“Notas” 14/06/2014 -“Meu curso de Jornalismo”

Quando exponho meus pontos de vista sobre jornalismo (quase sempre discordando dos interlocutores de ocasião, universitários em sua maioria) e menciono minhas admirações(muitas estranhas aos portadores de diploma em Jornalismo) não raro ouço: “Você estudou Comunicação? Tem diploma na área?”

“Não, apenas leio desde…”

E volto à casa da avó paterna, onde na cozinha lia, iluminado por velas, exemplares da coleção de “Manchete” que, empilhada, ombreava com a geladeira, nos primeiros anos da década de ’80. As reportagens que hoje são qualificadas como sensacionalistas (algum incêndio notório, o episódio de Jim Jones) entrecortadas pelos textos de duas admirações ainda em vigor: Carlos Heitor Cony e David Nasser. Textos que me ensinaram a não respeitar ( isto se aplica sobretudo a mim) textos curtos e admirar autores sem obrigação de concordar com o que eles escrevem, ainda que enfeitiçado pelo texto. As duas páginas de David Nasser me mostraram (eu com meus 8,9 anos) o que eu seria, mesmo  sem remuneração.

Minha etapa seguinte não se deu, ao contrário do que imaginam alguns interlocutores apressados, com “Veja” e sim com a semanal dirigida por Sandro Vaia (sucedendo ao Fernando Mitre), ”Afinal”, que um tio materno assinava. Por ela conheci um dos meus modelos como figura pública e profissional, Tarso de Castro (cuja morte me ensinou, nos meus dezoito anos, que não conheceria pessoalmente minhas fixações), além de equipe de articulistas que contava com Hermano Alves (que lia ignorando sua trajetória política), entre outros. O que me fez apaixonar por esta revista, porém, foram as reportagens: a FEBEM feminina, os menores infratores de São Paulo, os cocainômanos que se injetavam, determinada matéria sobre revista nos Estados Unidos que anunciava assassinos, entre tantas matérias que ainda hoje impressionariam, além do cartunista Negreiros.

Depois, a “IstoÉ/Senhor” de Mino Carta – revista que contava, além de artigos do Diretor e de Raymundo Faoro, com jornalistas como José Carlos Bardawil e Franklin de Oliveira (uma instituição da revista “O Cruzeiro”) e Millôr Fernandes. Na mesma ocasião, comecei a prestar atenção em “Veja” e no seu expediente, o que me deu condições de notar as diferenças da revista entre um Diretor de Redação e outro, entre José Roberto Guzzo e seu sucessor Mario Sergio Conti. Outro nome que notava no expediente tornou-se meu ídolo: Élio Gaspari.

Quantas tardes na Biblioteca da Praça da Liberdade lendo as coleções de “Veja” e mesmo alguns exemplares da “Manchete” sob Helio Fernandes (que sigo na “Tribuna da Imprensa” desde meus 18,19 anos) não seriam substituídas por aulas em faculdades, pois, pelo que noto em estudantes de Comunicação Social, as teorias mal cozidas são empurradas nas mentes virgens destas leituras que deveriam preceder teorias que explicam o que alunos desconhecem, e muitas vezes professores também.

Coleções do “Pasquim”, textos de Paulo Francis para a publicação me tornaram um “pasquinista” tardio – na minha adolescência o jornal definhava, apenas com Jaguar dos seus membros fundadores. Não se pode ter tudo,ser contemporâneo dos ídolos em atividade, ou colaboradores colhidos entre os aficionados.  A plateia é, para quem se julga talentoso, um porão- cárcere. O “Pasquim “ me doeu como nostalgia, me consolidou como membro imaginativo e temporão de uma turma ainda jovem e iconoclasta.

O que li e leio me faz um observador rigoroso, quando critico “Veja”, faço-o por outros motivos que meus contemporâneos: percebo a publicação oca , sustentada apenas por valores da fase clássica que agora fixam-se na edição eletrônica na maior parte do tempo: Augusto Nunes e Ricardo Setti. Os jornais valem a pena hoje? Para quem, como eu, que acompanhou o “Jornal do Brasil” ainda com a “Coluna do Castelo” e a “Folha de São Paulo” ainda influente, que leu “O Estado de São Paulo”( e o “Jornal da Tarde”) conhecendo seu peso e tradição e hoje assiste Fernão Lara Mesquita (cujo blog “O Vespeiro” é leitura obrigatória aos que exigem crítica com qualidade e firmeza de posição) publicar textos na “Folha”enquanto critica os rumo do jornal da família (“Estadão”); pouco valem. Inidentificáveis, feitos sob temor de polêmica, são substituíveis pelos portais eletrônicos de notícias.

São dores de um apreciador de jornais e revistas, uma espécie tão possível de ser categorizada como “pedante” quanto um conhecedor de vinhos, ou membro de júri de concursos de cães. Vejo-me como um colecionador de relíquias sem valor reconhecido, o que me faz, aos olhos da maioria (mesmo aos que tem diploma de Jornalista e portanto, licença pra trabalhar na profissão, o que não tenho), um coletor de papéis velhos.

E esta é minha credencial numa discussão sobre Jornalismo, exibida contra gargalhadas gerais.

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