A educação política dos brasileiros

Quem conversa comigo se espanta com minha memória para siglas partidárias. Aprendi a ler aos cinco anos de idade com os santinhos da campanha eleitoral de 1978 colados na parede do quarto e desde então me viciei em noticiário político, posso discorrer horas sobre perambulações de alguns políticos pelas mais diversas e inesperadas siglas,  funcionando como uma espécie de Dicionário Político Brasileiro para uso doméstico. Mas mesmo eu venho me perdendo na movimentação frenética dos adesistas entre as siglas que disputam cargos nos inúmeros ministérios  desta fase de nossa história. Acredito que mesmo os petistas se perdem na enumeração dos novos amigos de infância, confundindo nomes e origens dos seus correligionários .

Há quem considere muitos destes partidos meros escritórios de lobby, não identificando linhas ideológicas nítidas nestas agremiações cujos programas não diferem substancialmente uns dos outros: todos prometem felicidade, saúde, prosperidade. Muitos se desinteressam, dizem não ter vocação para palhaços e se tornam mesmo incapazes de responder à pergunta (embora saibam responder sobre eliminações em “reality shows”):  quem é o vice presidente do Brasil?

Que dizer da profusão de denúncias de favorecimento, acompanhadas de provas em cascata, reproduzidas em jornais e revistas? Quem honestamente não confunde  enredos que pouco ou nada diferem entre si? Lembro de Heráclito Fortes na Tribuna do Senado (na crise do Mensalão) se queixando de não mais conseguir ler a edição inteira da “Folha de S. Paulo” no voo de Brasília para Teresina, por conta dos desdobramentos de escândalos que engrossaram o jornal. Ele conseguiria hoje, num voo de Teresina a Porto Alegre?

Assim que surge um escândalo já devemos nos preparar para o próximo. É a única maneira sadia de se ler jornais hoje no País cuja população se encontra anestesiada após acontecimentos que a desiludiram quanto à punibilidade de corruptos e vota assim em protagonistas de denúncias recentes. Quem já não encontrou eleitores de partidos e políticos denunciados que dão de ombros, declarando voto em notórios infratores com o argumento: ”este pelo menos faz”? É o cinismo cívico em pleno vigor no Brasil.

Acredito que este dar de ombros  sobre  assuntos sérios é um sintoma de stress coletivo, algo assim como a vítima de bullying que já não se importa com as surras no pátio da escola, julgando -as mesmo legítimas ,”para deixar de ser otário”. É efeito bem programado e melhor executado por classe política que deseja isto mesmo: apatia moral e política das massas para se eternizar no Poder, desfrutando suas delícias a salvo de olhos vigilantes e furiosos. Não se procura mais dissimular a safadeza no olhar nos outdoors eleitorais, fingir expressões honestas e abnegadas, as novas máscaras reproduzindo à perfeição o rosto abusado por baixo delas, numa espécie de celebração da cafajestagem.

Pergunta-se hoje quem será o ministro demitido de amanhã como se pergunta quem assassinará Salomão Ayala no remake de “O astro”- Semana retrasada Ministro X, semana  próxima o Ministro Y, e não se mencionando nas ruas seus nomes, que dizer de seus “partidos”. Quem diria que chegaríamos a este desinteresse há vinte anos?

Meu texto anterior sobre banco de textos jornalísticos e sua utilidade na educação política dos brasileiros, na verdade trata de esforço coletivo para cortar a anestesia geral, induzida por golpes sucessivos na sensibilidade coletiva.

É o que os que se encontram despertos deste coma devem fazer.

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