Ivan Lessa e Millôr Fernandes: a retirada dos dois últimos combatentes contra a pompa e a estupidez

2012 será registrado como ano em que a Morte agiu com invulgar critério em sua colheita entre os brasileiros, levando (na sua apenas primeira metade) o que de melhor o País produziu de material humano nas últimas nove décadas, de uma só vez: Chico Anysio e suas centenas de personagens (e seus múltiplos talentos), quase na mesma ocasião Millôr Fernandes e há uma semana o Ivan Lessa. Não só o Humor Brasileiro (categoria imprecisa por natureza) mas o oceano inteiro da inteligência nacional drenado de uma só vez. Não esqueceremos nem perdoaremos, os sobreviventes no deserto que avança feroz e disposto.

Este texto trata de Millôr e Lessa, duas almas irmãs no combate ao academicismo, ao falar artificial do que responde por “inteligência” no Brasil, ao politicamente correto;  à babaquice em suas muitas vestes. O repertório das estultices impressas e faladas era o alvo dos dois combatentes que utilizaram os talentos dos quais dispunham como humoristas, tradutores, editores de publicações, escritores enfim, dos poucos brasileiros verdadeiramente “cultos” a ocupar espaços usualmente ocupados por nulidades de Departamento de Letras ou por herdeiros das capitanias hereditárias do jornalismo brasileiro, ou ainda pelos portadores de Diploma em Jornalismo ignorantes dos mestres do ofício que julgam exercer por direito.

Sessões da Academia Brasileira de Letras , a própria Academia Brasileira de Letras, o endeusamento, por razões abaixo de discutíveis, de Machado de Assis, as interpretações furadas, arbitrárias (e por isto mesmo tomadas como verdades inquestionáveis pelas “autoridades “do estamento universitário) da obra de Machado de Assis, os cacoetes do regionalismo oficial, a linguagem cinematográfica no que esta contém de imbecilizante por atada às fórmulas de sucesso e a atenção (ir)reverente à cultura das ruas sintetizada por jingles “antigos” e ao cancioneiro nacional; eram todos, todos, temas caros aos dois jornalistas, “obsessões” que como artistas que eram, tornaram comuns aos seus leitores e contemporâneos, que (principalmente depois do “Pasquim”) adotaram por assimilação cultural o repertório dos dois desbravadores do inconsciente coletivo brasileiro (e não apenas carioca, Zona Sul, no que tal dado geográfico tem de arbitrário, pois a Zona Sul de Lessa e o Méier de Millôr eram territórios mentais que podiam coincidir com os do mapa oficial da cidade, mas não os correspondiam obrigatoriamente, assim como a Curitiba de Dalton Trevisan, para citar mais uma das obsessões de Lessa, é a “Curitiba do Dalton”).

O Brasil nunca mais foi percebido e apreendido como o era antes que os dois revolucionários do Humor nos mostrassem o caminho, ensinando que (segundo Millôr) “Livre pensar é só pensar”e que nossa verdadeira “alta cultura”são os segredos dos “almanaques” e a filosofia embutida nos sambas e nos ditos da malandragem arquetípica da antiga Lapa e de tudo que Millôr recebeu da “Universidade Livre do Méier”, sua escola primária e sua referência de aprendizado.

Ivan Lessa não levava o título de “escritor” em grande consideração, antes se definindo como “tomador de notas”, afirmando mesmo que nada guardava do que escrevia. Millôr, embora tradutor respeitado (não apenas de Shakespeare, mas  também de Rainer Werner Fassbinder e Renato Russo – o encarte do disco “As quatro estações”registra a tradução da letra “Feedback Song For a Dying Friend”) defendia antes sua autoridade como humorista e artista gráfico que qualquer reconhecimento por parte da Academia. De qualquer academia, a começar pela ABL que assim como Lessa, satirizava,do fardão ao dito de Machado de Assis (“Essa é a honra que fica, honra, eleva e consola”) aos escritores que se candidatavam ao Petit Trianon brasileiro. Sobrando para ícones da Esquerda, do Cinema Novo, dos diversos movimentos de “liberation” importados sem filtro, como é habito no Brasil em sua condição de eterna colônia mental.

A conexão aos jovens talentos tanto por parte de Millôr (principalmente com Angeli) e Lessa (os “Cassetas” sempre admitiram orgulhosamente esta filiação) parecia se dar por um tipo de parentesco espiritual comum aos revolucionários de todos os campos e de todas as épocas: sabem ser percebidos como inimigos por parte da maioria convencional e de mente esclerosada, gente que já nasce velha e carregada de prevenções contra qualquer abertura mental que configure ameaça às posições obtidas por adesão ao rebanho. Artistas revolucionários têm contra si a Esquerda de gabinete e a Direita em todas as suas modalidades, o que os torna aos olhos da dita Esquerda ainda mais odiáveis por inqualificáveis como “reacionários”.  A ligação de Ivan Lessa com Diogo Mainardi e Mario Sergio Conti (parceria iniciada nos artigos sobre literatura e cinema na “Veja” quando Conti dirigia a publicação e que culminaria no livro em parceria “Eles Foram Para Petrópolis”, registro da correspondência por email dos dois escritores) parece também ser da mesma natureza afetiva.

Tal texto poderia dizer muito mais e continuaria incompleto, faltando coisas, pois o que resta do exame da obra dos dois criadores, de quilos de material impresso (de uma obra volumosa e multiforme, desafio para catalogadores) armazenados na memória é a constatação de quanto somos e seremos caretas comparados aos dois.

Um mundo desertificado pela estupidez acadêmica (da qual o politicamente correto e toda sorte de restrições verbais impostas por ele, é apenas sua porção mais grotesca e superficial) e pela mediocridade laureada e melhor remunerada e muito, muito careta, nos cabe agora , sem os choques de crítica e inteligência de Millôr e Lessa.

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