“Notas” 28 /10/2013 – O programa de Gabeira no “GloboNews”e a perda de Lou Reed

Fernando Gabeira, o Anti- Amaral Netto da Era PT

Enquanto muitos disputam o “Troféu Abjeção Impressa” convertendo-se ao governismo mais desbragado, abandonando qualquer veleidade de compostura e rasgando a incômoda fantasia de “neutralidade”- vingando-se, na catarse,  de jornalistas “derrotistas”, em textos lidos pela militância remunerada, há quem persista no ofício de Jornalista.

No momento em que sites são anunciados por estatais e governos municipais, estaduais, além do Federal para abrigar insultadores (que agem desenvoltamente), poucos se dispõem a criticar o Sistema, exibindo o que subsiste sob toneladas de propagandas do “Brasil Primeiro Mundo por Decreto”. O programa do Fernando Gabeira na Globo News é um destes produtos. Fernando Gabeira é um Jornalista de méritos ainda pouco apreciados, pois eclipsados pela sua biografia e sua figura. Seu “Sinais de vida no Planeta Minas”, por exemplo, é talvez o melhor retrato da violência mineira, da prostração propiciada pela geografia (a passagem do livro na qual observa que a paisagem de quem sobe morros é o chão, é precisa e aguda) e pela tradição do conformismo alimentado pelas traições e represálias. É escritor que utiliza resolutamente “os olhos de ver”; e isto é Jornalismo, o resto sendo mero aluguel de caneta.

Jornalistas hoje no Brasil encontram-se todos na Oposição e esta condição é, segundo Olavo de Carvalho (para variar acertando na barriga da mosca) no Brasil de hoje, análoga à dos dissidentes da União Soviética. São poucos e perseguidos, na própria terra e no exterior. Dois programas desta temporada de programas são pungentes: o que retrata andarilhos das estradas e o que mostra os presídios brasileiros.

O programa dos andarilhos exibe exércitos deles (alguns claramente desajustados) que atravessam a Via Dutra, buscando trabalho e alimentando-se de favor, expostos a toda sorte de perigos. Condenados a vagar no país cujo Governo assegura que todos vão muito bem, oposicionistas sendo traidores que agem por vingança. São andarilhos jovens e velhos sem qualquer esperança que não a estrada e algum possível emprego temporário.

O programa dos presídios confirma o político do PT que declarou preferir a Morte à hospedagem oferecida pelo Estado.   Agora que alguns principais do partido estão na véspera de mudança para algumas destas hotelarias, quem sabe algo é feito nos estabelecimentos que nada fazem senão fabricar feras que serão devolvidas às ruas piores que quando recolhidas? As alas de homossexuais são a lembrança da indecência de manter uma Secretaria de Direitos Humanos em país onde homossexuais têm que ser confinados dentro do confinamento para que não sejam massacrados, e ao mesmo tempo são demonstrativos da coerência administrativa e da mesmíssima Secretaria (e a de Mulheres, falando nisso)- em país que permitiu a prisão de uma adolescente numa jaula com criminosos recentemente.

Os programas de Gabeira são a antítese da “Escola Amaral Netto de Jornalismo”, seguida judiciosamente por redes de TV dóceis ao Governo e nos sites enfeitados com publicidade oficial- neles o “Brasil Sem Pobreza”, o “Brasil Grande” redivivo não entra senão como paródia. São obrigatórios para estudantes de Jornalismo e por qualquer aficionado por material jornalístico. Longa vida ao “Gabeira Globo News”.

XXX

A perda de Lou Reed

E Lou Reed é mais uma baixa no mundo tão precisado de mentes criadoras. Um dos forjadores do imaginário sobre Nova Iorque, talvez não se sentisse mais à vontade neste cenário conformista e politicamente correto, sua NY parecendo um parque temático, ”gentrificada” ao limite da descaracterização, paramentada com anúncios eletrônicos e painéis da Disney para receber (e explorar) turistas majoritariamente conservadores e insensíveis à destruição cultural da cidade à qual contribuiu tanto como Martin Scorsese (e alguns outros) para imprimir nas mentes contemporâneas.

Nunca fez concessões, seus trabalhos exigem público desejoso de literatura e ousadia;  dos dias do “Velvet Underground” aos conceituais sobre a Morte ( “Magic and Loss”) , seu tributo ao amigo Andy Warhol, em parceria com seu companheiro de Velvet Underground, John Cale (“Songs for Drella”) e seu disco sobre Poe (“ The Raven”) até a parceria com o Metallica (“Lulu”). Não fez arte para quem espera o fácil e confortável.

Sua biografia ser mais comentada que seu trabalho o irritava- e a qual criador tal fixação- folclore pessoal- não irrita? Fotos recentes o exibem velho e cansado, talvez pela doença que o matou. Não o imaginava envelhecer, de qualquer maneira. Estes jovens não se imprimem velhos a quem descobre neles a juventude perene, real. Sou um agradecido ao artista que tanto me propiciou em seus discos, e não desejo a velhice e suas limitações a ninguém, sobretudo a quem, repito,  me é credor.

Que continue inflamável na Eternidade, na companhia de Rainer Werner Fassbinder, Jean Genet, Andy Warhol, Tennessee Williams, Truman Capote, Norman Mailer, e outros encantados, num Chelsea Hotel Eterno, Mestre Lou.

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