Olavo de Carvalho e Aleksandr Dugin : fim de debate que não houve

Pode ser qualificado de debate troca de textos entre um estudioso que leu ao que parece todos os estudos do oponente e um ideólogo que tenta desqualificar seu oponente com base em leitura ligeira de um e outro de seus  artigos? Qualquer pessoa razoável dirá que não houve debate algum, pois o desnível é acintoso entre os dois debatedores.

Olavo de Carvalho vem alertando seu público há pelo menos três anos sobre Dugin em dias em que não se encontrava na internet um único texto em Português (exceto os de Olavo) sobre o mentor de Vladimir Putin, e ideólogo da corrente de pensamento que se denomina de “eurasiana”. Entre os dias em que o filósofo era o único a recriminar o silêncio por ignorância dos jornalistas sobre Dugin e o dito debate, Olavo leu o que havia para ler de Dugin e seus colaboradores, estudos inseridos em longo estudo sobre as vertentes do “pensamento revolucionário”. Leu e refletiu, produzindo artigos expondo o que os “tradicionalistas eurasianos”pensam e planejam, indo à raiz ideológica desta nova fábrica de ilusões.

Armado de sua capacidade expositiva e munido de conhecimentos estocados e processados em aulas, artigos, conferências, Olavo aceitou debate sugerido por “tradicionalistas” do Brasil e do exterior, a ser publicado em sites diversos, incluindo o seu. Quem não esperava acontecimento cultural memorável entre duas figuras poderosas, que são mesmo referencias em seus campos de estudo? Todos tinham o direito de esperar embates do nível Sartre/Camus ou Sartre/Aron (na verdade,  polêmicas que não aspiravam à denominação de debate, mas que polarizaram opiniões entre intelectuais nos ’60).

O primeiro texto de Olavo de Carvalho prometia  debate à altura das expectativas, embora Olavo já avisasse que debate não haveria ali, dada a falta de simetria entre os dois: um pesquisador solitário honesto em suas dúvidas e um autodenominado “tradicionalista”envolto em certezas, dispondo de meios milionários e da máquina governamental russa (da qual ele é líder espiritual). No texto inicial da contenda,  Olavo expunha dados históricos da história russa e da marcha revolucionária pela história,  expondo ao leitor o que separa fatos de fantasias.

A réplica de Dugin também constatava a inexistência de debates , mas por outra razão: ele encarnava o ideal de justiça coletiva de uma sociedade depurada do materialismo mesquinho contra um servidor da ideologia individualista ocidental (norte americana). Texto amparado em noções de geopolítica (posteriormente desmoralizadas por Olavo como generalizações grosseiras) e citações truncadas de trechos de Olavo colhidos aleatoriamente, numa paródia de estudo acadêmico sobre autor que ele (Dugin) visivelmente desconhecia.

Os textos seguintes não foram mais animadores da parte de Dugin,  pois ele adotou o método de desqualificar o oponente, no clássico:”Não vou me rebaixar” ante as palavras duras de Olavo sobre as ficções que ele tenta vender. Olavo continuou expondo a verdade histórica comprovada e fundamentos elementares de lógica, mostrando como Dugin,  pretenso “intelectual de peso”, não difere  em nada de um secundarista brasileiro recitando clichês de Diretório Acadêmico, nas vociferações contra o “reacionário” e “pró americano”Olavo de Carvalho, que se divertia em  dar exemplos de raciocínios contidos em livros do Professor Dugin rechaçados pelo….Professor Dugin.

Os estudos de Olavo de Carvalho em geopolítica e em história da expansão eslava (e agora eurasiana) fecharam sua série de textos numa aula de como se apresentar às batalhas intelectuais, portando conhecimento e honestidade, não se escondendo atrás de insultos e apelos à passionalidade ignorante de seguidores que renunciaram à qualquer veleidade de ascensão intelectual, como o fez o Professor que tentava jogar nacionalistas brasileiros contra Olavo, qualificando – o como “americanófilo” – truque que só funciona para nacionalistas primários que já julgam Olavo por esta deformação da ideia de nacionalismo, servindo para os  demais leitores como strip-tease da esqualidez argumentativa de Duguín.

Leitores como eu se decepcionaram com o que a série de réplicas e tréplicas mostrou do “mentor de Putin”: sub intelectual mantido à base de leituras ligeiras sem digestão, exteriorizando esboços de pensamento coalhados de passionalismo e adjetivações.

Olavo de Carvalho  se confirmou como adversário rude, íngreme, porém honesto e generoso (podendo destroçar Dugin, foi respeitoso), esmerando-se na prática do combate de ideias com o que este tem de mais exigente : o apego ao respeito ao combatente.

Pensar que tal ensaio de intelectual seja hoje  autor dos mais respeitados e poderosos por sua influência, causa pessimismo fundamentado sobre os dias por chegar.

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14 respostas para Olavo de Carvalho e Aleksandr Dugin : fim de debate que não houve

  1. Parabéns pela análise precisa e to the point: o “debate” foi exatamente isto – na verdade, NÃO HIUVE.

    Gorou, porque o Dugin não estava à altura. Foi literalmente um vexame duginiano total…

  2. fernandopawlow disse:

    Cara Priscila,o Dugin demonstrou no simulacro de debate o quanto seu talento promocional é superior ao seu conhecimento.Foi mexer com Mestre Olavo e só restou resmungar clich~es.Muito obrigado pelo comentário,volte sempre.Abraços do Pawlow

  3. Thiago disse:

    Muio bom! Parabéns pelo texto!

  4. Tenho acompanhado o trabalho do professor Olavo de Carvalho e fico cada dia mais impressionada com sua honestidade intelectual…

  5. fernandopawlow disse:

    Rita de Cássia,o Olavo é de fato impressionante,fenômeno de cultura e clareza,notável não apenas em termos naconais.Como ele,poucos no mundo.Saudações

  6. Karlos Santos disse:

    Aguardei o debate com ansiedade, porém, para minha tristeza, só aproveitava-se o que Olavo dizia – uma aula de erudição. Quanto a Duguin, é um completo despreparado, perfeito para servir como referência intelectual de esquerdistas. Parabéns pela análise, foi direto ao ponto.

  7. fernandopawlow disse:

    Obrigado karlos,quem não esperava muito deste debate? Olavo se confirmou como intelectual dos mais importantes,Dugín se revelou excelente produto do próprio marketing.Saudações

  8. Acauã K. disse:

    …e sério mesmo, Fernando, que teve gente que considerou esse texto – ótima análise contida nele, diga-se de passagem – uma crítica ao Olavo?! Não tem nem como identificar traços objetivos que levem, por elas mesmas, a tal interpretação.

    • fernandopawlow disse:

      Acauã,leia os comentarios ao texto no “Mídia sem máscara” e verás que não estou zombando- houve quem considerasse este texto como tentativa de desqualificar Mestre Olavo.É mesmo um traço do leitor brasileiro-ler o texto mental sobrepondo-o ao texto que tem diante dos olhos.Olavo sempre se refere a esta modalidade de leitura,falando nisso.Julga-se o texto pelo que nele não está contido e sim diante de reações emocionais por ele provocadas.Abraços do Pawlow

  9. titoon disse:

    Mas é claro que houve um debate, só que no sentido do ‘debater-se’, verbo. E quem se debateu e sambou em cima da navalha foi her Dugin!

    • fernandopawlow disse:

      Neste sentido, e apenas neste, foi debate.

      O que houve foi uma sequencia de aulas ministrada por Olavo de Carvalho a um presunçoso.Espero que tenha gostado de meu texto modesto.Abraços

  10. titoon disse:

    O texto ficou ótimo! =)

    • fernandopawlow disse:

      Muito obrigado, fico satisfeito por ter agradado com texto modesto sobre evento que foi, por parte do Olavo de Carvalho, memoravel. Abraços do Pawlow

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