importa o que digam os formadores de opinião, mas há muita coisa a se mudar no Brasil. Precisamos, rever, e com urgência, muitos dogmas.’ E houve milhões respondendo: ‘Também pensamos assim. Conte conosco.'”

Há que atentar para o uso de citações tortas e dos termos inexatos. Há que se pensar, como compensação às políticas amargas de recuperação econômica, em programas sociais que apaguem das massas qualquer saudade do PT, enterrando assim qualquer avanço do “Pós-PT”. Há que trabalhar mais e reduzir o folclore ao mínimo.Há que mirar com precisão no poder da casta acadêmica. E o Governo verá que não sobrará tempo para adotar agendas alheias, com base em ideologias .

Pois algo bem pior poderá surgir aos que temem a volta do PT.

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“Notas” – 05/01/2019

Sobre a posse de Jair Bolsonaro

“Foi uma posse histórica.”

Bom, qual posse presidencial não o é? Penso que mesmo posse de ditadores ou “presidentes” eleitos por colégio eleitoral o sejam; alguma aptidão a pessoa necessita ter (ou aparentar ter) para subir as escadarias dos palácios como ocupante temporário.

Tenho idade para me lembrar das posses da Presidência desde José Sarney; lembro parentes concordando com o clima de velório da cerimônia, pois acompanharam a eleição pelo Colégio Eleitoral (lembro de minha mãe acordando a mim e ao meu irmão, ambos pré -adolescentes) e sentiram que a História havia trapaceado.

Cinco anos depois, a posse de Fernando Collor; houve certa euforia, mas o comportamento altivo do ex-Governador de Alagoas não permitiu exteriorizações de euforia. As trocas de ofensas entre o presidente que entrava e o que saía também não deixou de apresentar o preço da troca de sorriso engessados na observação estrita da gentileza obrigatória mínima.

Foi o Plano Real muito mais que Fernando Henrique Cardoso a estrela da posse, e não consigo me lembrar de comoções populares. Um sujeito simpático sim, mas a massa não parecia vibrar com sua figura recebendo a faixa do presidente anterior, Itamar Franco (confesso não lembrar da posse do vice de Collor), uma vez que ele estava, desde o Plano Real, já com os dois pés no Palácio. E presidente eleito da situação parece não comover tanto, parece. Não foi o fim de grandes batalhas políticas.

Lula? Lula sim. Era um ex-operário e um dirigente partidário de Oposição, recebendo a faixa depois de anos de militância política e três eleições das quais saíra derrotado. Mesmo os que não votaram nele notaram a História já debruçada sobre o desfile diante da Guarda, o carro empurrado, lembram? E Lula é, sem dúvida, político com alto poder de comunicação. Repito: mesmo eleitores da candidatura derrotada não conseguiram negar a evidência histórica daquele momento. O que veio depois….veio depois.

Ora,ora, Pawwlow, Dilma Rousseff também teve posse memorável?

Bom, que vocês dizem sobre a primeira presidente eleita, desfilando não com o Primeiro – Cavalheiro, mas com sua filha? Como escrevi sobre Lula no parágrafo acima: o que veio depois…veio depois. Negar a História é tolice. Foi sim um dia memorável, sou dos que consideram Dilma Rousseff mais nociva quando calada,não quando legando suas declarações sem dúvida inspiradas – e já imortalizadas – pelo espírito da graça involuntária.

(E aproveito para repetir aqui o que já escrevi em textos anteriores: ela e seu antecessor são menos culpados pelo que fizeram ao Brasil que a incompetência e desinteresse da Imprensa dita de Oposição.)

A posse da Jair Bolsonaro foi a que mais me comoveu, das que assisti. Um homem ainda por se recuperar por completo de um atentado sendo recebido pelos gritos de população ainda mais animada que a da posse de Lula; não me pareceram todos loiros com camiseta da seleção brasileira, ou turistas vindos dos bairros nobres de São Paulo e Rio de Janeiro.

As palavras ditas no Congresso Nacional (sob a vista de dois ex-presidentes, José Sarney e Fernando Collor) e no Parlatório podem não ser destinadas a integrar antologias de oratória, mas me pareceram sinceras e coerentes com as palavras ditas em anos como combatente e em meses de campanha. E isto merece o respeito. Nem escrevo sobre o tom firme e o olhar repleto de convicção.

Pois é de convicções que se fez esta campanha. Não de maquiagens retóricas executadas por marqueteiros ou conselheiros do mundo jornalístico. Houve um sujeito dizendo:  “Não importa o que digam os formadores de opinião, mas há muita coisa a se mudar no Brasil. Precisamos, rever, e com urgência, muitos dogmas.” E houve milhões respondendo: “Também pensamos assim. Conte conosco.”

E daí talvez o gesto de Bolsonaro que apontava a faixa presidencial e dela apontava a massa; esta faixa, pareceu-me querer dizer Bolsonaro, é de você que comprou briga na sua comunidade, que não se intimidou na escola ou na faculdade, que perdeu amizades, ou mesmo namorada(o) s. A faixa é também, arrisco-me a interpretar o gesto do Presidente, de todos vocês que confiaram nos seus olhos e ouvidos e viram o quanto estes estavam negando o que formadores de opinião, sintonizados com a casta acadêmica (por formados por ela), repetiam sem cansaço durante os últimos anos.

Houve uma comunhão mental entre este homem e seus eleitores, talvez nunca vista na História do Brasil. Uma simbiose, se preferirem. E daí este gesto da faixa presidencial parecer nada demagógico, nada teatral.

Lembro de diálogos na fila do ônibus; brancos com toda pinta de universitários caprichando na expressão de nojo quando informados pelo alarido das vozes (vozes de negros em roupas de trabalho pesado, nada perfumados ou elegantes) sobre a preferência eleitoral majoritária daquele meio social. Filas que sempre ofereciam, a quem quisesse ouvir, narrativas sobre trabalhadores assaltados, na presença de filhos, na chegada do dia de trabalho duro, pesado, impiedoso. Um destes trabalhadores negros comenta com seu colega de banco de ônibus, na sexta-feira anterior ao Primeiro Turno :

“E Domingo, hein? Vou de Bolsonaro. Eu e todo mundo da minha casa”. O colega de banco de ônibus diz ser este o placar pré-eleitoral também em sua casa.

No corredor oposto do ônibus, universitário típico, afrouxa o colarinho enquanto faz careta.
E o negro retoma, agora quase gritando:

“O negócio é votar no Bolsonaro mesmo… Bolsonaro na veia.”

É isso aí!

Notei em Fernando Collor olhar que me pareceu dizer:

“Bolsonaro, não cometa os erros que cometi, não desperdice chances.”

Ah! A Primeira Dama Michelle Bolsonaro…seu encanto natural não poderia deixar de ofender. Sua espontaneidade parece fora de dúvida quando a assistimos observando o intérprete da linguagem de sinais vertendo o Hino Nacional aos deficientes. Não me pareceu pessoa que trabalha seguindo manuais de etiquetas e poses. Daí tomar a iniciativa de discursar antes do marido em linguagem de sinais, daí o beijo na boca do marido, daí o sorriso. E daí seu carisma. E…daí os ataques. Querem saber o que penso? Ela tirará de letra estes recalcados.

Pena que os petistas tenham ofuscado com seus atos as belas recepções que a massa oferece aos vencedores e que ofereceu a eles. Repito: foram sim belas posses, dias memoráveis mesmo. Lula e Dilma Rousseff receberam carinho e reconhecimento do que suas figuras tinham de particular em uma posse presidencial.
Que eles desperdiçaram sem dó dos que neles depositaram expectativas.

E tentam agora diminuir uma bela posse na lógica pequena de que isto serve como posição política. Não, não serve. A massa que, como pareceu dizer Bolsonaro no gesto da faixa, também tomou posse, percebe o desprezo, e tende a devolver o desprezo com mais desprezo.

Que Bolsonaro não se deixe afastar dos seus irmãos de vitória por conselhos dos apóstolos da pacificação pelo alto, são os meus votos.

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