A aristocracia da dor

Os brasileiros já se acostumaram com o lançamento de iniciativas governamentais inócuas e pomposas, nada mais parece capaz de surpreender ou constranger, seja pelo que consomem de recursos, seja pela inutilidade embalada em celofane com laçarotes.

“Do governo, é só isso mesmo” e tolera-se, entre resignação e desprezo , impostos e atribulações.

Logo, por que não uma “Comissão da Verdade” examinando, “para registro histórico apenas” violências cometidas durante regime que se extinguiu há 27 anos?  Com aberturas de arquivos desde 1946?  Com porção considerável de torturadores já mortos ou anciãos?  Na qual financiadores certamente serão esquecidos (como o são em documentários sobre o regime militar que utilizam como vinhetas recrutas marchando ou dissolvendo passeatas e nunca financiadores da OBAN?), pois ou já mortos, ou falidos ou convertidos ao Governo Popular? Onde sobreviventes mutilados do atentado do aeroporto de Guararapes ou de outras “ações armadas contra a Ditadura” serão considerados “acidente de percurso”? Quando não,  claro, merecedores,  por engrossarem à época a “maioria silenciosa” que ouvia Roberto Carlos e aplaudia os generais em estádios?

O auto-enamoramento dos “heróis” da guerrilha exige mais este desperdício de tempo e mais este desgaste entre civis e militares, as lágrimas que vertem em homenagem a eles próprios sempre que entrevistados merecem esta encenação, este épico geracional. O Brasil ter tocado a vida como pôde depois do que eles sofreram soa a muitos deles como um insulto, uma desconsideração:  “Como seguir vivendo depois do que sofremos por eles, pela libertação da massa analfabeta e alienada que não percebeu e não percebe ainda que sua libertação só virá através de um regime como o de Cuba? Nós não permitiremos que esqueçam.”

O País deveria seguir o exemplo argentino, onde as frustrações e a incompetência podem contar com a anestesia da “memória da Ditadura”  (com a diferença entre as ditaduras dos dois países, correspondentes aos apetites políticos dos dois povos), com as marchas das Mães de Maio, e a nova geração de combatentes a favor do governo, a tal “Juventude Camporista”, a qual já tem seu correspondente na internet brasileira, o exército de agressores do anonimato.

As gerações que cresceram sob o que se chamou “redemocratização” não exibem a comoção esperada pelos combatentes, e não é raro encontrar quem não veja entre o Brasil daqueles anos e o de hoje diferença significativa, pois para pobres o aparelho do Estado é sempre uma ameaça e Direitos Humanos são privilégio de quem se organiza. A maioria das pessoas não pensa viver numa democracia, não quando se mora precariamente, não se pode recorrer a hospitais e o futuro está comprometido com escolas indignas do nome. Quando se vive sob o Estado que tudo impõe oferecendo migalhas como compensação, sempre é Ditadura.

Ocorre que quem experimentou o Estado usualmente oferecido aos pobres do País naqueles dias foi juventude da classe média alta, voluntariosa e arrogante, nutrida com mimos,  sem ser apresentada formalmente a qualquer autoridade. Esperavam que o Estado, sempre brutal com os desorganizados da sociedade, com quem pouco ou nada possui, fosse compassivo e gentil em guerra declarada pela Esquerda ainda antes do Golpe de ’64. Não é raro encontrar quem se refira aos representantes do Estado com o rancor de quem encontrou governanta excessivamente rude. Nota-se que poucos militantes negros e pobres sobreviveram à brutalidade daqueles dias, brutalidade que o presente texto não tenta, nem em uma vírgula, relativizar ou justificar. Que a relativização da tortura fique sob responsabilidade dos que elogiam regimes de Esquerda, dos apaixonados pela ideia de “Estado Forte Contra as Injustiças do Mundo”. Dos que se chocam com a crueldade do Estado apenas quando este se volta feroz e disposto contra si e os seus. Com os auto- enamorados, enfim.

Não se verifica entre os que embargam a voz ao narrar seus feitos, comiseração por vítimas anônimas da criminalidade ou de abusos policiais. Em nove anos de Governo,  esta facção do Partido Universitário (em guerra fratricida com a facção rival, o PSDB), o PT, não encaminhou ao Congresso no qual tem maioria de votos nenhum plano concreto e abrangente de combate à criminalidade. Como a população recusou a proposta de desarmamento unilateral  (bandidos podendo se defender dos cidadãos não criminosos) o Governo deu de ombros e a violência segue com seus números de guerra sob as vistas compreensivas dos acadêmicos que a explicam sociologicamente,  recomendando menos polícia e “mais inclusão”.

Os combatentes ao se referir a si e aos companheiros mortos sob tortura ou “tiroteios” dizem “os melhores daquela geração”, ou ainda “a melhor geração que este país produziu”. A auto lisonja pela militância política e o senso de distancia com relação aos “alienados “, aos “indiferentes” é algo justificado- quem o nega? – e explica a surdez e cegueira desta casta em relação às desgraças da gentinha que não se organiza e não exige também, para seus mortos,  indenização pelo Estado por mortos por sua imperícia, por sua omissão ou por sua ação direta. Estado agora em “mãos progressistas”.

Por que não exigem as vítimas da violência “Comissões da Verdade”nas quais secretários de segurança seriam argüidos sobre a segurança que não ofereceram satisfatoriamente? Nas quais políticos tivessem que explicar por que não votam em anos reforma do Código Penal e do Judiciário? Ou Ministros da Saúde explicassem mortos nas filas e em salas de operação comandadas por médicos despreparados e imprudentes? Não encontrariam tais comissões apoio da geração “que ousou sonhar com País mais justo”? Os miseráveis certamente contariam com a solidariedade dos “que acreditam num outro mundo possível”.

Pois muito se deve exigir de quem integra “a melhor geração que este País viu nascer”, “dos melhores entre nós todos”, quem suporta suas cruzes mirando o chão.

Afinal, seres diferenciados, que com sua epopeia celebrada e indenizada de “enfrentamento às forças da Reação” configuram a verdadeira aristocracia do sofrimento.

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