Cinema de tese

Neville D’Almeida qualificou o cinema brasileiro atual, com seu bom mocismo, com seu  conjunto de regrinhas de etiqueta, como “cinema mauricinho”. Goste-se ou não do cinema de Neville (cineasta sempre polêmico, com declarado desprezo pelas convenções do gosto dominante), é difícil discordar de sua categorização :  Cineastas da classe média alta realizam filmes bonitinhos, com crítica social “na medida”,  para público que vai aos cinemas com o mesmo apetite intelectual que Umberto Eco percebeu no leitor de best sellers: consumir sempre o mesmo produto,  à espera do mesmo escapismo, porém no tocante ao cinema, com a ilusão de consumir  entretenimento “com conteúdo social, inteligente”.

Mesmo  filmes como”Cidade de Deus” e “Tropa de Elite1” (que,  a despeito de suas limitações,  são filmes com poder de permanência), apresentam a miséria como uma tese, como os romances de certa escola do séc. XIX que retratavam as vicissitudes do clero, o inferno dos casamentos por conveniência,  etc. O policial é brutal ou corrupto por culpa “do sistema”, os traficantes escrevem com sangue a história dos subúrbios por não terem tido “oportunidade”,  os estudantes têm suas mentes deformadas por culpa dos esquerdistas que dominam os departamentos sem culpa alguma no processo de lavagem cerebral, etc , tudo se explica, tudo se conserta “com consciência”.

Todos sabemos que o estamento  universitário no Brasil se fez onipresente e contamina toda a vida nacional com sua ótica de classe média, com sua atitude de conformismo patológico, sua celebração da covardia como filosofia de vida, mas a arte até há pouco tempo era terreno ainda por domar no imaginário brasileiro, basta lembrar da liberdade de Glauber Rocha, de Rogério Sganzerla , mesmo de José Mojica, cinema onde as explicações deterministas não ousavam conspurcar a mente de criadores (alguém consegue imaginar um destes cineastas de viveiro filmando Nelson Rodrigues com a força de Arnaldo Jabor em “Toda Nudez Será Castigada”e “O Casamento”?- nem o próprio Jabor filma assim hoje) e o inconsciente parecia ser mesmo o poder empunhando câmeras,  hoje filmes parecem dirigidos dos gabinete dos campi, contendo a ideologia definida por correta, numa uniformização mental que torna estes filmes mornos, necessitados de gigolar a miséria (Glauber já apontava esta  exploração da desgraça alheia em alguns de seus contemporâneos) para terem público- mas este ardil funcionará até quando?

Quantos filmes sobre traficantes onde palavrões soam mecânicos,  risíveis, ainda serão lançados desta linha de montagem? Ou filmes sobre mártires do esquerdismo (estes de público bem restrito, dependentes em tudo das leis de incentivo) onde ideias de Esquerda são ausentes por ignorância teórica dos prezados cineastas, virgens de leitura substancial de Marx, Trótsky, Marcuse?  Ou comédias românticas onde o único humor é o involuntário?

Quando gênero literário obsoleto se torna dominante na produção cinematográfica de país com histórico de filmes avançados, com admiradores entre os maiores cineastas do mundo, é difícil não sentir a prostração diante do que se configura um retrocesso mental,  uma troca do microchip pela válvula, sem precedentes em países do porte do Brasil.

O fato de não se produzir romancistas de relevo nas últimas gerações entre nós já seria alarmante, se os doutores não intoxicassem as publicações ditas culturais impingindo escritores  sofríveis como talentos comparáveis aos gigantes – sem qualquer cerimônia elaboram comparações, as mais grotescas, entre autores sem uma linha memorável a João Antônio e mesmo a Graciliano Ramos,  sem se ruborizar ou perder a pose de árbitros culturais no país que os sustenta, inadvertido da fraude, entorpecido por titulação acadêmica.

O deserto está sendo asfaltado,  sobre ele marcharão gerações  futuras e  a  quem culparão?

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