Nelson Rodrigues – o Eterno completa seus primeiros 100 anos

Há brasileiros que nos salvam da prostração causada por habitarmos país com tanto a resolver. Com tanto a realizar e sem a energia mental exigida, o Brasil frequentemente causa devaneios mesmo em seus nacionalistas mais estreitos. Estes nutrem paixão enrustida pelos países que dizem odiar e portanto, são sempre reticentes em valorizar os valores não folclóricos do país que defendem de boca. Um destes valores é Nelson Rodrigues, que identificava o “complexo de vira-lata”,  jamais deixando, porém, de elogiar “a Grande Nação do Norte”.

Nacionalistas de almanaque jamais o perdoaram pela audácia, pela abrangência e pelo talento. O Brasil é realmente miserável nestes momentos, com líderes culturais deste feitio. Mas o que figuras como Nelson Rodrigues representam nos anima a resistir à depressão nervosa coletiva.

Nelson representa sobretudo a negação do amadorismo entre os muito talentosos. Ser gênio não livra ninguém de empapar camisa de suor, as imagens de Nelson Rodrigues no documentário recém descoberto de João Bethencourt “Fragmentos de dois escritores” confirmando-o: de Caporal Amarelinho e mangas de camisa com suspensórios em casa, após jornada igualmente dura no jornal. Desconfio ser a razão da confiança de Nelson na entidade “O Brasileiro”, pois se um país com tantas deficiências na formação produzia Nelson Rodrigues, e Nelson Rodrigues não carregava o defeito da “Humildade” sob holofotes, outros poderiam surgir, o brasileiro sendo, então, povo de energia e gênio. Sabemos que não surgiu outro Nelson Rodrigues, mas se provou não ser impossível surgir entre nós, gigantes.

Foi o primeiro autor a me conquistar a devoção: aos oito anos, descobri Nelson Rodrigues através de fascículo dedicado a ele na “Literatura Comentada” da Ed. Abril, que minha mãe, professora de Literatura, colecionava.Um recém falecido Nelson ainda era assustador e meus próximos não compreendiam o fascínio do menino pelo autor de “Vestido de Noiva”,”Álbum de Família”,”Valsa 6” e “Senhora dos Afogados”, além das duas crônicas constantes no volume- uma de “A Vida como Ela É”, outra de futebol. Cito auxiliado pelo volume que ainda possuo? Não, pela memória que imprimiu as páginas descosturadas pelo manuseio sem intervalo, amareladas a ponto de se pensar que eu emprestara o volume ao cachorro.

Pouquíssimo tempo depois assisti ao “Toda Nudez Será Castigada” de Arnaldo Jabor e a “O Casamento” do mesmo cineasta e aos demais filmes baseados na obra do autor, e mais adaptações televisivas – poucas destas adaptações desconheço. Mais a leitura da biografia do Ruy Castro “O Anjo pornográfico”e de muito da obra – o teatro completo, algum Suzana Flag, “O Casamento” (que li em pé na Biblioteca Municipal, em duas visitas), e quase todos os volumes das crônicas, me deixaram ciumento do Nelson Rodrigues e se o elogiam demais, sempre penso: “Sei que ele é fundamental desde os oito anos de idade, coleguinhas”.

O que Nelson Rodrigues me provoca é a constatação nítida de quanto tenho a praticar para produzir o que ele e mais alguns (Norman Mailer, Dalton Trevisan e outros) conseguem: a ilusão que o artista manufatura- fazer  parecer espontâneo, sem dor, o que demanda esforços hercúleos, desanimadores aos não iniciados: lê-se as crônicas do Nelson Rodrigues com seu hálito quente no rosto, um prosador fácil, as frases escorrendo macias. Quem não acredita na Musa ao ler (ou ouvir, assistir) artistas que parecem atravessados por uma corrente mediúnica, conhecida por inspiração, a qual parece nada exigir do médium? Como o Chico Buarque parecendo se esforçar para conter a revoada de pássaros que habitam sua mente, quando na verdade recorreu à Enciclopédia para compor o “Passaredo”.

Paulo Francis em texto repleto de reservas ao Nelson nos anos ’60  (constante do volume “Opinião Pessoal”) admitia a “capacidade redacional mediúnica” do autor que, se ausentando da mesa por qualquer motivo e ao voltar encontrando acréscimos ao seu trabalho feitos por colegas, continuava de onde eles haviam parado. Quantos o conseguem hoje ou em qualquer tempo tal demonstração de agilidade mental, de elasticidade criadora?

Fico feliz por Nelson Rodrigues ter escapado, pela morte física, de conviver com a concretização de sua profecia – a tomada total do Poder pelos imbecis desenvoltos. Que diriam os “Blogueiros progressistas” sobre ele, ainda surrado por Professores Universitários (ouvi de uma dessas sumidades da Letras da UFMG que Nelson nem poderia ser comparado ao Gianfrancesco Guarnieri, o que, vindo de Departamento que concede Doutorado em Literatura Brasileira a professora que desconhecia Dalton Trevisan e o confundia com seu quase homônimo Lauro, não surpreende). Vive melhor onde está, sem o descanso que previu (previsão constante do documentário “Fragmentos”): “ Serei esquecido e o único morto que descansa em paz é o morto esquecido”.

Não experimenta, portanto, um milésimo de segundo de repouso, repouso seguro para os que o atacaram, atacam e atacarão, já mortos e nauseabundos ocupando Departamentos, redações, posições sociais, desfrutando do prestígio só possível em País que se ajoelha diante de nulidades ornadas com medalhas e títulos vãos.

Este abraço na comemoração de seu primeiro centenário, Mestre Nelson, está sendo recebido com um dia de atraso por artes do computador, e afinal um centenário é um suspiro de um segundo para quem sempre (como anjo, como artista) habitou a Eternidade.

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