Dos perigos de ler “Cadernos Culturais”

Nos meus dias de adolescente, fui leitor devoto da “Ilustrada” e da “Bizz”e tomava estas leituras por oráculos. Hoje, mesmo a data constante no Expediente eu julgo inconfiável. Luis Fernando Veríssimo ao dizer que “às vezes, num jornal a unica coisa verdadeira é a data” me parece temerariamente otimista.

Coleciono tolices publicadas nos “cadernos” e me parabenizo por ter desertado da seita dos “consumidores culturais “. Abaixo vão dois exemplos do que me despertou do sonambulismo.

Direi dos presentes do Natal, dois Dvds, um de minha escolha, outro surpresa oferecida por um irmão que é, além de musico, apreciador da matéria.

Escolhi “The Bible … in the beginning”do John Huston,  cineasta de minha admiração e mestre pouco citado pelos cinéfilos forjados em leitura de cadernos ditos culturais. Lembro de artigo de Pepe Escobar na finada “Bizz” sobre Francis Ford Coppola, em que este era citado como um continuador da tradição de, entre outros cineastas que elevaram esta arte ao status de produto intelectualmente respeitável, John Huston. Lembro também de Paulo Francis (leitura que ainda hoje tomo por digna de atenção e respeito) entrevistando Huston para a igualmente finada “Status” por ocasião do lançamento de “O homem que queria ser rei”. Entrevista, por sinal,  merecedora do qualificativo de “Antológica”. À certa altura, Francis interpela Huston sobre “A Bíblia”, dizendo não entender o filme,  um “fracasso artístico”, em sua opinião. O cineasta respondeu que o filme, além de digno, não era (cito de memória) típico como filmes de Cecil B.de Mille e que havia dado nele o melhor de si. As críticas que encontro na internet se dividem entre qualificar o filme como” grandioso, épico” e lamentar que o filme não seja comparável aos filmes bíblicos tradicionais. Acredito que não tenham visto o filme como obra de um cineasta de arte, o que justamente Huston era. Além de sua interpretação de Noé, o episódio da destruição de Sodoma e Gomorra traz os elementos do cinema do diretor de “Reflections in a Golden Eye” como um certo impressionismo narrativo, os mergulhos em luz e sombra que desavisados acreditam inventados por Coppola em “The Godfather”, o fatalismo temperado por humor negro, etc, etc. Bem, admirei o filme por suas propriedades e mais uma vez constatei o quanto leituras de resenhas podem nos roubar.

A surpresa que ganhei do irmão musico (multiinstrumentista, desenhista, versado em informática, por mim chamado Alexandre de Alexandria) foi o “Acústico MTV Paulinho da Viola”. Digo que ignorava que Paulinho da Viola tivesse lançado seu “Acústico”, o que deu ao presente toque de surpresa dupla, e ainda bem que fui ao DVD sem ter lido as resenhas (que li posteriormente). As resenhas ou elogiavam muito genericamente, ou eram iniciadas por comentários do tipo “Paulinho da Viola rendeu- se ao ‘Acústico’ “, sem atentar que o DVD é bem atípico dos produtos MTV. Nada de convidados especiais escalados entre os “modernos” (tão do agrado da “Casa”); músicas executadas com a habitual sobriedade elegante do homenageado, com músicas inéditas e algumas pouco conhecidas e mesmo os clássicos soaram, por sua precisão, rejuvenescidos. Pouquíssimas resenhas foram justas ou deram ao leitor ideia do produto. O que me perturba ao re assistir ao DVD é a simplicidade do velho mestre, muitos sem a milésima parte do seu talento são tão, tão afetados. Mas sua dimensão histórica e sua importância só serão devidamente apreciadas quando ele se juntar ao panteão dos que em vida foram igualmente tratados (e cobertos de reverência no cemitério), seus amigos Zé Keti, Cartola, Nelson Cavaquinho.

Os resenhadores cuidarão disso, ao menos. Dedicarão suplementos e textos pomposos dolorosamente árduos e recheados de falhas, mas “homenageativos”.

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