“Notas”-19/06/2014 “Nélida Pinõn em sua trincheira-a Literatura” e “As listas desnecessárias”

Nélida Piñon no último “Roda Viva” confirma, por suas afirmações e atitude no programa, a resposta de Norman Mailer aos que cobravam participação dos intelectuais nos protestos contra a Guerra do Vietnam (protestos aos quais Mailer aderiu), algo como: ”O intelectual protesta dando o melhor de si na sua arte”. Sem concessões ou paternalismo.

Augusto Nunes perguntou sobre “a empresária” que decidiu lançar um Machado de Assis simplificado, um genérico do Mestre, depurado das “palavras difíceis”. A convidada do “Roda” concordou com a qualificação dada ao empreendimento pelo apresentador (Nunes)-“assassinato literário”, e observou que, embora ela própria e mais alguns membros da Academia Brasileira de Letras tivessem se manifestado com alguma veemência, a instituição à qual eles pertenciam não devia se “baratear” e fazer deste um assunto que merecesse um pronunciamento oficial da Casa, uma condenação formal que”é tudo que esta senhora deseja”,  e emendou propondo que o assunto fosse encerrado ali, pois do contrário “esta ‘Roda Viva’ ficaria girando” sobre uma figura que conseguiu autorização do Ministério da Cultura para pleitear patrocinadores,via Lei Rouanet, ao  seu projeto de Machado de Assis para iletrados.  Esta a trincheira dos escritores: a literatura (ainda que soe e mesmo seja um clichê), ela apenas, sem pausas para promover, através de ataques, nulidades, sobretudo nulidades acariciadas por um Ministério da Cultura.Todo o tempo de um escritor, mesmo o de entrevistas, deve ser conduzido ao ofício. O resto deve ser contemplado com o desprezo.

O assunto “Machado de Assis para o público de programas de auditório” rendeu ainda firme resposta de Piñon ao jornalista José  Neumanne Pinto, que propôs um tombamento de bens literários para impedir estes crimes:”O Estado não deve intervir tanto. Daqui a pouco vão tombar nós vivos, nos enterram, nos sepultam”. Quem discorda? Qual instancia aplicaria este tombamento? Certamente o mesmo Ministério da Cultura que autorizou o projeto “Machado de Assis servido no cocho”. Seria dar aos burocratas destes organismos ainda mais Poder.

O programa mostrou uma escritora que se rebela contra a divisão de castas no Brasil pelo que esta tem de mais perverso: a estratificação cultural, perpetuadora da estratificação social. O sujeito ao abrir a boca, sela seu destino de subempregado e cidadão de segunda classe.”Temos escolas frágeis, que não criam no aluno o gosto pela leitura”. Sabemos o que pensam Doutores dos Departamentos de Letras sobre “preconceito lingüístico”, suas doutrinações sobre alunos (e ai de quem divergir- pobre carreira acadêmica abortada) que por seu turno destroem as sementes de emancipação de seus alunos das redes publicas, num efeito em cascata que torna o chão estéril– e a casta acadêmica segura de não precisar temer concorrentes ,ou confrontadores, a médio prazo. À ironia de Marcelino Freire sobre sua condição de primeira “PresidentA” da Academia Brasileira de Letras, ela observou que, embora Evanildo Bechara ( um acadêmico de reconhecido conhecimento de questões de Gramática) reconheça a legitimidade gramatical da flexão de gênero deste vocábulo( Presidente) e o direito da PresidentA exigir este tratamento: ”nunca me ocorreu ser chamada de PresidentA”.

Ouvido de escritor não se engana. Basta fazermos uma busca pelas palavras terminadas em “entA” e pouco acharemos de objetos ou fatos simpáticos representados graficamente por palavras com tal terminação. Encontra-se,ao contrário, muitos exemplos de situações e coias desagradáveis com esta terminação: ”friorentA, avarentA, mulambentA, violentA”. Não é mesmo? Houve tempos nos quais políticos eram dotados desta sensibilidade estética mínima e sabiam escolher palavras por  sua eufonia, além da precisão. Piñon tratou dos oradores de outros tempos: Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Adauto Lucio Cardoso e de um orador dos nossos dias, que, no seu entender, encanta seus ouvintes: Lula. A imortal lembrou a intervenção de Lula sobre o formato do planeta e as dificuldades que dele derivam, dificuldades que, fosse a terra quadrada, seriam minoradas, ou inexistentes.

A separação entre o ético e o estético em política parece ser algo muito próprio deste tempo e lugar (Brasil). O que enfurece no tal projeto”Machado para os sem-dicionário”é a simpatia oficial a uma iniciativa que, não fosse por isto, seria mais uma das inúmeras adaptações de clássicos da literatura para público infanto-juvenil. Mais um destes livros que os pais dão às crianças e estas depois doam ou escondem.Um livro destes ,que cobrirá de vergonha a estante que o ostentar, ser contemplado com lei de incentivo fiscal por um Ministério supostamente criado para cuidar de assuntos pertinentes à Cultura é que causa desolação e forte vontade de desistir deste país.

Mas há os combatentes que acreditam em canalizar os seus reservatórios de memória e seus recursos de tempo em criar obras, e que só se permitem (por considerar digno) falar destas obras, recusando (ainda que com graça e delicadeza) mesmo revelar o que sabe sobre supostos bastidores de querelas entre gigantes da literatura internacional que a escolheram como zeladora deste segredo. Estes, cujos olhos iluminam o estúdio e as almas de quem os assiste tratando de livros, projetos de livros, pormenores deste labor, são os combatentes por excelência deste tempo de bestialidade e predomínio da estupidez. Da trincheira de suas escrivaninhas, escolhem as armas (caneta lápis ou a máquina- sendo esta um computador, ou uma máquina de escrever convencional) e a Literatura declara sua guerra contra o Deserto e o seu nivelamento pelo mais baixo.

XXX

E divulgam as Lista dos inimigos do “progressismo”, o rol dos jornalistas e intelectuais aos quais o Povo ( ou o que os homens da propaganda deste populismo entendem por este vocábulo) deve odiar. Sociólogos que ousam discutir a adoção de cotas por critério racial a jornalistas que supostamente torcem o nariz de nojo às multidões que lotam shoppings, aeroportos, etc. Os inimigos da classe, resumindo. Uma destas listas foi pronunciada por ocasião dos insultos à Chefe de Estado na abertura da Copa do Mundo, por um jornalista esportivo. Dela constavam, salvo engano, quatro nomes.

Outra lista, mais ampliada, por um burocrata de alta hierarquia do PT, no site do Partido. São os nomes que são malhados nos blogs que exibem propagandas de órgãos oficiais e de companhias estatais há alguns anos; não convidaram nem um sócio novo no clube dos reacionários que “criticam o PT porque odeiam os pobres e os negros”.

Reinaldo Azevedo que encabeçava as duas listas protestou com energia, e nunca se omitiu quanto ao ódio entre classes e raças estimulado com dinheiro publico, diga-se. Anunciou que processará o dirigente petista (ao jornalista esportivo, parece considerar que as lambadas que lhe deu em série de artigos bastam). Augusto Nunes,também citado nas duas listas, respondeu a um comentarista que também processará o burocrata partidário. Dos outros nomes da lista, não sei se tomarão alguma providencia.

A revista que publica os dois colunistas que anunciaram processo, até onde sei nada anunciou, e seguirá coerente com sua prática que denota a política do “O que vem de baixo não me atinge”. Nestes anos todos, nenhuma capa sobre patrocínios estatais aos blogs que atacam Ministros do STF,que abrigam comentários insultuosos e caluniadores; e que publica trechos inteiros de matérias sem licença. ” ’Veja ‘ não se rebaixa cobrando direitos desta ralé”é o que parecem pensar. Contam com uma desmoralização deste regime, que é segura, mas que pode demorar e deixar para sucessores apenas edificações arruinadas em definitivo.

Já as listas… causam dó. Os dois senhores atrasaram-se aos postos de Inquisidores- os nomes ali são malhados por esta seção de propaganda do regime já ha alguns anos. O que as listas deixam claro é que defensores deste regime (tanto o cronista esportivo quanto o Vice-Secretário do Partido- este seu posto, parece) não conhecem os inimigos mais manjados da Ordem à qual servem e que não leem as publicações subsidiadas e são, portanto, porta-vozes prontos a serem substituídos por gente mais vigilante …

E que estas- as publicações que aplaudem a agressão a um Presidente de um dos três Poderes, entre outros feitos editoriais- dirigem-se “apenas”à massa que doutrinam.

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