“Notas”- 02/11/2013 -“Finados no Bonfim- Minha vela a zelar”

“Moço, você sabe onde fica o túmulo da santinha?”
“Não”, respondi com o dedo experimentando cera quente da vela que eu tentava equilibrar.
“A menina que faz milagre, você conhece?”

Muitos procuram túmulos de devoção no Bonfim, o Padre Eustáquio, o de Irmã Benigna e o da menina Marlene. Mas à exceção do de Irmã Benigna, onde estávamos, eu e a senhora com a filha aparentando dez ou onze anos de idade, nunca visitei os outros dois e não fui de ajuda.

Meu primeiro Finados no qual me senti  mais que testemunha da dor dos demais visitantes, meu primeiro Finados depois da morte do meu pai. Acreditava-o destinado a tantos anos mais, que tornariam homenagem a ele impraticável pela minha velhice quando tal ocorresse. Eu com meus setenta e poucos, ele com mais de cem ou quase cem, como seu pai.

Não foi assim- setenta e oito anos incompletos foram o suficiente para que ele cumprisse com o que julgava devido aos seus amigos e companheiros de grupos de ajuda, a velhice tomando-o, traiçoeira, fim de ano passado, eu sentindo seu avanço malicioso sobre meu pai e dizendo à mãe: “O pai não alcançará 2014, abatido demais”, após visitá-lo no início de 2013.

Em Abril, seu enterro em Viçosa, seu local escolhido para os últimos anos e no qual desejava ser enterrado, nos avisos que sempre tomei como pilhéria e que expulsava da minha atenção.

O que passou antes de dormir sedado até  por fim expirar, não descreverei aqui. Não me sinto digno de relatar com rigor o padecimento de quem, em cerca de quarenta dias, perde a perna direita por obra de uma trombose verificada (não por sua culpa) somente mais de dois dias após, e depois por conta das dores e dos medicamentos para tolerar as dores; a razão e a vida. Teria que escrever livro volumoso no qual descrevesse o que é a saúde pública num hospital do interior;  as humilhações impostas aos familiares por médicos e enfermeiros, e este livro, entornando rancor, não me devolveria o pai nem me aliviaria o ódio.

Como escrevi em texto anterior sobre o dia dos Mortos no Bonfim, não tenho qualquer parente ou conhecido próximo sepultado no Bonfim. Vou lá no Dia dos Mortos por solidariedade aos sofredores da data, por avós e tios que aproveito para homenagear com a cerimônia da data, e por apreciar a arte tumular do Bonfim. Meu primeiro Finados no qual zelei por uma vela foi hoje, no cemitério do Bonfim, do qual acabo de chegar.

Comprei duas velas da menininha negra acompanhada do que imagino serem seus irmãos ainda menores, mais para ajudar (ainda que desejasse homenagear também minha avó), pois uma só vela me bastaria para meu batismo cemiterial de Finados.

Escolhi o túmulo de Irmã Benigna como local de concentração ao pai que poucas vezes visitou o Bonfim, e lá depositei  a rosa vermelha comprada no largo em frente ao cemitério, onde feira de flores  (e velas) atende aos visitantes do dia.Comerciantes improvisados, muitos deles. ”A vida continua”, meu pai diria estoico, rindo.

Uma vela se fixou na base de cera derretida. Caiu uma vez apenas, tombada pelo vento, mas fixou-se compenetrada de seu papel votivo.  Sem brincadeiras, aceitou a pedra escolhida para queimar em homenagem à minha avó materna, polonesa que sempre ostentou senso de gravidade de quem chegou ao Brasil sem falar o idioma do país, trazendo com o marido a roupa do corpo e uma menina de quatro anos, minha mãe.

A outra vela me testou a paciência, pois não se fixava em qualquer superfície, rejeitava qualquer pedra, e sua base não fixava a cera que se desprendia, apenas meus dedos se queimavam – “Sem Jeito manda lembranças”, meu pai dizia sobre minhas habilidades manuais, e a vela o confirmava, meus dedos queimados não o desmentiam. Tentei separar a vela da outra que acendi, ela não resistia aos ventos que faziam arder as velas de outros mortos.

Tornei a juntar minhas duas velas, e de novo! a vela não se deixava ficar em pé, prostrando-se na base da outra acendida por mim. O cemitério próximo de fechar (saíra de casa traído pelo Horário de Verão) e a vela rindo do meu desespero, minha homenagem por fazer- sairia com a vela sem honrar o pai? – de meus dedos já sem acusar beijos de cera quente.

Foi quando fui abordado pela senhora que buscava ajuda para localizar o “Túmulo da Menina”.

Não devo ter parecido à mãe e à filha pessoa prestimosa e entendo possível mágoa das duas com o ranzinza que não ergueu os olhos para responder: ”Não, não sei onde fica, nunca ouvi falar desta menina”, enquanto lutava contra a teimosia debochada de uma vela.

Que enfim se fixou ao lado da outra, e me permitiu homenagear o pai, sentindo no rosto o vento como um amigo que auxiliava minhas duas velas a arder na minha vigília. A sentir como nunca sentira o Cemitério do Bonfim, eu menos como turista, o Bonfim mais meu.

Visitei então o velho necrotério e passei por funcionário carregando um gato, indagando a um colega sobre meios de melhor disponibilizar a ração, indiferente a mim que o olhava, o universo de cemitério do Bonfim como eu o aprecio. Eles pertencem aos gatos e aos túmulos, nós somos visita. Os gatos guardiões dos túmulos, gordos e ciosos, como donos.

Alguns visitantes parecem ter saído da vizinhança, muito Bonfim as roupas, o perfume forte, a indiferença que nos faz duvidar que somos percebidos, como espíritos que vislumbramos em sonhos que pressentimos ser viagens astrais e não sonhos. Ou de estarmos em BH.

A ronda por túmulos que são obras de arte  (jazigos de famílias ilustres, de figuras públicas) e os que exibem fotos que lembram as capas de livros de Dalton Trevisan cumpri como  faço quando no Bonfim, e verifiquei não estar só no cálculo da idade dos ocupantes,outros vi fazendo as mesmas contas e também se emocionando com as histórias presumidas.

Voltei para verificar as minhas velas, e elas estavam ardendo, fixas e companheiras, e pude enfim deixar o cemitério, seguro de minha homenagem, meu Finados cumprido.

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