Com a palavra,os explicadores de tragédias

As redes de TV mantêm em seus estúdios as poltronas para conferencistas- sociólogos, economistas, psicólogos, antropólogos; especialistas vários, oriundos do meio acadêmico, para explicar aos não iniciados as leis sociais que o homem da rua, mergulhado no que os referidos especialistas denominam, sem esconder o desprezo, de “senso comum”não consegue captar,  que dirá entender.

Carlos Lacerda lembrava que o Brasil “tem o culto pelo ‘homem que sabe do assunto’ ” ao satirizar  os economistas e seus planos infalíveis para debelar inflações cíclicas, projetando para o futuro a solução mágica para os problemas. Em  países que prezam mais os resultados que as pompas e os títulos, muitos dos referidos “homens que dominam o assunto”não seriam ouvidos com esta devoção que é característica das sociedades apegadas aos cultos coloniais ao “Doutor com anel”, mas aqui no Brasil até “entendidos em futebol” ocupam as poltronas que  lembram as “poltronas da vovó”, poltronas com bordados nos braços, nas quais se assentavam os líderes ocidentais em visitas à China nos dias do Camarada Mao.

Por que não ocupariam tais poltronas os  Doutores em Causas da Violência? Também eles possuem coleção de títulos acadêmicos e falam a linguagem cifrada que a Academia importa da França e emitem, sem titubeios,  juízos sobre as motivações de  psicopatas que atiram em pessoas indefesas, após deixar como testamento cartas onde expõem suas concepções de mundos perfeitos .

Escrevi em meu blog, quando do massacre da escola de Realengo, texto intitulado ”Os vampiros da tragédia de Realengo”sobre as explicações usuais nas ocasiões em que o mundo é atingido pela agressão psicológica e sentimental de uma matança sem motivos (matança sem qualquer justificativa de defesa ou retaliação contra um invasor, por ex.):  ”valores veiculados pela mídia”, ”globalização”, ”intolerância religiosa”, ”influência dos filmes violentos de Hollywood”, “correlação baixa escolaridade -criminalidade”(este último utilizado como um mantra), e tantos outros. Nenhuma destas sumidades, que tudo explicam,  sugere que o criminoso é um sádico que somente a força pode deter. Não é politicamente correto, não é “polido e civilizado” lembrar que implicações morais são poderosos determinantes nestes episódios. Como se todos os pobres fossem potenciais assassinos, numa clara demonstração de determinismo social, advindo de quem se esperava ausência absoluta deste preconceito, os “Doutores” culpam a pobreza do criminoso como causa, quando muitas vezes mais pobres que este (como escreveu certa vez Olavo de Carvalho), são as vítimas.

O menino Juan, morto em operação policial, cujo cadáver fora ocultado sob um sofá num beco da favela, seria rico? Os policiais (ainda que ganhem reconhecidamente mal) seriam mais pobres que a vítima e sua família? Todos os policiais seriam assassinos? Quais teorias explicariam satisfatoriamente este crime que embrutece ainda mais a alma brasileira? Os conferencistas de canais de notícias não emitem nenhum argumento sólido num episódio aterrorizante destes.

O massacre da Noruega mudou o foco da culpa. Passou-se a culpar a religião, o “racismo intrínseco do homem branco”, a “intolerância”. Sugerir que o dito assassino seja exceção e não regra e que um guarda armado poderia ter poupado muitas vidas, despachando-o para a outra dimensão (o mesmo sobre o autor do massacre da escola no Rio de Janeiro) não entra nem como hipótese nas explicações sobre esta tragédia.

Mas na Noruega e em outros países terão os “especialistas em dinâmica social da violência” a atenção devota da mídia? Acredito que impunidade (ou “baixa punibilidade”, como preferem os pedantes) não seja  o pagamento usual a assassinos que se imaginam enviados pela Divina Providência para o cumprimento se seus desígnios em países onde as leis não são influenciadas por “teóricos do fenômeno da criminalidade”, países onde a sociedade é ouvida  e respeitada, enfim.

Não tenho visto familiares das vítimas ocuparem as poltronas conferenciais. Suas lágrimas são devidamente racionalizadas e diluídas na contabilidade dos “números da violência”pelos  consultores  da casta acadêmica. O sofrimento e o justo sentimento de revide  sendo catalogados como “expressões arcaicas “da sociedade por parte de quem nem imagina o que é perder um amigo ou parente morto por motivo torpe.

O primeiro passo  a ser dado no Brasil por quem se importa com a média anual de 50 mil homicídios (número de guerra) é desligar a TV ou mudar de canal quando um “Doutor em causas da Violência”adentrar o estúdio para explicar tragédias que não o atingem minimamente,  com teorias que não convencem sequer crianças de colo.

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