“Notas”-27/06/2014-“Desertificando centros culturais ” e “Um cacoete estúpido”

Quem não teve desejo em certa estação da vida de romper os laços com a província onde se adivinha uma vida sem realizações e render-se ao Destino numa metrópole onde bares não fecham e prostitutas e pensadores são comensais de artistas também fugitivos das respectivas províncias? Não é assim que se sonhou Paris no Séc XIX e Londres e Nova Iorque no Séc XX? Ou o Rio de Janeiro para os provincianos do Brasil desde o Séc XIX até nossos dias?

Enfrentar a rudeza de hospedarias baratas em um começo de vida que promete correr – pois no convívio de realizadores, de gente que também decidiu seguir a determinação de não envelhecer frustrado em sua província, amaldiçoando os que partiram.

Madonna recentemente relatou o estupro que, acompanhado por furtos em sua residência, foram seu “ Welcome to NY”. Estes infortúnios não a demoveram. E o resto é sabido…

Patti Smith no “Chelsea Hotel” (e nos outros hotéis da região) em companhia de escritores, artistas plásticos, músicos e toda a fauna novaiorquina dos anos ’70 construiu ( junto aos seus colegas) muito do fascínio em uma cidade tida por condenada economicamente. Não teria topado com alguma ratazana na escada de incêndio? Ou adormecido com sirenes e berros na noite? Hoje deplora a destruição do “Chelsea” e a caretice de uma cidade puritana (onde mesmo fumar é uma transgressão) e custo de vida que tornaria inviável a sua jornada e a de seus colegas nos dias de NY para turistas endinheirados e ignorantes da desertificação cultural da cidade na qual percebem somente os luminosos da Times Square.

Haveria o cinema de Scorsese, a arte de Andy Warhol e Lou Reed, a migração de talentos de todas as áreas nos dias de “Por favor, se quiser fumar, procure a área permitida”, e de aluguéis extorsivos? Como sonhar a boemia em bares “charmosos” (como os descrevem os cronistas da “NY onde se pode andar”) do Chelsea atual, onde cavalheiros desacompanhados e bem vestidos pontificam sobre tendências do segmento da moda ou tramam novos empreendimentos imobiliários- ou estes seriam frequentados  por algum jovem de moedas contadas para a noite com os bolsos repletos de anotações?

O puritanismo dos novos ricos, a fúria do movimento imobiliário e a vida intelectual de matriz universitária -onde o politicamente correto com suas restrições é a religião -conseguiram, nesta aliança improvável e obra de vários equívocos, tornar NY uma cidade que não mais atrai, como atraiu em décadas anteriores, quem alimenta sonhos de grandeza artística.

Um musical como “Fame” que imortalizou a geração de Madonna (ela , ao que parece, foi recusada em uma audição para o musical), que suportou estoicamente sacrifícios para estar onde as pessoas interessantes estavam e faziam coisas, segue como um legado do que foi um sonho muito veloz. Os coveiros deste momento do “Corra atrás dos sonhos”já deveriam espreitar.Quem vivendo a eletricidade da boemia artística pode perceber os abutres? Esta Paris do Séc XX dificilmente viverá seus dias dos anos ’50,60,70 e ’80.

Mesmo Paris- ela própria- alguém imagina Jean Genet , ou Sartre, ou Edith Piaf nos bares de hoje? Em cafés que vivem do nome que obtiveram em dias de freguesia não exclusivamente de turistas deslumbrados torrando euros (somente para exibir a foto no café famoso (“Sartre sentava nesta cadeira”) numa modalidade de assalto à qual se submetem cabeças de vento?

Rio de Janeiro, quem não sonhou a metrópole cultural dos dias do Império aos dias atuais? Afinal, lá moraram e moram artistas e escritores que ergueram muito do imaginário nacional, muitos dos quais vindos de províncias, morando sem conforto em seus inícios de vida na capital cultural que em décadas anteriores acumulava esta condição com o posto de capital política- suportando a fome, hospedarias sórdidas e o calor que castiga desacostumados.

Hoje, com a cidade sendo “redesenhada” por arquitetos e urbanistas que decidiram (sob bênçãos do movimento imobiliário) nos últimos anos “revitalizar” os bairros pobres da região central e “descoberta” por endinheirados (muitos dos quais estrangeiros) que compram barracos em favelas da Zona Sul (tema de reportagem recente de Fernando Gabeira em seu programa na “GloboNews”), quem se anima a imitar pobres intelectuais que decidiram viver suas fantasias pagando qualquer preço?

Como reviver boemia carioca com a moral universitária agindo como fiscal de costumes? Como não reconhecer que o que mais se aproxima do espírito do antigo carnaval de rua é o baile funk, pois ainda não conspurcado por intelectualoides que destroem qualquer manifestação de vida popular em que se intrometem?

E assim, o deserto avança e os intelectuais pobres perdem suas possibilidades de exílio.

XXX

Um cacoete irritante da imprensa de Belo Horizonte: sempre que se referem à cidade, dizem e escrevem “ A capital”.

“Transito problemático na capital”, “Violencia aumenta na capital”, “forte chuva na capital”, “A capital sediará expressivos eventos” .

Sabem os que acompanham os noticiários de RJ e SP de onde os jornalistas de BH tiram a fórmula.Como Rio de Janeiro e São Paulo tem capital homônima ao estado ,há a necessidade de se utilizar a distinção- “a capital”.

Aqui isto corre por habito cristalizado, por provincianismo enraizado mesmo.Tradição já.

Ah, imprensa de BH.Lembro de edição do “Estado de Minas” que trazia na primeira pagina chamada de reportagem sobre Plácido Faria, na ocasião denunciando grampos de Antônio Carlos Magalhães. A chamada identificava-o como “Pacífico Faria”.

Depois é deplorar quem prefere ler jornais do “eixo RJ –SP”, outro cacoete que vem de habito e cristalizou-se como tradição.

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