Abdias do Nascimento sobe ao Olimpo Negro

Soube de Abdias em debates televisivos em meados dos ’80,  a presença na TV de alguém que se manifestava em linguagem limpa de eufemismos e a firmeza de sua postura me chamaram a atenção,  sempre gostei de figuras carismáticas que  ganham dos acomodados e medíocres o rótulo de “polêmico” (ele parecia ciente da necessidade de ser polêmico e explosivo para que sua mensagem não se despontencializasse na euforia do que se chamou naqueles dias “o carnaval da redemocratização”),  nunca tive atenção captada por figuras mornas e Abdias fervia na TV, era, assim como Luis Melodia, Cartola, Martinho da Vila, rockers e bluesman e sambistas vários,  a personificação de algo que quando dito sem ter em mente tais figuras, se torna recurso retorico gasto e oco,  a negritude.

Poucos anos depois li “O Negro Revoltado”(volume que continha os debates e teses de dois Congressos  sobre a situação do negro no Brasil,  encontros nos anos 50 que reuniram lideranças negras de vários extratos sociais discutindo os mais variados aspectos da convivência negra na sociedade brasileira) e as intervenções de Abdias nos dois Congressos e seus textos que tratavam de suas andanças no exílio (textos que completavam o volume, publicado pela Nova Fronteira) me confirmaram a impressão – Abdias do Nascimento era inflamável,  não armazenável em módulos elaborados pelo estamento universitário (ao qual ele próprio pertenceu) que tudo quer conter, qualificar e domar, drenar as forças , mumificar enfim.

Fui a encontros da “Juventude Negra e Favelada” (assim se apresentavam nos anuncios de jornais as reuniões no Centro de Cultura da Rua da Bahia, antigo Museu de Mineralogia) e uma militante que tentou me calar aos berros por eu ter ousado discordar de seus pontos de vista emprestados de lideranças petistas (ela se horrorizou com o que qualificou como um “desrespeito” meu – eu disse que os jovens deveriam tomar “vergonha na cara” e se livrar de tutores da Universidade) quando perguntada por mim se lera Abdias do Nascimento admitiu que não, mas o fez como se tal falha fosse um pormenor levantado por um excêntrico. Muito BH – um “líder negro”da cidade na ocasião escreveu  para a seção de cartas da (se não me engano) “Veja” dizendo ter orgulho de ser petista, pois o PT fora  pioneiro na defesa do negro, algo assim –  como discutir num ambiente destes?

Mas nestes encontros conheci Dj Francis que naqueles dias integrava com Mc Renegado o grupo N.U.C (Núcleo de Unidade Consciente do Alto Vera Cruz) e iniciei amizade que se interrompeu (espero que por brevíssimo intervalo) .  DjFrancis veio à minha casa e se interessou pelo “Negro Revoltado” na minha prateleira e eu disse a ele “Tome como presente, ele tem mais serventia na sua estante que na minha” e não preciso escrever o quanto a retórica e o magnetismo do “Negro por Excelência” cativaram Dj Francis que sempre que me encontrava, agradecia o livro que dizia não conseguir largar. Sou feliz por ter propiciado isto (o encontro com um autor que ilumina) a um amigo.

Se discordo da política de cotas (a qual validaria o racismo, por considerar negros  necessitados deste expediente para entrar na Universidade e quem não sabe que negros não precisam disto? Quantos negros além do grande Abdias não causam justa inveja ao branco por brilhantismo?) concordo com tantas outras posições e questionamentos do Movimento Negro, ao qual Abdias dedicou sua vida, sempre buscando o nivelamento pelo alto (daí não entender sua defesa das cotas, ele – o  teatrólogo que obteve autorização de Eugene O’ Neill para montar uma de suas peças  e autor de peças que mereceram elogios de Nelson Rodrigues, o qual muito o admirava- não precisou de cotas ) e a não vitimização passiva do negro .

Abdias tinha tal liberdade espiritual que jamais escondeu sua passagem pelo Integralismo, como muitos o fizeram e o fazem ainda – não temia patrulhadores  e quando veio ao Brasil ainda no exílio para o casamento de um filho de seu amigo Gerardo Mello Mourão deu entrevista às paginas amarelas de “Veja” onde denunciava as perseguições que sofria da Ditadura (tais como a retenção de seus documentos, passaporte, me parece) ao seu ver pelas suas posições pró -Negro, uma vez que não era comunista – quem em tempos de gigolagem de indenizações teria esta coragem, esta recusa em se vestir de vermelho ate as cuecas apenas para ficar bem?  Aliás, na introdução do volume “O Negro Revoltado” ele notava o racismo dos círculos comunistas americanos.

O maior crime contra o negro no Brasil ao meu ver foi sua redução histórica, a violência de se jogar um povo que já estava na Idade do Metal na Idade da Pedra junto aos índios,  mas este crime histórico muitos negros evitam denunciar, temem a pencha de “Politicamente incorreto” e a perda automática de apoio de ONGs que tal atitude implicaria. Não sei a opinião de Abdias sobre isto, mas sei que isto não devia ser alheio a ele, que reivindicava aos negros a autoria da Cosmogonia que muitos atribuem aos gregos- mitologia que, segundo Abdias, se propagou pelo delta do Nilo e acredito pessoalmente nesta interpretação histórica.

Os deuses do Olimpo Negro saúdam o guerreiro Abdias numa noite na qual o Brasil sofreu mais um desfalque dificílimo de repor.

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2 respostas para Abdias do Nascimento sobe ao Olimpo Negro

  1. Diego Iraheta disse:

    Prezado Fernando,
    Obrigado por ler e compartilhar teu blog.
    Pelo que li, noto que temos uma admiração semelhante pelo grande Abdias do Nascimento. Estudei-o por meio do teatro (TEN) e, em 2006, tive o prazer de conhecê-lo e entrevistá-lo.
    Que bom que as leituras dele iluminaram não só nós dois, mas milhões neste Brasil, inclusive seus amigos.
    E uma pena que a mesma imprensa que o entrevistou, com destaque, na época da ditadura (vide sua informação da Veja) não lhe dispensou a atenção merecida, capas e manchetes de maior destaque.
    Em relação às cotas, temos opiniões divergentes.
    Não vejo ações afirmativas como uma forma de diminuir o negro, de dizer: “olha, já que você não consegue, vamos nivelar por baixo”.
    Nada disso!
    Creio que é uma verdadeira política de inclusão social (aliás, ponto convergente dos governos FHC e Lula), que busca reparar não só os erros do passado (como escrevi no meu artigo no Brasil 247, a falta de políticas públicas para ex-escravos), mas corrigir a desigualdade que impera no presente.
    Pois, se Abdias brilhantemente enfrentou o preconceito e levou a dianteira de iniciativas como o TEN, infelizmente, ele foi uma exceção.
    Hoje, ainda considero que pobreza tenha cor no Brasil.
    No mais, as cotas são políticas emergenciais, com data de validade.
    Veja lá: na UnB, foram implementadas em 2004. O prazo é de dez anos.
    Findo o prazo, a universidade vai avaliar se a política de fato funcionou.
    Para te adiantar, conheço n estudantes negros que foram aprovados pelas cotas e hoje são profissionais bem-sucedidos.
    As cotas foram um empurraozinho, de leve, um incentivo que, mais do que valor utilitarista (pro aqui e agora), tem uma conotação histórica e cultural.
    Porque, com o apoio delas, teremos mais negros médicos, advogados, jornalistas, formadores de opinião.
    Mais, mais, mais.
    E aí, sim, poderemos falar em diversidade e democracia racial no Brasil.
    No mais, espero que leve na boa minha consideração.
    Vou passar mais por aqui p/ lê-lo.
    Abraço.

    • fernandopawlow disse:

      Prezado Diego,fico feliz que tenha gostado de meu artigo e de meu blog.
      As considerações sobre as cotas são bem vindas ,pois o debate é sempre necessario e embora eu mantenha minhas restrições,tuas colocações me fazem refletir menos apaixonadamente,sou como voce deve ter notado,muito explosivo e apaixonado(dai muito de minha admiração por Abdias)e portanto,muito dogmatico,portanto suas colocações são bem vindas sim.
      O que eu questiono nas cotas é o carater copista de soluções que foram adotadas em contexto diferente do nosso nos Estados Unidos ,acho que n´s brasileiros tendemos a projetar fantasias sobre nosso “Irmão do Norte”,desde sempre,vide ‘A ilusão americana “de Eduardo prado(que li por ter sido mencionado no volume de cronicas “Bagatelas” de Lima Barreto,outra grande admiração minha e um irmão espiritual de Abdias).Não que eu seja contrario a politicas de reparação ,mas acho que estas devem se concentrar na reformulação da escola ,principalmente no Primario e Ginasio,o gargalo diabolico da exclusão ,ao meu ver.
      Mas divergencias de lado,gostei imensamente de sua resposta e espero te ter como visitante ,dos que abrem a geladeira e sentam na poltrona preferida ,de tão assiduos,grande abraço

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