A Lei da Ficha Limpa – Por que votar?

A recente decisão do Supremo pela constitucionalidade da chamada Lei da Ficha Limpa é tema de muitos analistas políticos, dos mais tolos e comprometidos com a atual composição do Poder aos mais talentosos e agudos como Augusto Nunes, que em seu comentário de 1 minuto da última sexta-feira no site da “Veja”, concordou com seu colega Ricardo Setti, que considera que o País “ficou um pouco melhor”, embora observando que ,se eleitores não abandonarem seu costume de “votar contra o Brasil”, pouco terá sido feito para que “a paisagem política seja menos assustadora”.

Nunes qualificou certas personagens como “obscenidades”. Mais uma síntese precisa de quem elaborou a imagem dos “prontuários ambulantes” ao se referir ao que responde por classe política, notadamente as lideranças do que ele, também com precisão, denomina “base alugada”.

Mas ele, por paradoxal que pareça, se mostra esperançoso.

Sou cético quanto aos supostos benefícios advindos de lei que é nada mais que um golpe na democracia, pois transfere o poder de decisão do eleitor para instancias que se prontificam generosamente a decidir por ele. Quando o Supremo adiou a votação, ano passado, e muitos analistas, competentes ou rasos, lamentaram ,escrevi neste blog o texto:https://fernandopawwlow.wordpress.com/2011/03/29/o-choro-pelo-adiamento-da-usupacao-do-direito-de-escolher-do-eleitorvulgo-ficha-limpa/. Quem o teria lido?

As ditas organizações que formam a denominada “sociedade civil” não descansaram do referido adiamento até a votação da última quinta-feira, principalmente as ligadas aos “movimentos sociais” próximos ao Governo Federal, notadamente a CNBB. Forjaram a chamada “opinião pública”, aproveitando-se da vantagem que a apatia da massa lhes garante, para concretizar seu ideal de controle da vontade da maioria. Que fizeram os críticos da ideia no mesmo período? Renderam-se à sedução da inércia, acreditando que ideias absurdas caem por si no esquecimento, ainda que a História demonstre reiteradamente que não funciona assim o seu mecanismo. Não fizeram a mínima porção de barulho que os promotores da “sociedade justa” sempre fazem (e com êxito frequente, diga-se) para se impor.

Esta lei tornará o eleitor figura ornamental no processo de escolha onde as alternativas já estarão escolhidas previamente. Para que votar? Melhor rasgar o título, ou entregá-lo nas mãos de juízes que de fato escolherão quem pode ser votado. Nada garantindo que delinquentes ainda não apanhados, portanto detentores do status jurídico de “ficha limpa” sejam afastados da disputa,ou que políticos condenados injustamente sejam reabilitados a tempo de receber o voto de quem neles deposita confiança. Melhor não votar, entregando aos juízes, padres, professores universitários e demais “lideranças sociais” delegação de nosso direito de escolha, pois que esta já terá mesmo feita de antemão.

Assistiu-se à urdidura de mais este golpe sobre a cidadania sem mais que resmungos,ou apelos à “constitucionalidade”, ainda que todos saibam (ou devessem saber) que a Constituição pode sofrer cirurgias, e que entre nós está longe de ser abrigo seguro contra grupos que se interessam em dominar a massa desinteressada de seu destino, sepultada pelas dificuldades de sobreviver e mantida no mais rigoroso jejum intelectual.

Quem observou as sombras rondando a praça? Alguns poucos,os de sempre, como Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo.

As ditas “instâncias de representação popular” tão ciosas de seu dever de resguardar o eleitor de sua ignorância, são as mesmas que nada fazem para aplacar o desinteresse patológico do brasileiro por política, ao contrário,  nutrem-se da ignorância e inapetência intelectual da massa para se perpetuar no status de “vanguarda do povo”. A massa lesse, e eles teriam que inventar outro povo para liderar, não é mesmo? A política educacional do PT se encarrega de manter o rebanho na fé petista, impermeável a qualquer argumento racional em política.

Paulo Francis dizia sempre que se a fixação do brasileiro por esporte fosse canalizada para a paixão política seríamos outro país (a citação não é textual, mas o espírito é este), e quem discorda? Seria justo manter a massa infantilizada politicamente? Pois a Lei da Ficha Limpa acorrenta a consciência política do homem médio brasileiro no berço, impedindo-a de amadurecer. A tutela da cidadania atrofia o crescimento da vocação cívica do brasileiro, tornando-o refém de lideranças interessadas em manter o atraso e o nivelamento por baixo.

Enquanto a maioria não tratar a cabine eleitoral como recinto sagrado , nada progredirá efetivamente no Brasil, e não serão  leis forjadas por professores universitários em parcerias com padres sem vocação religiosa que darão ao brasileiro tal sentimento.

Será antes necessário exame de nossas deficiências como povo para que seja possível qualquer superação, num processo lento e exigente, porém de resultado duradouro, sólido.

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