Notas dos “Cadernos” sobre tragédia em Santa Maria, estréia dos estádios da Copa (versão BH),agonia do blog da “Tribuna da Imprensa” e considerações sobre jornalismo

Fizesse como o Padre Lopes Gama- que sempre que reiniciava séries de edições do jornal satírico “O Carapuceiro” (alcunha do padre-jornalista) no Séc.XIX, iniciava outra numeração – quantas edições N º 1  meus “Cadernos” já não contariam? Não homenagearei o satirista pernambucano imitando-o neste particular, mas me desculpando, uma vez mais, da cabulação do meu trabalho. A ele, que sempre reiniciava seu jornal não se amolecendo nos intervalos.

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A aparição tão súbita e gulosa da morte em Santa Maria não me arrancará propostas  de medidas que sei quase impossíveis de executar, tendo em mente nosso Estado – gordo, lerdo e com leis esclerosadas servindo-o como cérebro. Apenas oro pelos sobreviventes que queimarão por dentro pelo que resta do tempo a cumprir na Colônia Penal Aberta, vulgo Mundo. Suportando a pena, contando cada segundo. Viver, sobretudo no Brasil, é isto.

Comentaristas reprovam charges de pretenso humor de Chico Caruso com lições de moral, impostando a caneta, caprichando na postura grave. Para comentar uma charge ridícula, de humor a mim oculto,  como tantas dele já há algum tempo.

Mas, para mim, este escândalo é, na verdade, desconversa, temor de enfrentar o desespero, fruto da impotência de se conhecer habitante de um esboço de país, nutrido por miragens, empacado no Quarto Mundo.

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Falando em Quarto Mundo:  quando um lugar notoriamente atrasado, com infra – estrutura improvisada, se mete a “sediar eventos”, o ridículo é garantido – é por conta da casa.

Belo Horizonte confirmou na reinauguração do Mineirão sua fama de “roça grande” – acesso problemático, portões fechados, ingressos adquiridos via internet indisponíveis, lanchonetes fechadas e falta d’água. Todos já imaginam o que será a Copa das Confederações neste cenário, uns riem, outros murmuram entredentes  e tantos aludem ao Rio de Janeiro: “Lá também tem problema, sô, vão assaltar adoidado perto do Maracanã.”

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Em artigo sobre John Kennedy  publicado na “Tribuna da Imprensa” no ultimo dia 29 de janeiro,  Helio Fernandes se mostrou irritado com comentaristas “anônimos” que infestam as caixas de comentários do jornal que dirigiu por décadas:  “Deveriam sumir destas paginas”. Parece assustado com o que se tornou o jornal, agora blog, em seu recesso. Muito anonimato e muito insulto. Desqualificação intelectual como meio de debate, comentaristas visivelmente oriundos de blogs simpáticos ao governo, os autoproclamados “blogueiros sujos”.

A atual direção do blog defende o conceito de “pluralidade” para justificar a situação que faz antigos colaboradores desertarem sem olhar para trás e colaboradores recentes, como eu, também deixarem o espaço para os novos donos. Eu próprio em textos publicados como artigos e em comentários adverti sobre a “Caixa de esgoto”. Ainda comentei em algumas ocasiões, nas quais fui devidamente atacado por comentaristas “plurais” e em outras em que  fui ostensivamente ignorado.

Lembrei-me do texto que escrevi -publicado no 247, no qual informava a publico que não o seu, de sua trajetória e da injustiça que sofre (indenização a receber há décadas) – e da ideia de um livro de entrevistas no qual relatasse pormenorizadamente sua história e de suas controvérsias. Enfim, do que fiz por carinho pelo autor que foi uma das minhas fixações. Não me arrependo, mas seria hipócrita se escrevesse : “Faria tudo de novo”.

Hoje um leitor cobrou de Helio Fernandes sua memória poderosa, porém seletiva. Transcreveu artigo de ataques ao Brizola governador (salvo engano, o mandato da década de ’80) como comentário ao artigo recente de elogios ao mesmo Brizola. O “Depoimento” que sugeri ( texto publicado na “Tribuna” e constante aqui no “Cadernos”, onde se pode encontrar outros textos sobre Helio Fernandes) serviria muito para isto. Para que “contradições” fossem esclarecidas e o velho jornalista não se visse cobrado assim. E que não mereceu uma vírgula de comentário do Helio (então ausente) ou do Diretor. Fiz minha parte.

Lamento que o blog da “Tribuna” agonize (enquanto órgão formador de opinião) em público, sem perceber, anestesiado por elogios de alguns bem intencionados que se apegaram à marca e pelo inchaço de leitores que nada acrescentam, apenas o desfiguram.

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A entrevista de Victor Navatsky, ex-editor do “The Nation”e editor da Revista de Jornalismo da Columbia University, ao “Roda Viva” no ultimo 28 de Janeiro,  foi uma aula de hora e meia de um mestre em seu ofício. Fossem todos os professores de Jornalismo como ele e o curso seria concorrido por interesse maior que o de se obter uma licença para trabalhar no ramo.

Uma roda de debatedores que conta com Eugênio Bucci (em sua fase pós petista) e Alberto Dines discutindo questões pertinentes ao ofício jornalístico com um vulto da imprensa norte-americana é memorável mesmo se discordamos. O que aconteceu, claro.

Quando os defensores da obrigatoriedade de diploma para Jornalista perguntaram–lhe se considerava o diploma essencial, ele respondeu que, em uma redação sem a figura do mentor (a qual existia em tempos heroicos), a faculdade de jornalismo fornece ao aprendiz as técnicas e ferramentas para o aprendizado do ofício. Não chegou propriamente a defender a obrigatoriedade do diploma, mas a necessidade do curso.

Os referidos defensores da bancada sorriram: “Estão vendo? Quem defende a obrigatoriedade do diploma (o que, repito, Navatsky não fez) é uma sumidade, não jornalistas medíocres escorados em sindicatos, defendendo reserva de mercado para semiletrados ignorantes e incompetentes”. Como se os cursos de Jornalismo em país que tem a obrigatoriedade (e por conseqüência, nenhuma necessidade de fornecer ensino de qualidade para atrair alunos) pudessem se comparar aos cursos de países onde o Curso é procurado por interessados na matéria, e sobretudo se comparar ao da Columbia, como se eles fossem Victor Navatsky, enfim.

Lembrei-me de Cláudio Abramo e suas reminiscências de período em que lecionou Jornalismo (constantes no volume de entrevistas e artigos “A regra do Jogo”). Um mestre esfregando o óbulo de ouro no focinho do gato, marginalizado na Academia e no Jornalismo no final da vida.

Este o pormenor que entrevi na observação de Navatsky sobre o desaparecimento dos “mestres da redação” que gostaria de ver explorado por entrevistadores: o desaparecimento profissional precedendo o físico, mestres sendo preteridos por jornalistas rotineiros, porém de trato afável, dóceis às curriolas e aos patrões. Como observou Cláudio Abramo no livro citado aqui:  “Os patrões temem diretores fortes, ‘trouble makers’, ficou forte, eles demitem.”

Outra dificuldade em aceitar o ponto de vista do Professor é a discutível eficácia do modelo que prescinde dos “mestres de ofício nas redações”.

Os leitores declinam visivelmente, não surgem mais órgãos inspiradores e jornalistas referenciais, tudo parece uniformemente medíocre, pasteurizado. Não são mais formadores de opinião, sacerdotes culturais, em suma.

Outro momento interessante do programa foi a referencia ao “New Journalism”, não a resposta do visitante – observou que o “New Journalism é, na verdade, bem velho” e que certas técnicas novelísticas são ineficazes enquanto jornalismo – mas a pergunta de Conti, ironizando a euforia brasileira por “New Journalism, Gay Talese e Gonzo”. Logo Conti, que assinou prefácios substanciais de Talese e dirigiu ate há pouco publicação nitidamente new journalism, a “Piauí”.

Como o qualifiquei aqui de “new journalist brasileiro”, temi tê-lo irritado e desejei, pela primeira vez, que ele não tivesse lido meu microensaio sobre ele.

Um programa realmente memorável, um presente para quem aprecia jornalismo.

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