Notas dos “Cadernos”: “Empirismo abstrato ” como bússola política e “Não falem do Olavo”

“Empirismo abstrato ” como bússola política

O sociólogo norte-americano C.Wright Mills em seu “A Imaginação Sociológica” dedica um capítulo ao que denomina como “Empirismo Abstrato”- coleta de dados em pesquisas sem qualquer lastro teórico, para que produzam sentido sociológico por si ou possam se adequar à alguma teoria que se pretenda impor. Os dados são acumulados à espera de uma síntese não garantida e os pesquisadores se acreditam “cientistas sociais”.

Há cerca de mês e meio tive amostra do “Empirismo abstrato”- recebo ligação e se identificam como pesquisadores do “Instituto Vox Populi”e me propõem interrogatório, ao qual respondi no limite do que pude:

“O senhor já ouviu falar da CNI- Confederação Nacional da Indústria?”
“Sim, sei que usualmente fornece seus quadros para Ministros da Indústria e Comércio e tem ligações com organismos como SESI e SENAI”.
“Acha que ela desempenha bem suas funções?”
“Pouco sei, mas acho importante termos entidades de classe e um empresariado que mantenha cursos profissionalizantes.”
“Conhece o Instituto Euvaldo Lodi?”
“Sei que é ligado aos SESI e SENAI . Mas desconheço outras atividades.”
“Que sabe de Euvaldo Lodi?”
“Que foi um líder industrial dos tempos de Getúlio Vargas”, omitindo, por considerar controversos, rumores que o indicam mandante do atentado a Carlos Lacerda.
“Quais os pontos positivos e negativos da CNI?”
“O que considero positivo é uma entidade abertamente classista e atuante e o que julgo negativo é a divulgação ineficaz de seu trabalho junto à massa, e seu empenho insuficiente na formação de um ‘pacto social’.”

Esta resposta, a ultima, me confirmou o que penso de pesquisas como meio de aferir humores da população ou coletar dados científicos: feitas assim, são perguntas de quem não sabe perguntar a quem não sabe responder.

Que acompanho da CNI para considerar seus esforços acanhados na “formação de um ‘pacto social’”? Que leio de publicações da imprensa de negócios ou de apostilas do Instituto Euvaldo Lodi (se as houver, claro) para formar juízo da eficácia ou ineficácia de sua propaganda?

Assim tantos respondem aos pesquisadores que fazem indagações ligeiras a quem acompanha de passagem e muitas vezes sem estudar, opiniões sobre costumes e políticas. Como autômatos perguntam uns e respondem outros no mesmo automatismo sobre intenções de voto,  casamento entre homossexuais,  privatização da Petrobras ou redução da maioridade penal, entre um expediente, uma refeição e um velório.

Com tais dados coletados “empiricamente”,  teóricos elaboram arranjos lógicos e, “cientificamente”, forjam tendências que pautarão uma imprensa superficial e ansiosa por respeitabilidade,  preferencialmente sem esforço intelectual de ler e associar dados.

Os institutos se encarregam, no arranjo entre departamentos universitários, de fornecer o material que o jornalista divulga sem questionamentos adicionais.

Oposição comemora queda de popularidade do Governo como os governistas utilizavam índices de aprovação como argumento preferencial, tomando pesquisas como instrumento único de análise e reduzindo o debate público ao exercício de “empirismo abstrato”, como descrito por C.Wright Mills. Não parece haver outro referencial, nas mentes de editores de jornais e revistas e de dirigentes partidários, que não pesquisas coletadas às pressas.

E por tais artes de tudo se explicar segundo empirismos “científicos”, o senso comum, como descrito por outro sociólogo obrigatório, Durkheim, é, no Brasil, o único senso.

X

“Não falem do Olavo”

O lançamento do livro de ensaios “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, confirma seu autor, Lobão, como membro da família dos autores-assunto, como Nelson Rodrigues e Glauber Rocha, polemistas que contribuíram para a vitalidade do debate publico no Brasil, debate que acadêmicos procuram manter em estado comatoso, pois só assim sobrevivem folgadamente.

A resposta que os “excêntricos” obtêm  (vendagem de livros e avidez do publico por matérias sobre eles) demonstra a necessidade que muitas pessoas sentem de vida intelectual digna do nome: acadêmicos subsidiados não rendem assunto fora dos corredores de departamentos e são mal percebidos pela população que os sustenta pagando impostos, por tornarem os assuntos que afetam estudar enfadonhos e irrelevantes.

Outro escritor-assunto, tema de fúrias e devoções, Olavo de Carvalho, é mencionado por Lobão como autor que o influencia. Lobão,  homem que já demonstrou coragem em diversas outras ocasiões, não teme citar o pensador que,  a despeito do sedimentado e ainda crescente interesse que atrai de estudiosos e interessados em cultura e política, tem,  em torno de si, o silencio de vastos territórios na mídia, que parecem acreditar que não o citando, matam-no.

Os territórios citados no parágrafo anterior espalham-se na Esquerda e Direita do mapa cultural, pois a estupidez, no Brasil, é ecumênica ideologicamente, a mediocridade se mostrando zelosa dos seus bocados de Poder, nada deixando escapar, de esquerdistas de estatais e paraestatais aos liberais de almanaque de autoajuda empresarial, de militantes de grupetos de esquerdismo de classe média aos religiosos ultra- medievais; todos obedecem a uma ordem comum:

”Não falem do Olavo, não em publico”.

Alguns obedecem docilmente ao comando, por lembrança de embates com o personagem-tabu, nos quais se retiraram vencidos pelo contraste intelectual, enquanto outros por espírito de obediência grupal, por temor do “contágio” da “má fama”, ainda que neguem nominalmente respeito tanto às esquerdas quanto aos inimigos católicos do jornalista e filósofo.

Assim, quando Lobão cita o autor de “O Jardim das Aflições” numa entrevista, afetam não perceber a menção ao nome interdito. Não procuram saber do entrevistado quais os pontos de contato entre o que escreve e os de sua admiração, como se tratasse de minúcia indigna de pedidos de esclarecimento, um ruído inaudível em meio à conversa.

Olavo de Carvalho escreveu sobre a tentativa de ridicularizar Lobão como “seguidor do Olavo”,  empreendida por alguns que ignorando a ordem de não citar Olavo, citam-no como uma aberração, ou “mais uma das excentricidades do Lobão”. Teve a dignidade de assumir ainda não ter lido o livro, mas demonstrando interesse em ler e analisar.

Artigo assim, no qual o autor que é mencionado pelo tema de reportagens como sua influencia, escreve sobre o personagem seria replicado em diversos sites e citado por todos, não? Não no Brasil. Replicam artigo rotineiro de Rodrigo Constantino, apresentado como obra-prima, mas o artigo de Olavo de Carvalho permanece semi clandestino, semi inédito.

Articulistas de “Veja” e d”O Globo” agiram assim quando resolveram admitir a existência do “Foro de São Paulo”, escreveram sobre a organização sobre a qual aparentemente nunca ouviram falar como se conhecessem as Atas do “Foro” de cor e salteado. Atas e dados sobre o Foro de São Paulo que se materializaram por mágica nas redações de iluminados de terninho.

São os jornalistas que se acreditam habilitados a salvar o Brasil do PT recitando slogans sobre autoridade moral, com modos de yuppie de comercial de banco.

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