Um dia para a História no Brasil – “Medo acabou” e Por que um Ministério da Cultura ?

No “Tereza Batista Cansada de Guerra” de Jorge Amado a heroína, ao esfaquear seu algoz, Capitão Justo, que sempre desfrutara dela como coisa, responde a ele pelo medo, sua garantia de mando e prazer:”Medo acabou, Capitão”.

Há momentos que não se descrevem apenas pelo deslizar vagaroso do tempo sobre coisas e pessoas e deles só se descreve com segurança pelo que legam, à  distancia do tempo. No que resultarão, por quais equívocos e determinações, ou felizes acasos e acertos, não se sabe assim tão de perto, no quando que somos deles pacientes e testemunhas mudas ou ruidosas.

Um pretexto se estende, e alcança territórios históricos não previstos, mesmo por quem se julga parte de uma liderança que prevê revoluções e ordens sociais desenhadas nos laboratórios do que chamam “engenharia social”. As explosões ao longo da História usam ignorar os limites traçados por planejadores oniscientes e se impõem famintas.

Massas recusando a lavagem cerebral de torneios de futebol para realizar o sonho de massa escorrendo por avenidas quantos de nós já desistiram de ver realizados em tempo de vida? Fantasias eram transferidas para gerações mais à frente e nossas omissões e escolhas se justificariam num apodrecimento lógico e infalível, pela inércia, de símbolos e sustentáculos do Poder. Décadas de biografia pessoal entretidos em sonhos, não atribuindo aos atos próprios fator de mudança e assim justitificando desistências, tramava-se  o Futuro.

Mas o ativismo eletrônico eliminou, pela tecnologia, o direito de afetar indiferença  quando se é humilhado sistematicamente pelos poderosos- alguns escrevem textos indiferentes ao número desanimador de leitores, outros divulgam ideias que animam, e assim, todos combatem como podem. Blogs e redes sociais se revelando com utilidade alheia ao exercício da fofoca e da ostentação, e se cristalizam como artefato político, com potencia para derrotar a procrastinação atávica, no que acadêmicos percebem “um novo paradigma”.

E assim militantes de movimento que pugna por passe livre em transportes coletivos organizando protestos contra aumento de tarifa convertem-se em muitos (milhares ou milhões) que, sem filiação partidária ou ideológica definida, resolvem unir pulmões num “Basta!”que se fez ouvir pelo mundo, no ano em que o referido mundo observa o país sede da Copa. Gritam que não aceitam suportar o Estado que ergue estádios de orçamentos incompreensíveis com a saúde sendo tratada com hospitais -açougue, com impostos que nunca são justificados em serviços, com o numero anual de homicídios superior ao de guerras que duram anos, com a impunidade gargalhante de políticos, sobretudo os de escândalos recentes, com o custeio de um banquete no qual não se cogita alcançar sequer as migalhas, entre tantos etc, que precisavam ser expostos para todo o resto do mundo saber a realidade oculta pela propaganda de um Governo que é somente propaganda.

Não apenas a insatisfação com transporte coletivo infame, louvado por usuários – militantes (em BH a Associação de Usuários aplaude a BHTrans),mas lamentado entredentes por usuários que não percebem qualquer melhoria , embora o aumento anual seja infalível. O que não se aceita mais é a prepotência dos totalitários que se julgam autorizados a humilhar os cidadãos com a incompetência dos pomposos iletrados auto enamorados.

Emocionante o espetáculo de jovens visitando o Congresso pela cobertura, ainda que  tratados pelas tropas (e pela mídia) como “invasores”. Invasores do Congresso? Como invadir o que pertence a todos?  Quantos teremos chances assim de desafiar usurpadores?

Militantes dispostos a emporcalhar este dia com depredações, delinqüindo com disposição e desembaraço, ainda que com camisas tampando os rostos, são mesmo assim úteis pelo que oferecem ao mundo como contraste e como material de reflexão: ”A quem interessa depredar, coagir e atacar policiais e mesmo outros manifestantes?”

Temerário afirmar que ao Governo, mas seguro advertir que se organizadores do evento não desejarem seu aborto, deverão cobrar identificação dos criminosos, e de mandantes e punições rigorosas. Não se deve esperar que o esquecimento não trabalhe para delinqüentes, pois ele sempre trabalha para a impunidade. Ou então, rendamo-nos todos.

Um belo dia, uma advertência aos poderosos:

“Medo acabou, senhores, medo acabou”.

XXX

Quantos de nossos talentos são para nosso consumo exclusivo, ou no máximo para scholars interessados em Brasil e em “coisas nossas, os “Brazilianists”?

Quantos de nossos filmes são ainda desconhecidos de críticos estrangeiros e portanto, subvalorizados aqui no Brasil? Martin Scorsese declarando sua intensa admiração por Glauber Rocha é argumento decisivo a favor do cineasta, mesmo para “nacionalistas de Esquerda”, mas ainda assim é um cineasta americano, dos mais eruditos em cinema, e quantos outros de seus colegas americanos que nada conhecem além do Zé Carioca ou ‘”Cidade de Deus”?

Assistindo  programa dedicado ao Eugene O’ Neill, no excelente “Arte de Ver, Arte de Ouvir” do saudoso ator e diretor Sergio Britto, resolvi ler a obra do dramaturgo americano, ainda que encontrasse somente obras no original. Como imaginava, encontrei quase que somente textos em inglês, os quais atravessei com dicionário e aproveitando a disposição, fui de Tennessee Williams, e pensei:”Quantos nos Estados Unidos estão se esforçando neste momento para ler Nelson Rodrigues e Plínio Marcos? Haverá livros deles nas bibliotecas americanas?”

Harold Bloom confessou não ter incluído Machado de Assis no seu “Cânone Ocidental” por não ter encontrado quando da elaboração de seu livro tradução satisfatória. Assim como outros intelectuais americanos que confessam interesse em nossos escritores, mas admitem desistência diante dos mesmos obstáculos: poucas traduções confiáveis e poucas obras disponíveis em bibliotecas. Há quem diga: “que aprendam português e se esforcem como nós”.

Perfeitamente, mas pergunta-se: Qual a serventia então para um Ministério da Cultura que não o de promover nossa cultura no exterior, valorizando-a como mercadoria e arma de penetração cultural? Cabides de empregos para políticos recém-derrotados em eleições, aos quais não se encontrou outro consolo? Subsidiar espetáculos que ainda subsidiados permanecerão inacessíveis aos financiadores culturais que se locomovem de ônibus e não tem roupas nem tempo para freqüentar teatros? Financiar filmes inassistíveis, muitos sem público- mesmo quando exibidos na TV? Ou promover “Mostras de Arte” para poucos interessados?

Filmes como “Rainha Diaba”e “O Bandido da Luz Vermelha” filmes ousados, que críticos e cineastas consideram fundadores de estética debochada, continuam desconhecidos de muitos cineastas europeus e norte-americanos que certamente os citariam como filmes inspiradores, como Scorsese faz com “Antonio das Mortes”.

Tantos tesouros constantes da Coleção Brasiliana (digitalizada pela UFRJ), o maior acervo de estudos sobre o Brasil, publicada originalmente pela Companhia Editora Nacional, e condenados ao conhecimento exclusivo de brasileiros, o resto do mundo ignorante do que somos capazes de contribuir. Falando em “Brasiliana”, a Coleção em breve terá texto tratando só dela aqui no”Cadernos”,visito-a quase diariamente. Recomendo o site dela na UFRJ.

“E precisamos deste aval para nossa arte? Que estrangeiros aplaudam nossos esforços? Nossa autoestima seria tão dependente assim de cafunés de críticos do “New York Times” ou de monstros da cultura ocidental?” perguntam os nacionalistas que padecem de paixão recolhida pelo “colonizador cultural”, entre uma reserva de mercado e um estímulo fiscal.

Sim, é necessário, afinal consumimos o trabalho de outros países e é justo que haja um fluxo de ida, e por que não admitir? muitos brasileiros ainda relutam em valorizar estes produtos culturais por falta de recomendação de artistas estrangeiros. Tarantino elogiando “Rainha Diaba” talvez tornasse a tarefa de achar cópia do filme menos trabalhosa.

E repete-se a pergunta: Para que mantermos então um Ministério da Cultura? Se demonstrado que inútil, que ineficaz e meramente ornamental, é dever dos artistas e intelectuais que não sejam contemplados no banquete das Leis de Incentivo combater por sua extinção.

O Brasil que surge fatalmente exigirá organismos úteis,  ou mortos.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s