A desolação, mãe do terror

Procurando saber sobre o suicídio coletivo na Guiana em 1978, conduzido pelo reverendo Jim Jones,  encontro fotos, depoimentos e vídeos  sobre sua Teologia da Libertação Gospel. O fanatismo do líder dos Templos do Povo pela União Soviética, embora não omitido (como omitir? como pintá-lo como um extremista da Direita?) pela imprensa, é algo, no Brasil, enunciado às pressas, como uma fita executada em ritmo tão acelerado que torna–se incompreensível. Muitos que conhecem o assunto por alto, e muitos no Brasil têm seu direito à ignorância zelado pela imprensa, acreditam ter sido Jones um fanático religioso.

Eu próprio quando li em texto do Olavo de Carvalho (sempre ele a operar as cataratas no Brasil) que Jones era um comunista devoto, debitei a informação que me parecia sem fundamento na paixão (negada  por ele) ideológica do autor de “O Jardim das Aflições”. Olavo, como de hábito, sabia do que falava. O  que ocorreu ali foi mais um dos crimes da utopia que promete o Paraíso e entrega o Inferno, materializado nos corpos de adultos e crianças, e mesmo cachorros, que praticaram ou aceitaram (qual resistência poderiam opor?) o “suicídio revolucionário”, a “noite branca”. Houve quem, em cartas, deixasse o que pudesse ter à União Soviética. Detalhes mencionados de passagem, pedindo desculpas.

O campo de concentração,  Jonestown,  se ocultava na densa floresta, distante da capital da Guiana. Reportagem do “Fantástico” detalha as dificuldades de se chegar até a “Terra Prometida” dos miseráveis que seguiram Jones, numa versão ainda mais pavorosa da comunidade do Coronel Kurtz do “Apocalypse Now” de Coppola. Horas em estradas de terra, depois atravessar rios e mais mato. Luxos como papel higiênico e descanso inexistiam. Fotos, porém, os exibem sorrindo, sobretudo as crianças que receberiam dos pais a”libertação”.

Que leva uma multidão californiana a se enterrar num delírio no inferno verde da América do Sul, numa rotina de trabalho sem pausas, desistindo de qualquer privacidade, julgada, obviamente, luxo burguês? Imagens em vídeos os imortalizam rindo nas embarcações.

O congressista Leo Ryan que morreu ao tentar escapar da comunidade levando ”desertores” consigo, impressionado com a recepção preparada pelo staff Jonesiano, discursou sobre a gente “que levava vida melhor ali que jamais levara antes”. Logo após, bilhetes o alertavam do pesadelo que o recepcionava, e do qual não acordaria vivo. Tarde, como sempre.

As expressões desiludidas do sonho americano ao qual foram barrados,  as biografias repletas de privações humilhantes  que tornam a vida uma romaria de mágoas ajudam a entender do que buscavam fugir no “paraíso na terra “de Jonestown. O rosto da senhora que sobreviveu ao atentado que deixou o congressista tombado na pista de fuga nega as fantasias do cinema  sobre o “american way of life”- é rosto dos acostumados a perder, a sentir a vida como pesadelo ininterrupto e irrecorrível. A pobreza em um país rico parece ser mais estigmatizante do que a que se acostuma em países subalternos, mais violentadora, a “marca de Caim” mais nítida- a tragédia do Katrina em Nova Orleans o confirmando, agredindo o restante do mundo.

Aqui no Brasil as favelas de palafita do Nordeste recebem os castigados no campo, fermentando em suas entranhas a prostração e o desespero que fazem deste ambiente chão fértil esperando apenas pelas sementes da demagogia e das promessas obviamente absurdas para que nele floresça o fanatismo e a adoração por lideranças carismáticas que anunciem para coisa de meses o Primeiro Mundo que brotará das profundezas oceânicas, de uma camada mágica, de nome Pré-Sal.  Um dia sob o couro destes brasileiros e o Brasil compreenderia  que os atuais detentores do Poder ficarão por tempo próximo ao que se acostumou a chamar de “sempre”- tempo correspondente ao nosso tempo de vida.

As grandes concentrações do Sudeste, como as megafavelas de São Paulo e Rio de Janeiro e as favelas consideráveis de Belo Horizonte são  também receptivas aos anunciadores de mundos novos;  as vibrações armazenadas e potencializadas de rancores, frustrações e desespero são canalizadas, sempre com sucesso,  para os dutos das revoltas sociais, pelas promessas  impossíveis  de cumprir, e fascinantes  por isto mesmo.

David Nasser observou em artigo sobre a violência no Oriente Médio, nos anos 70 (revista “Manchete”) que vira muitos dos “terroristas” palestinos quando crianças dormindo no deserto e que a opressão israelense e a miséria eram “as proteínas e sais minerais” do que se convencionou chamar de terrorismo. Nasser, era, desnecessário dizer,  cético quanto à paz ali.

A desolação  e o nivelamento por baixo são a assinatura da Besta no mundo e suas manifestações  assustam apenas quem  não se imagina sobrevivendo sob seu jugo.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para A desolação, mãe do terror

  1. Luis Hipolito disse:

    Parabenizo o autor deste artigo pela excelente análise do mundo em que vivemos e do qual não podemos ter ilusões quanto ao futuro!!!

  2. fernandopawlow disse:

    Caro Luis Hipólito,grato por suas palavras.O mundo hoje não comporta mais fantasias sobre o gênero humano e os modelos salvacionistas ja tentados e que só agravaram o horror da convivencia.Volte sempre.

  3. Karlos Santos disse:

    Confesso que quando ouvi Olavo de Carvalho falar sobre Jim Jones e o esquerdismo pensei: “o Olavo às vezes exagera”. E olha aqui você a revelar que não houve qualquer exagero.

  4. fernandopawlow disse:

    Karlos,confesso que a impressão que tive foi igual a que voce teve:”Desta vez,Olavo pegou pesado,Jim Jones comunista…”.
    Pesquisei e verifiquei o quanto ele estava certo e,como sempre aparelhado de informações.Espero que tenha gostado do meu texto.Saudações

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s