“Notas” – 06/11/2013-A vitória do Democrata para a prefeitura de Nova Iorque e dificuldades para acessar o blog da “Tribuna da Imprensa”

A vitória do democrata De Blasio para a Prefeitura de Nova Iorque confirma o que alguns (inclusive eu próprio) dizem sobre o modelo de administração municipal que tem como objetivo embelezar a cidade para turistas ricos, a chamada “gentrificação”:

“Chega de cidade parque temático onde tenho que escolher entre morar ou comer”.

O editorial do “New York Times” sublinha este recado dos novaiorquinos: ”Queremos mudança, o que Bloomberg fez, ainda que tenha tido pontos positivos, não foi o bastante”.

Não consigo visualizar o surgimento de cenas culturais relevantes numa cidade que expulsa jovens artistas sem dinheiro (os grandes artistas que NY deu ao Sec XX vieram destes contingentes de jovens sonhadores com o suficiente para não morrer de fome e pagar um teto modesto, em sua maioria) e atrai somente deslumbrados com os luminosos de Times Square com dinheiro para gastar com turismo de compras. A cidade que se cristalizou nos últimos vinte anos não é o tipo de cidade que recebeu, por ex, Bob Dylan, ou mais recentemente, Madonna.

O editorial do NY Times aposta na habilidade de um homem inexperiente como administrador, com inúmeros problemas a enfrentar, o maior deles (ou dos mais palpitantes na campanha) sendo o de manter os números da criminalidade dos antecessores, ainda que revendo o que parece ser um excesso de autoridade conferido à polícia.

Os textos do jornal mais influente de NY (e talvez mesmo o do mundo) apostam neste político que vocalizou a angústia dos novaiorquinos pobres que vêm se sentindo intrusos na cidade -parque temático, os textos soando talvez partidários ao extremo (muito democratas), mas hábeis na tradução do que significou esta vitória: o desejo de manter o que teve de competente nas administrações Giuliani e Bloomberg, mas ampliando benefícios aos que consideravam-se barrados no “Baile da reconstrução” da metrópole. Textos bem escritos, com análises que tornam ao leitor não-especializado entender a dimensão histórica desta vitória impressionante  (mais de 70% dos votos) numa cidade que era vendida como modelo de “gentrificação” aceita pela maioria. O trabalho jornalístico do “NYTimes” é competente na explicação do fenômeno, explicando onde o modelo de “cidade reconstruída”falhou.

Recentemente, comentei no blog do Ricardo Setti na edição eletrônica de “Veja” sobre a NY celebrada num vídeo (aliás muito bem editado) e fui ali o único a questionar a “gentrificação”, a descaracterização de pontos da cidade, citando, por ex. o Chelsea Hotel e sua brutal modificação interior. Mencionei um blog, o “ Lost City”, especializado em logradouros e edifícios varridos pelas mudanças, analisando as perdas inestimáveis na arquitetura e mesmo na cultura da cidade que, querendo se livrar da criminalidade exasperadora (como notou um comentarista do blog citado, ”certos traços da Velha Nova Iorque mereceram desaparecer”), permitiu que potencias imobiliárias tomassem a cidade e a reconstruíssem ao feitio dos ricos.

Discuti muito com simpatizantes da “Nova Iorque pós – democrata”ao longo dos anos. Sou um fascinado pela cidade que Norman Mailer, Woody Allen, Paul Simon, Lou Reed e Martin Scorsese (e muito também o Paulo Francis), entre outros, tornaram mapa mental de milhões.

Portanto, o assunto “NY higienizada” sempre me apaixonou, nunca discuti este assunto friamente, pois sempre percebi neste modelo administrativo a voragem das empreiteiras e do mercado imobiliário. Sei o que fizeram com Londres, Paris, NY mais recentemente, e tramam agora contra o Rio de Janeiro, minha outra fixação urbana: a tomada da cidade para erguer no terreno uma cidade de bonecas, para turistas endinheirados, onde pobres simplesmente não conseguem sobreviver – mais um capítulo da investida dos muito ricos contra os muito pobres.

Por isto, minha comemoração particular com o resultado desta batalha eleitoral.

Que cariocas e eleitores de outras cidades brasileiras aprendam com estes eleitores corajosos.

XXX

O blog da “Tribuna da Imprensa” sofre mais um golpe: a dificuldade em acessá-lo, que já dura alguns dias faz com que visitas e comentários diminuam, e Helio Fernandes novamente se retire do blog  em protesto. Ao que parece até mudarem para outro servidor.

Articulistas vinham se afastando pelas ofensas recebidas de comentaristas “anônimos”, sem que tais baixas modificassem, ainda que levemente, a política da direção do blog, de nada vetar, nada “censurar”. É uma escolha que tem saído cara, e parece mesmo o velório do jornal fundado por Carlos Lacerda, prenunciado em meu primeiríssimo post neste blog.

Eu colaborei gratuitamente enquanto pude, sem receber mesmo um simples agradecimento do venerando jornalista, quando ele regressou do longo recesso. Tive diversas discussões com o atual diretor sobre a política de comentários, política essa que causou e causa ainda deserções entre colaboradores antigos ( alguns dos tempos da “Tribuna “ perseguida pela Ditadura) e recentes. Uma escolha estúpida pelos insultadores, pelo mito da “pluralidade”.

O fim lamentável de um jornal histórico.

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