Notas dos “Cadernos”- 31/12/2012 – Remake da abertura de Eros” de Walter Hugo khouri

Remake da abertura de Eros” de Walter Hugo khouri

A abertura do filme de Walter Hugo Khouri, ”Eros”, é algo que gostaria de ter escrito e realizado, fosse eu cineasta. Não sou e tomo a liberdade de homenageá-la, homenageando minha cidade, Belo Horizonte, e minha história dentro dela.

(aconselho a leitura após se assistir a abertura original no YouTube, preferencialmente com a tela aberta, simultaneamente)

Plano – sequencia de um descampado no Alípio de Melo, desolação que lanha a alma mais resistente da plateia, numa lembrança do personagem em sua infância no final dos anos ’70.

Sobem os créditos, enquanto um cão negro, em tudo semelhante ao descrito por Carlos Lacerda, lamenta o escuro no fundo do quintal.

Sequencia de rostos femininos: loiras, morenas, orientais.

As mais variadas idades, representando colegas de classe, professoras, vizinhas do personagem.

Em todas, ausência absoluta de compaixão e simpatia pelo menino, garoto, jovem e homem maduro que as invoca em lembrança, todas parecendo entoar em coro:  “esse aí sonha alto”.

Uma panorâmica da cidade em suas primeiras horas,alguma avenida mergulhada em neblina e fumaça, narrador em off:

“Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, América do Sul, Planeta Terra,Via Láctea, Universo, qualquer um deles”,

Corta para a via expressa na altura do Coração Eucarístico

“Eu nasci aqui, vivo aqui, um tanto contrariado, a maior parte dos meus dias, bem mais que gostaria, mais que aceitaria fosse possível escolher”

Corte para a Av Amazonas em transito arrastado na altura da Cidade Industrial

“não cheguei à conclusão sobre o tipo de lugar no qual estou”

Corte para carroças disputando a pista da Av Afonso Pena, em frente à Prefeitura, com carros importados

“sempre me pergunto a que tempo histórico ela pertence, acho que a nenhum.”

Corte para pontos de ônibus abarrotados, periferia que retrata o campo transferido brutalmente para o espaço urbano

“o que quer dizer este acampamento?”

Panorâmica da Pça Sete, entroncamento de Afonso Pena e Amazonas, multidão disforme e melancólica se arrastando em sinais de transito velozes

“há dias que sinto que é como uma fruta ainda por amadurecer, uma gestação ainda não terminada, uma barriga grávida gigantesca”

Corte para faces carrancudas no quarteirão fechado da rua Rio de Janeiro

“Poucos gostam realmente dela, o resto do País ri dela,”

Corte para turistas buscando em vão por informação inteligível e desistindo, visivelmente esgotados

“Os turistas se queixam”

Corte para leitores de manchetes em bancas de revistas se queixando das mazelas belorizontinas e o indefectível “Defensor da Terra” dizendo: “No Rio é pior”

“Os nativos que dizem a amar parecem não a suportar”

Panorâmica da Av Carlos Luz, ônibus se arrastando, carros parecendo padecer de reumatismo mecânico, cansaço nervoso nos transeuntes

“ a espera aqui parece ser maior. Todo o resto parece ser menor, sem nitidez, irrealizado”

Sequencia de flash backs, o narrador cabisbaixo após mais uma aventura abortada, manchetes de jornais de quase acontecimentos históricos  (Minas Gerais abandonando São Paulo em ’32)

“Para mim, muitas coisas prometeram se passar nela, prometendo passar por mim nela”
Câmera percorre Rua Padre Eustaquio, Av Pedro II

“Em muitos lugares, reflexos do que apenas ameaçou acontecer,”

Narrador cabisbaixo aparentando embriaguez e depressão

“Por isto, e não só, tudo me esgota, me expulsa, me frustra, me prostra”

Quarteirão do CEFET no Nova Suissa visto pela muralha de cimento, lado de fora

“Nunca foi meu território,”

Ruas do Nova Suissa – Monte Branco e Genebra

“Meu sítio de tentativas de caça, de muito sofrimento, pouco prazer e nenhum Poder”

Um adolescente chorando no quarto iluminado pelos postes da Rua Alpes
“Todas minhas referencias e memórias; a expectativa, a frustração, o desespero, a derrota, a desilusão, o desapontamento e a tristeza”

Adolescente se tornando um jovem grisalho atravessa resoluto a Amazonas

“Tudo de meu quase nada”

O centro disforme e apodrecido, o Boulevard Arrudas

“É lugar descaracterizado, nem muito quente, nem muito frio”

Parque Municipal e seu cortejo de caipiras desgarrados na cidade que jamais os acolherá

“Ainda não civilizado, nem realmente primitivo”

Multidões na Av Paraná em lojas de 1,99 se esbarrando como que procurando luta corporal

“Não se nivela a nada; nem alegre,nem possuidora de qualquer charme”

Terrenos baldios para os lados da Floresta ao entardecer

“Não alcança lógica; não é mesmo antiga, muito menos moderna”

Desembargador Barcelos e a nuvem escura dos ônibus que se ombreiam na via estreitíssima

“É só fosca, dizem alguns, e arredia também”

A Santos Dumont escavada, transeuntes se queixando ao chão

“E, principalmente, dizem: mesquinha, primitiva, atrasada, medieval, improvisada”

As pequenas espertezas na fila do banco, do mercado, do ônibus

“ de um individualismo pequeno, primário, miserável, nivelador por baixo”

O narrador praguejando contra a cidade, jurando escapar

“E é isto que me lembra que nada tenho com ela”

Flashbacks de vários momentos onde o narrador e a cidade se mostraram hostis um ao outro

“Numa espécie de reação alérgica, belicosa, de um aborto espontâneo”

Sucessão rápida de lembranças onde os rostos das mulheres do início da abertura e as vias urbanas se mesclam

“No plano individual, sou em tudo diferente, sou crítico e busco o mais, ainda que não saiba que ‘algo mais’ seja esse”

A morena do Dom Cabral, a ninfa do Nova Suissa em montagens das ruas dos respectivos bairros , o narrador as visitando como um vigia noturno

“Meus interesses se sujeitaram ao que me forjei e minhas obsessões , que já eram poucas, se cristalizaram como lente pela qual noto a cidade”

Jovens na praça do Salgado Filho se dispersando em busca de suas casas, correndo para alcançar os coletivos, no apagar das luzes, num crescendo de vazio e escuridão.

Fade to black – inicia-se o filme.

XXX

Tenham todos um 2013 repleto,  abraços do Pawwlow

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