Notas dos “Cadernos”: A “crise” da “Imprensa Golpista”,”Discutir mudanças na lei agora? Deixa os cadáveres esfriarem”e Ruy Mesquita, mais uma baixa entre os guerreiros do Brasil

As demissões em grandes empresas jornalísticas ilustram os necrológios da “grande mídia” redigidos por seus ex-funcionários, agora a serviço da “mídia progressista” governista.

Os refrões das marchinhas comemorativas da “morte do velho modelo” mencionam a”migração para a internet”, “crise do papel” e  “público da internet” e desavisados engrossam o coro.

A crise atual apenas é desdobramento de crise estrutural do modelo empresarial adotado sem filtros:  sedes-palácios e redações numerosas afetando poder editorial com salários e bônus para executivos comparáveis aos valores pagos pelo mercado financeiro sem a circulação correspondente em país de poucos leitores.

Cláudio Abramo no “A Regra do Jogo” admitiu ter contribuído para este modelo,  implantando n”O Estado de São Paulo” as “redações gigantescas” e em outro momento do livro citado deplora a mudança da sede d”O Estado”, no seu entender,”desnecessária”.  Jornais que mantiveram redações em logradouros pouco prestigiados ( “Folha de São Paulo” e “O Globo”) se endividaram menos que órgãos que ergueram sedes autoglorificantes.

O saturamento do mercado por jornalistas acomodados na reserva de mercado para diplomados também é um item pouco apreciado pelos juízes da situação. Reclama-se da “descartabilidade do jornalista”, mas poucos justificam, pelo trabalho usualmente encontradiço na imprensa brasileira, cinco ou seis jornalistas trabalhando em matérias sumárias e superficiais. Queixam-se do “acúmulo de funções”, tratando um ofício como profissão e depois lamentam quando o mercado trata-os como trata profissionais que operam em série: Crise, demite-se. Dou um exemplo de “amor à profissão”:

Recentemente, a coluna de Ricardo Setti na edição eletrônica de “Veja” publicou matéria sobre condenações rigorosas para criminosos nos Estados Unidos, ilustrada com boxes enfocando assassinos célebres e suas respectivas condenações. Num box, Mark Chapman era apresentado como “o idiota que atirou em John Lennon para impressionar Jodie Foster”.

Assim ficou referido por dois ou três dias, até que corrigiram o “engano. Fui o primeiro comentarista a apontar (14/05/2013) o erro, observando que quem desejara impressionar Jodie Foster fora o atirador no então presidente Reagan. Outros dois comentaristas me seguiram e aparentemente nenhum jornalista da vasta redação de “Veja”percebera nada.

Como evitar nostalgia por tempos de maior rigor na apuração na ainda melhor (pois é a única não governista) revista semanal do País?

O que não pode haver e parece estar havendo é a demissão de jornalistas competentes (alguns com Prêmio Esso no currículo) e colunistas consagrados para a manutenção de “profissionais“ que pouco acrescentam em qualidade, embora lotem redações.

É economia suicida que aposta no nivelamento por baixo como condição de sobrevivência editorial e que apressará a degradação do conteúdo, justificando a deserção de leitores.
E que confirmará os necrológios antecipados pelos propagandistas do “novo modelo de mídia”.

XXX
Arrastam um menino de seis anos de idade pelo cinto de segurança pelas ruas do Rio de Janeiro , “para queimar o Judas” (segundo o autor da monstruosidade) e o então presidente Lula aconselhava não discutir mudanças das leis sob “forte emoção”.

Quantos outros massacres tiveram como palco o país de dezenas de milhares assassinatos por ano desde então? Penso que as atrocidades sucessivas queimaram no inconsciente coletivo brasileiro os canais de capacidade de revolta , de exigência legítima por retaliação.

Com a prestimosa contribuição de professores universitários, “doutores em causas da violência”, explicadores contumazes de tragédias alheias. Acomodados nas “poltronas da Vovó” dos estúdios de TV por assinatura, tapam a boca mesmo de parentes das vítimas, recitando subsociologia entremeada com estatísticas elaboradas por seus congêneres.

Agora o novo “paradigma” é incinerar quem não tenha se abastecido suficientemente para assaltos. Não sei qual explicação oferecem a esta nova modalidade, certamente citam Foucault ou algum epígono da Escola de Frankfurt nas entrevistas nas quais são reverenciados enquanto lamentam a “desigualdade, a iniqüidade social”. A frequência dos ataques não comove, antes aprofunda, nestas mentes, a anestesia patológica ao desespero dos familiares.

Defendem alguns a maioridade penal aos 16 anos de idade, adiando assim a discussão necessária sobre culpabilidade dissociada de idade para certos crimes.

A possibilidade de condenar “crianças” estupradoras e assassinas ainda é tabu neste fetichismo cronológico já negado pelos fatos. E tabu não enfrentado é fortalecido.

Debates sobre o tema não contemplam sentimentos dos sobreviventes, pormenor certamente piegas a muitos “estudiosos”e nunca se cogita convidar para debater novas leis, vítimas, familiares de vítimas, repórteres policiais e policiais. Sociólogos e antropólogos parecem melhor talhados para discutir mudanças que não ocorrerão a curto prazo.

Pouco vejo figuras como Claudio Tognolli e Francisco Garisto nos programas sobre criminalidade, embora ambos sejam, o jornalista e o policial, estudiosos dedicados ao assunto. Suas opiniões não são necessariamente próximas às minhas, mas reputo -os sérios.

Francisco Garisto, policial federal, mantém blog obrigatório a quem queira ler opiniões de quem entende de segurança e Claudio Tognolli é autor de inúmeras reportagens sobre criminalidade. Pouco os vejo consultados na TV quando massacres ocorrem.

Mas oráculos de Departamento Universitário propondo que se discuta mudanças nas leis quando todos os cadáveres estiverem convenientemente gelados, vejo sempre.

XXX

Ruy Mesquita, o lacerdista arquetípico do clã de “O Estado de São Paulo”, o brigador liberal, o jornalista com disposição de bomba atômica .

Assim me acostumei a pensar no jornalista morto recentemente.

Sempre me pareceu empolgado e enfurecido contra idiotas num mesmo fôlego e pressinto em sua partida intensificação do que descrevi no texto sobre Chico Anysio como “o avanço do deserto” brasileiro. Gigantes se retiram da guerra enfastiados, reconhecendo a vitória dos primários e mesquinhos, a “placidez lacustre da mediocridade”, apontada por Carlos Lacerda, de cujo “Depoimento” Ruy Mesquita foi autor do prefácio, necessário e brilhantemente escrito- texto caudaloso e sentimental sobre o amigo e mentor intelectual, de quem divergiu e se afastou por vezes, sem contudo deixar de admirar e sentir como amigo.

Reli este texto precioso agora que o autor se juntou ao panteão dos polemistas brasileiros, e lamentei por minha geração que o desconhece e pelas que, educadas no nivelamento por baixo que faz de presunçosos,  formadores de opinião, promovidos de estrelas de caixas de comentários a articulistas com retóricas de oradores de turma de colegial, também sobreviverão na ignorância do que seja um jornalista de nível.

Ruy Mesquita
R.I.P
1925-2013

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