“Notas” – 24 /10/2013 – Perseguição às biografias,Episódio Saia Justa Barbara Gancia x Paula Lavigne e Marina Silva no “Roda Viva”

Brasil, túmulo da leitura

O avanço dos setores organizados sobre as biografias não-oficiais, ou não-autorizadas é decisiva contribuição à meta do “País sem leitores, País feliz”. Editores de livros- empresários que, investindo em livros no Brasil são de temerário heroísmo- são enfim contemplados com lugar na galeria dos vilões do Novo Brasil. Ousam obter lucro com suas atividades, os pérfidos capitalistas.

Mas resistirão às crescentes restrições (depois desta, outras certamente virão, boladas pelos mesmos grupos de pressão)?

O que preocupa os proibicionistas desta hora são o “direito à privacidade” e gerações de descendentes de biografados e biografáveis, além das compensações financeiras (que contem com dinheiro se honra e sentimentos forem injuriados). Os editores preferirão traduzir biografias estrangeiras, pois pouco provável que surja um sobrinho-tataraneto de Rasputín tentando embargar alguma reedição da “História da Revolução Russa” de Trotsky por considerar que seu parente foi ridicularizado pelo revolucionário ou algum descendente em milésima geração de algum biografado por Plutarco com motivação similar.

O mundo fora do Brasil é menos hostil com biógrafos e publishers. O Brasil será, por mais esta razão, percebido como uma excentricidade, porque  país sem biografias- nada impede que avancem sobre as biografias já lançadas,uma vez que as iniciativas contra os livros de Monteiro Lobato abriram precedente de caça a livros consagrados.

O que se sonha  é um Movimento Editorial Público onde burocratas e líderes de grupos de pressão estabeleçam critérios para publicação de obras,preferencialmente analisadas e liberadas através de pareceres redigidos por Comissões de Cultura. Assim, lançariam obras como “Coleção ‘Lutando contra a Ditadura’- Depoimentos” (na verdade, reedições de memorialistas do período, ricamente encadernadas), ”Governo Popular – Uma História”(autoria coletiva de Professores Doutores em Ciências Sociais) 3 volumes, ”Os Maiores Abaixo Assinados da História do Brasil – Petições e Desagravos” (10 volumes, prefaciados por algum Professor- Doutor –Emérito da USP), ”As Jornadas de Junho- Reminiscências do Movimento Black Bloc Brasil” (em 6 volumes, cada um prefaciado por algum apoiador do movimento, prefaciadores escolhidos entre astros do show business) e mais “Discursos”, ”Conferencias”,” Correspondência Ativa e Passiva” de Estadistas desta fase da História do Brasil. Não faltarão volumes de “Tributos”.

Discos de coletivos universitários de chorinhos ou coletâneas de sambistas “comprometidos com o social” seriam alguns exemplos de empreendimentos musicais do Movimento Editorial Público, que contemplaria também o segmento infantojuvenil , com discos de “Contos Includentes- Divertindo e Construindo Cidadãos” realizados por grupos universitários de teatro, biografias (sim, elas) como “A Infância Maravilhosa de Líderes Populares” e apostilas de “O Pequeno Cidadão Contra O Preconceito Linguístico Elitista e Excludente”, elaboradas pelos Departamentos de Letras das Universidades que já formam quadros para a tarefa. Ministérios e Autarquias seriam os compradores destes produtos, na superação da etapa do “Mercado como árbitro”;  O Estado realizando o sonho de Produtor e Consumidor Cultural, eliminando a mediação do público que, com o gosto deformado pela mídia, rejeita artistas decadentes ou medíocres natos.

Há sempre os derrotistas que vislumbram o Brasil como o túmulo da leitura, com fogueiras incessantemente alimentadas por livros cujas fumaças sejam visíveis mesmo da Lua.

XXX

O debate entre Barbara Gancia e Paula Lavigne presenteou, com dica elucidativa, quais os próximos alvos de cuidados dos “Protetores da Sociedade contra a Informação Criminosa”: em determinado momento, Paula Lavigne aludiu ao  episódio da “Escola Base”(talvez a vergonha maior da história do jornalismo brasileiro).

Que se saiba, tal crime contra a Honra foi veiculado não em uma biografia, mas em jornal. Não afirmo que Paula Lavigne e seu grupo mirem em jornais, mas a citação do episódio como prova de que é necessário controle prévio (não escrevamos ‘Censura”, sejamos eufemísticos) da informação foi criminosamente ignorado por quem tratou do “episódio Saia Justa”.

Para os atentos, nada mais é necessário; para os lerdos, nada adiantará.

XXX

A entrevista de Marina Silva ao “Roda Viva” substituída pelo programa do ano passado com Nuno Ramos na última Segunda-Feira é assunto que ainda anima debatedores de caixas de comentários na internet, que formam coros dos articulistas na simplificação .

Os comentários dividem-se em acusar sabotagem maquiavélica da emissora estatal contra a candidata do PSB e impugnar a tese da sabotagem,atribuindo à pura incompetência dos funcionários (graduados ou não) da TV Brasil, que apresentou nota alegando falha técnica.

Não há qualquer base histórica para a crença popular que aponta má intenção como inimiga inconciliável da ignorância, apenas o simplismo que visualiza nas duas categorias senhoras que brigadas por motivo ainda obscuro, andam sempre em vias paralelas, não se encontrando nem mesmo à noite, furtivamente, ou num susto comum do Acaso. A História, ao contrário, as exibe íntimas colaboradoras, irmãs indistinguíveis e indissociáveis.

Sobretudo no Brasil, em dias que sofremos como contemporâneos.

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2 respostas para “Notas” – 24 /10/2013 – Perseguição às biografias,Episódio Saia Justa Barbara Gancia x Paula Lavigne e Marina Silva no “Roda Viva”

  1. Ricardo Setti disse:

    Caro Pawwlow, gostei de seu comentário sobre a censura a biografias. Ótimo achado dizer que os editores de livros são empresários “de temerário heroísmo”. Pertinentes várias outras observações.
    Vá em frente.
    Abraço do
    SETTI

    • fernandopawlow disse:

      Caro Setti,muito obrigado pela visita.
      E pelo comentário que honra este espaço.
      Os editores,neste país que despreza o saber,são quase mártires no subdesenvolvimento.
      Continuarei neste ritmo,e com este incentivo de um Mestre,já esboço o próximo.
      grande abraço do Pawwlow

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