Catolicismo de feriados

Escrevo numa segunda- feira com feitio de Domingo por conta de um feriado municipal- Assunção de Nossa Senhora. Bancos fechados (havendo faturas a vencer no dia 15), repartições vazias, parte considerável do comércio de portas cerradas,  em  uma cidade na qual igrejas pentecostais lotadas e abrindo mais filiais que padarias a desmentem como cidade católica.

Com qual direito uma comunidade religiosa impõe a outras comunidades religiosas e não religiosas seu calendário? Com qual poder se paralisa um país inteiro que precisa produzir e gerar riqueza? Escorados em qual poder doutrinário e intelectual, para não dizer sobrenatural, o clero brasileiro sabota deliberadamente um ciclo produtivo?

O que se vê nas igrejas é desalentador:  sacerdotes que não se entende como foram ordenados, pois sem dom de oratória, sem paciência para aconselhar quem, inadvertidamente, os procure, e principalmente, sem qualquer carisma.  Rezam com  indisfarçável tédio no olhar, como funcionários públicos que contam segundos para fechar o guichê, num clima de aridez espiritual realmente desértico.

Muito se fala de padres pedófilos, e  sei que muito desta chaga é explorada por mídia tradicionalmente hostil à Igreja, mas não estão sós no flagelo que  representam à instituição: fazem -lhes companhia padres alcoólatras, padres com amantes, padres comprometidos com partidos políticos e “movimentos sociais”, padres homossexuais a gastar dinheiro de contribuições de fiéis com prostitutos ; a lista de falsos sacerdotes é extensa e responsável pela proliferação de micro- templos protestantes que se tornam franquias gigantescas, confirmando Nelson Rodrigues como profeta, pois previra em 1967 que o Brasil ainda seria “o maior país ex- católico do mundo.”

Que tal um padre rezando missa de sétimo dia, de tênis por baixo da batina e fazendo campanha para o PT no lugar de ler o Evangelho, num flagrante desrespeito à dor da família do morto? Pois eu vi  tal acontecer, em 1989,  em missa de sétimo dia de grande amigo de meu pai, a família contrita enquanto o padre garantia que caso Lula não ganhasse aquela eleição, o país continuaria “esta meeeeeeeeeerda”, deplorando o apoio de Frei Damião ao candidato Collor (como a história muda em seus giros alucinados, hein?) referindo-se a um homem dotado de carisma e presença sobrenatural com as seguintes palavras: ” Aquele velho seniiiiiiiiiiil”, com os dedinhos das mãos formando o L de “Lula lá”. Padre da Igreja da Floresta, dos mais celebrados de Belo Horizonte por católicos linha PT. Não estranhei mais, a partir desta noite, o êxodo dos fiéis que a década seguinte testemunhou, para as “igrejas de crente”.

Ou o recente episódio da “Nossa Senhora do Crack”, retratado na reportagem do G1(23/07/2011), sobre imagem de Nossa Senhora  que um “artista plástico”erigiu na Cracolândia  em São Paulo, imagem que Padre Julio Lancelotti considerou “louvável”, e que mereceu dos moradores de rua e usuários do crack consideração diversa: eles a quebraram, por considerar tal imagem “pecado sem tamanho”. O padre  manifestou-se: ”Eu acho que agora quebrada ficou como o povo que está aqui”, povo que exibiu, a despeito da prostração em que se encontra, maior respeito ao símbolo que o referido padre Lancelotti, famoso por amparar menores infratores  e trabalhar com “população de rua”.

Estes são apenas alguns exemplos do clero que por influencia que miraculosamente ainda exibe, impõe feriados que não raro comprometem dias próximos  aos ditos feriados, nesta celebração do ócio com bolsos vazios, tão representativa da cultura brasileira.

Rezar missa em latim, socorrer desesperados, dedicar-se aos estudos dos doutores da Igreja, levar vida  de sacerdote, são traços de odioso reacionarismo que somente membros de ordens religiosas e alguns cada vez mais raros membros do clero secular ainda praticam .

Feriados com igrejas lotadas de fiéis vazios de sentimento católico são poderosa contribuição ao atraso do país e à superlotação de templos protestantes que lembram aos seus fiéis que estes estão condenados “a ganhar o pão com o suor do rosto”.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Catolicismo de feriados

  1. Caro Fernando:

    Muito bom seu texto. É enriquecedor ver diferentes pontos de vista sobre instituição tão prestigiada como a Igreja Católica no Brasil.
    Parabéns!!!
    Abraços
    Paulo Mayr

  2. fernandopawlow disse:

    Caro Mayr, o clero no Brasil goza de prestígio pelo qual oferece pouco, muito pouco, desoladoramente pouco.Impõem feriados enquanto seus templos se esvaziam e micro igrejas “de crente” superlotam.

    Obrigado pelo prestígio, abraços do Pawlow

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s