Dois líderes do “Passe Livre” no “Roda Viva” e “Música sobre ‘Malagueta,Perus e Bacanaço’, enfim, uma idéia a seguir”

Dois líderes do “Passe Livre” no “Roda Viva”

Os dois militantes do “Movimento Passe Livre” foram recebidos ontem no “Roda Viva”, com a deferência reservada a líderes;  pontificaram sobre as diretrizes do movimento no qual militam e suas concepções sobre “sociedade igualitária” e o debate sobre transporte coletivo, sem maiores questionamentos por parte de Mario Sergio Conti, reverente no limite da complacência para com as respostas burocráticas da dupla de ativistas.

Os dois jornalistas, um do “Estadão”, Marcelo Godoy, outro da Radio Bandeirantes, Rafael Colombo, que questionaram os entrevistados sobre custos de um possível sistema de tarifa- zero, utilizaram de argumentação que, embora necessária e digna do ofício de jornalista (cujo dever é questionar,  nunca satisfeito com respostas que não respondem), soava como a de advogados das empresas de ônibus : “Quem pagaria a conta? Quem arcaria com o combustível e os pagamentos de motoristas e cobradores? Vocês fizeram as contas?” – Perguntas pertinentes, ainda que certamente antipáticas dirigidas a quem diz sonhar com cachoeiras de leite achocolatado para todos, ainda que não saiba quem providenciará as vacas e o cacau.

O que considero questionável nos jornalistas que “atêm-se aos fatos” é que pouco indagam sobre o lucro dos empresários, sobre a legitimidade da planilha de custos, como se perguntar sobre supostos acordos entre vereadores e empresários doadores de campanha fosse demonstração de “esquerdismo fácil”e o único realismo possível repouse no balanço das empresas, dissociado de quaisquer nuances ou investigações sobre o que empresários alegam.

Entrevistados e entrevistadores pareceram temerosos de enunciar o óbvio: ”Os empresários devem dar seu bocado de austeridade, nos lucros”.

O veterano combatente Milton Coelho da Graça insistiu sobre acordos entre financiadores de campanhas e vereadores, que tornam aumentos medidas indiscutíveis, embora a qualidade do transporte não apresente, ao contrário, qualquer justificativa aos preços, em melhorias.

As ponderações do Cel. José Vicente Filho sobre a violência das manifestações teve como resposta slogans e retórica de diretório acadêmico, e, confesso, não sei como um membro do Corpo de Altos Estudos de uma instituição (Polícia Militar) digna-se a discutir assim. Quando um lado apresenta dados e outro apelos emocionais, o retórico sempre ganha a discussão, pelo esgotamento que provoca. Não falar francamente sobre fenômenos, nosso mal.

A manifestação necessária (e tardia) de milhões nas ruas exigindo respeito não justifica ações criminosas e estudantes que as defendem enfraquecem o simbolismo destes últimos dias.

A figura de Milton Coelho da Graça foi um ponto alto, emprestando sua autoridade de militante dos tempos da Ditadura para traçar paralelo entre a repressão de hoje e a que sofrera então, além das já mencionadas intervenções sobre a promiscuidade entre políticos e empresários de transporte. Um jornalista da boa velha escola, em suma.

Outra presença emblemática foi a da repórter da “TV Folha” Giuliana Vallone, com o olho direito ferido pela bala de borracha de um PM, nada repousada pela condição de celebridade, firme nos questionamentos sobre objetivos do MPL e alcances das manifestações e sobre a responsabilização do Governador Alckmin pela violência e blindagem do Prefeito Fernando Haddad .

O que percebo nestes ativistas é uma insuficiência teórica, demonstrável pelo jargão, pela previsibilidade das falas- “Construção (esta palavra aparecia a cada quatro) de uma sociedade igualitária”, “repensar a questão do transporte”, “ a brutalidade do aparato repressivo” etc – e pela presunção de que são os motores das fúrias que tomaram as ruas ontem.

Lembram a imagem usada por Paulo Francis para comentar a atuação de Marcio Moreira Alves nos acontecimentos que desabaram no AI-5: a do cavalo puxando a charrete, acreditando-se condutor pelo sininho que traz ao pescoço.

Acreditam ser líderes da enorme massa de enfurecidos (refiro-me aos manifestantes que não praticaram saques e outros crimes, mas que berraram palavras de ordem contra partidos e autoridades estabelecidas) que lotaram avenidas? Com a postura judiciosa desacompanhada de carisma e saber ideológico compatíveis? Determinando o que é legítimo nas manifestações com poderes auto-outorgados? As massas parecem parafrasear Zé Pequeno em “Cidade de Deus”, o filme, em um só deboche aos líderes da esquerda de gabinete:

“E quem falou que a marcha é tua?”

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Música sobre “Malagueta, Perus e Bacanaço”

Os músicos Thiago França e Romulo Fróes, com o auxílio de músicos amigos, criam trabalho dedicado ao conto “Malagueta, Perus e Bacanaço” de João Antônio, com algumas faixas instrumentais e com três canções cujas letras aludem aos personagens do conto que completa 50 anos em 2013. Uma efeméride que vejo pouco percebida, celebrada.

O que os fragmentos exibidos no “Programa Metrópolis” no qual me baseio mostram é que os músicos transmitem mesmo nos temas instrumentais a energia nervosa das ruas da São Paulo noturna, imortalizada pelo autor carioca nascido e criado na cidade (radicou-se no Rio de Janeiro após o sucesso do livro “Malagueta, Perus e Bacanaço” até morrer, nos anos’90): a iluminação elétrica sobre  prostitutas, cafetões, otários cansados, jogadores de sinuca; seus “Merdunchos”, os “viradores sem eira nem beira”;   a solidão pesando sobre todos como sofrimento adicional, um imposto da cidade que não afaga, que não perdoa.

Os trechos das canções me parecerem também fiéis ao universo de João Antônio, à sua visão malandra da sociedade, sua tiração de sarro convicta, arma e escudo contra otários.

A ideia de se utilizar obras da literatura como fonte nominal de inspiração me parece vital para que a literatura saia da condição de instrumento de “respeitabilidade intelectual”, infelizmente seu uso mais frequente no Brasil. O sujeito lê fazendo pose, assiste a filmes ditos “de arte” ou cultiva “samba de raiz”pelo mesmo motivo: atitude de intelectual como pé de cabra social.

Lobão percebe este vício nos “emepebistas” da Lapa atual (imagino o que João Antônio diria desta Lapa universitária e farisaica, tomando por base seu texto sobre o “Zicartola”) : não ouvem samba com o prazer com que se ouve Rolling Stones, antes com a postura do “militante cultural nacionalista e politicamente correto”. Matam a arte e a vida, cuidando de status.

Não digo que os autores do tributo ao João Antônio sejam diferentes, por ignorar quem sejam, mas a ideia de criar sobre um livro determinado anima,faz imaginar coisas a ser feitas.
Que João Antônio seja o primeiro o contemplado, apenas justiça a um mestre.

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