Notas dos “Cadernos”- o gesto que faltou no STF, “Porta dos Fundos” no “Roda Viva” e o ex-colunista da “Folha de São Paulo” contratado pelo “New York Times”

Por que o susto? Quando o Ministro Gilmar Mendes protestou contra publicidade oficial em sites e blogs que atacavam sistematicamente personalidades e instituições (notadamente o Supremo Tribunal Federal) percebidas pelo Governo federal como inimigas, não teve apoio unânime de seus colegas ministros do STF. Soou à época como iniciativa unicamente individual, uma represália causada pelos ataques à honra pessoal do Ministro.

Agora estranham quando o Governo através do Congresso no qual tem maioria busca avançar em prerrogativas do Poder Judiciário, num anúncio de AI-6 que só assusta os mais lerdos.

O Ministro Gilmar Mendes agiu bravamente ao sugerir que se feche de uma vez o Supremo, mas o que faltou nesta ocasião foi a dramaticidade exigida em momentos históricos:

Uma ameaça coletiva de renúncia por parte dos ministros independentes com a presença de jornalistas estrangeiros, com estardalhaço que desestimulasse avanços futuros.
Que não venham a se arrepender desta tibieza ( tibieza compartilhada por parte da imprensa tida como oposicionista), esperam os que desejam alguma sobrevida da Democracia.

XXX

Dois integrantes do Canal Porta dos Fundos foram ao “Roda Viva” da última Segunda-Feira e a entrevista confirmou minhas impressões sobre o humor que fazem e a recepção que obtêm.

O Brasil está tão intoxicado pelo lixo televisivo (sobretudo de São Paulo) que leva o rótulo de “Humor” que quando surge algo realmente digno de ser assim denominado, é recebido como algo “genial, anárquico”- o texto de abertura do programa assim os apresentou.

O Brasil, terra de Millôr Fernandes, Ivan Lessa e Angeli, está, como notou Antonio Tabet (um dos entrevistados, ao lado de Ian SBF), carente de qualidade, e um grupo que trabalha com texto é mais que bem vindo. Daí o sucesso do “coletivo” (como eles se definem -ah, como é tediosa a uniformidade vocabular) ”Porta dos Fundos”. Eles parecem saber disto.

O que tornou a entrevista a mim irritante foi a defesa do politicamente correto por Tabet e por seu colega Ian, que admitiu limites ao humor, embora observando que este limite é problemático. Quando vejo artistas e intelectuais elogiando limites de liberdade de expressão verifico o estrago de décadas de predomínio de acadêmicos no debate cultural brasileiro- a uniformidade de símbolos e toda a sorte de cacoetes semânticos (como o já citado “coletivo”- por que não adotam logo a denominação “Soviete cultural”?) que matam a inteligência com os garrotes das boas intenções e dos bons modos e fazem dos artistas criaturas realmente “coletivas”, pois feitas em série. Só é necessário o artista e intelectual que combata esta uniformidade mental, pois do contrário se é parte do “Sistema”, ainda que nominalmente não.

E o programa gastou parte considerável em discussões sobre “adesões ao sistema”, do porque de não estarem na Globo – como se isto contivesse maior significado e os humoristas foram sinceros: ir para a Globo é mau negócio, pois indo deixariam de ser o que são, simples.

Mario Sergio Conti enumerou artistas que se descaracterizaram indo para a Globo, como “Faustão” e “Os Trapalhões” , mas a verdade é que os tempos estão mais caretas (a uniformidade mental, já referida) que a industria, que apenas trabalha para atender ao senso comum.

A intervenção de Paulo Caruso também foi significativa: defendeu que “nem todas as ideias merecem vir à luz”, esquecido que o politicamente correto condenaria muito de seu humor e de seu irmão Chico. Mordaça, só para os outros, os de “ideologia errada”.

Quando uma novela como “Avenida Brasil” é saudada como “revolucionaria”, a crítica se esquece do choque causado por “O Dono do Mundo”(novela até hoje não reprisada) que mostrou em horário nobre o subúrbio carioca, a realidade dos surfistas de trem, das beldades que se prostituíam na Zona Sul, do cinismo dos poderosos, seguros da impunidade. Novela feita na indústria, com elenco de primeira (Antonio Fagundes e Fernanda Montenegro, entre outros) na contramão de um publico que preferiu assistir “Carrosel”.

O próprio Conti quando dirigiu “Veja” fez desta uma revista mordaz, ousada nas capas, dando à revista influenciada pelo modelo “Time”, feições de publicações de Esquerda europeias. Lembro de coluna de Elio Gaspari na qual ele analisava disco dos “Garotos Podres”.

O sistema cobra seu preço, claro: “O Dono do Mundo “ só teve sucessora  (“Avenida Brasil”) cerca de vinte anos depois e a fase Conti em “Veja” durou menos de dez anos (seu livro “Notícias do Planalto” fechando-lhe numerosas portas) e a “TV Pirata” (humorístico elogiado no programa, sobretudo por Conti, nota-se) teve vida breve.

Mas a arte e a cultura sobrevivem sem estes desafios? Como aceitar como “anárquico” humor que se diz inspirado em Monty Pyton e se nega a satirizar o Islam, concentrando-se em alvos fáceis como evangélicos e passando ao largo de políticos (como notou Conti) ?

Falando em petistas o sketch “Entrevista” é nitidamente um afago nos formadores de opinião do petismo, vigilantes nos barzinhos “conscientes, do bem” da Lapa. Quem não o percebe?

Este texto faz parecer que detesto o”Porta”?  Pois não detesto, me divirto com muitos dos sketches (mesmo o “Entrevista”) e mesmo com a participação deles no “Roda Viva”, apenas penso que humor de costumes é algo não exatamente inédito e revolucionário, mas o Brasil é assim mesmo : inaugura reiteradamente o Século Vinte.

XXX

E o “New York Times “ , sempre cioso de sua majestade (sempre tratou com altivez nomes como Tom Wolfe, Gore Vidal e Norman Mailer) contrata o ex-colunista da “Folha de São Paulo”(que obteve maior sucesso em outras áreas de atuação), Luiz Inácio Lula da Silva.

Há quem se pergunte: escreverá sobre sindicalismo, novos rumos da Esquerda mundial, lobby de industriais no Congresso dos Estados Unidos, ou sobre generalidades, como o teatro de Tennessee Williams ou o Novo Cinema Alemão ( um paralelo entre as obras de Rainer Werner Fassbinder e Volker Schlondorff seria cogitada como primeira colaboração)?

Escreverá em inglês ou será traduzido do português (ou idioma aparentado)?

Há quem garanta que será empregado um “ghost writer” – autor de texto insípido como o são as peças produzidas por assessores de imprensa oriundos do meio universitário, com os chavões sub ideológicos usuais, atribuindo culpa às elites, declarando fé em “um outro mundo possível”, na necessidade da “ ’prevalência’ de outros atores no tabuleiro mundial”, etc, etc, enfim o menu servido em seus dias de colunista na “Folha de São Paulo”. O texto será menos divertido que seria se Lula fosse  o autor, mas argumenta-se que tal demandaria a contratação do tradutor de Guimarães Rosa como despesa adicional.

Quem o lia quando escrevia no jornal da Barão de Limeira? Quantos petistas não manifestavam desconhecimento sobre o dia da semana no qual a “Coluna do Lula”era publicada? Quantos filiados ao PT comentavam o artigo no dia seguinte?

Quem guarda na memória um único, solitário artigo do líder de devoção?
Mas agora no “New York Times” a colaboração do ex-colunista da “Folha” receberá maior atenção , será ao menos replicada nos sites subsidiados .
E isto leva à constatação de um marco histórico: a transformação do “New York Times” em sócio de luxo de sites “companheiros”.

Comentário do autor deste blog ao artigo de Celso Arnaldo publicado na Coluna do Ricardo Setti sobre o tema no dia 27 de Abril registrava (sob os protestos do grande jornalista Setti que não concordava, assegurando, apesar de tudo a posição do NYT como “O melhor jornal do mundo”) e aqui reitera:

R.I.P
New York Times
1851-2013

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2 respostas para Notas dos “Cadernos”- o gesto que faltou no STF, “Porta dos Fundos” no “Roda Viva” e o ex-colunista da “Folha de São Paulo” contratado pelo “New York Times”

  1. Fernando, Gostei. Gostei muito disso “-ah ,como é tediosa a uniformidade vocabular)”” . Eu odeio essa maneira de, principalmente, os jovens falarem que usam uma dúzia de expressõezinhas da moda.
    Muito bom. Abraços – Paulo Mayr

    • fernandopawlow disse:

      Caro Mayr, desanima ouvir da boca de artistas e intelectuais a reprodução de jargões .
      Cacoetes verbais deveriam ser reservados aos que nada lêem,nada pensam.
      A sociedade trata artistas como pessoas especiais,com razão.
      Que se expressem,pois, coerentemente com tal status.
      Obrigado pelo comentário e pela visita ao blog.Voce,que em seu “Boca no trombone” sempre atenta aos vícios e desleixos com a linguagem.
      Abraços do Pawlow

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