Notas dos “Cadernos”- Operação de guerra…contra manifestantes e Sganzerla, vitamina mental

Operação de guerra…contra manifestantes

Um padrão nas manifestações, tal como exibidas pela TV: o desfile de manifestantes, entoando palavras de ordem e portando cartazes e faixas, avenidas convertidas em pistas de pedestres, manifestantes pacíficos em sua maioria, e no final do cortejo, os delinqüentes assíduos saqueando, depredando, agredindo policiais e manifestantes.

Há barreiras de policiais esperando manifestantes, como enfileirados para o confronto fatal, mas, pergunto: haverá cobertura lateral, protegendo os manifestantes e portanto, próximos (e prontos a agir em tempo hábil) dos delinqüentes?

A polícia sempre chega atrasada aos pontos de vandalismo, geralmente quando lojas já foram arrombadas e carros incendiados, conseguindo prender um ou outro desgarrado do bando de malfeitores e isto em praticamente todas as manifestações.

Em Belo Horizonte, armou-se praça de guerra para recepcionar os manifestantes, temeu-se a repetição da violência policial contra estudantes que portavam faixas e bandeiras, tentou-se pacificação e os saques foram perpetrados ainda assim.

Nada entendo de policiamento, mas a repetição tediosa do mesmo padrão ”policiamento intimidatório contra manifestantes desarmados e repressão tardia aos bandidos infiltrados” faz supor que a PM esteja escolhendo o inimigo errado.

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Sganzerla, vitamina mental

 

O Brasil tem sua sorte e seu azar na riqueza que o arrasa. Fosse país menos presenteado pela natureza e teria que se inventar fabril e feroz. No que se espreguiça sobre seus tesouros, perpetua-se atrasado e desorientado sob sol estupidificante.

Assim somos.Temos escritores de gênio, mas pouco lidos, no país que despreza conhecimento na mesma proporção que valoriza o dinheiro e o luxo cafona,as mansões decoradas segundo manual de kitsch não escrito, e as paredes desertas de livros das casas dos ricos e famosos educando a massa na celebração da boçalidade ao alcance de todos.

Cineastas também temos de primeira grandeza, e quem fora do círculo de cinéfilos pedantes os conhecem? Penso em Rogério Sganzerla, cujo tom inspira os parágrafos iniciais deste texto: pensador, autor de diálogos engraçados e filosóficos sobre nosso subdesenvolvimento e selvageria em meio à riqueza natural, o deboche como arma contra a esterilidade mental propagada pela Esquerda mais sectária e pela Direita mais obtusa, e o entusiasmo pelos símbolos culturais os mais aparentemente díspares fazem deste artista um item necessário e precioso. Descoberto pela massa, seria mais perigoso que uma indústria de coquetéis Molotov.

Rotulado como “cineasta marginal”, era um experimentador, um inquieto. Com pelo menos dois clássicos na obra,”O Bandido da Luz Vermelha”e ‘A Mulher de Todos”, fez com décadas de antecedência, cinema com influencia da cultura trash, que mais tarde explodiria mundialmente com Quentin Tarantino. Como “Os Sertões” de Euclydes da Cunha antecipou o new journalism de Truman Capote, Norman Mailer e Gay Talese. Fale disto a um acadêmico, um funcionário de Departamento de cérebro coletivo, e ele dirá que é uma distorção, uma simplificação.

O Brasil é mesquinho para seus talentos, como observou João Antônio:”Talento no Brasil é uma maldição,ai de quem o tem.” O latão vale mais que o ouro entre imbecis.

Fixações em Orson Welles, nos quadrinhos, nas composições de Noel Rosa, a paixão por João Gilberto e Jimi Hendrix aparentemente com a mesma intensidade (compare isto ao reverencialismo dos neo sambistas da Lapa satirizados por Lobão e verão como Sganzerla é mais jovem que eles, já escleróticos) transmutadas em filmes e roteiros que garantem ser tão divertidos quanto os filmes realizados. Dizer “Gênio!” é clichê que evito. Qualquer imbecil emprega esta palavra, e hoje em dia referindo-se a imbecis.

Mais recomendável é assistir os filmes do sujeito, ver no YouTube os vídeos “Ocupação Sganzerla”, com depoimentos de colaboradores e amigos, e mesmo os filmes disponíveis. E lamentar a babaquice tão velha dos jovens cineastas e seus filmes bem intencionados.

E neles notar os movimentos elegantes de câmera que negam a “porralouquice” do Diretor, o jogo de luz e sombra de quem lamentava que cineastas jovens nada assistissem de Stroheim e outros realizadores do cinema primordial, os diálogos que denotam um escritor poderoso.

Zé do Caixão era uma de suas admirações, primoroso em “Abismu”, assim como Zé Bonitinho no mesmo filme. Jô Soares em sua certamente melhor interpretação em “A Mulher de Todos”, e não falei de Helena Ignez. Nem falarei. Vejam e sintam o que não sou capaz de descrever.

Minha admiração de adolescente que ainda permanece com o mesmo espanto, Sganzerla é minha vitamina mental, administrada sempre que a mente se mostra preguiçosa e meu animo parece fugidio, arca de tesouros sempre visitada.

Meu consolo do Brasil, luz a alcançar.

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