“Notas”28/06/2014-“Biografias condensadas”

Quando lê-se artigos de defensores do Governo, lamentando “os derrotistas” e “porta-vozes do atraso”, há, com freqüência, ao lado do texto, foto e biografia em duas ou três linhas do autor, apresentando ao leitor o “Fulano, Presidente do Sindicato X”, ou “Beltrano, militante do Partido há tantos anos”, ou ainda “Sicrano, ex isto e aquilo na imprensa jornalística Y”.

Esboços ligeiros de biografia que nada dizem do biografado e de sua paixão política. As razões de militância e a indignação contra críticas que consideram injustas e sem fundamento ao Governo que defendem, não se encontram nestes currículos de funções que ocuparam antes de “funcionarem” como advogados do Governo. Mas ao observador, capítulos inteiros de biografias são condensados em feições que tornam o trabalho de possíveis candidatos a Plutarco destes vultos algo menos desesperador por falta de elementos.

Muitos exibem o sorriso satisfeito do rato após sua incursão à dispensa- das estatais, autarquias, Universidades, empresas de comunicação dóceis. Muitos exibem uma expressão que pode se confundir com um sorriso, ainda que impreciso e duvidoso.Um sorriso que diz: “Estou feliz servindo ao ocupante do Trono, e se meus colegas de ofício consideram-me indigno, bem, isto é problema deles”. Barbas e cavanhaques aparados emolduram as feições de “radical em serviço”. Em seus textos, expressões como “E a Copa está sendo um sucesso- “Pessimistas 0 x Povo 10”, ou “Não adianta, derrotistas, o desemprego está caindo”.

As rugas de expressão revelam anos de sorrisos forçados ao “Dr. A”, da Chefia do Departamento de alguma faculdade de “Humanas”, ou ao “Dr.B”, Diretor de alguma imprensa de comunicação à qual agora desejam extinguir. São marcas da escola interpretativa “Seus sapatos já servem como espelho ou devo lamber um pouco mais?”, agora postas no mister de promover feitos governamentais obscurecidos pela “burguesia reacionária”.

Poucos gordos há, na verdade. Seria clichê apresentar suas cabeças como as de suínos ou buldogues amestrados, mas de clichês e lugares-comuns também  compõe-se o quadro da realidade mais perceptível.  Seus donos têm biografia semelhante ou idêntica às dos biografados com feitio de roedor, mas a arrogância é, por razões que cabe ainda investigar, mais abusada.

Em comum, o timbre. Anos bajulando, opinando a opinião corrente como coral de papagaios , ou ajudando a isolar os que dissentem, modulam as vozes desprovidas de masculinidade. Nenhum som grave ou metálico é emitido destas bocas após anos de extinção, a golpes diários, de qualquer vestígio de personalidade. Ambientes universitários (a politicagem dos departamentos ), ou ante salas de políticos de terceira linha do partido governante operam esta padronização das falas. “Mais aflautada a voz, maiores as chances de ascensão social”, reza a fórmula aparentemente recitada pelos pais ao carreirista ainda bebê.

Não é raro ler nas biografias oferecidas ao publico menções aos atuais empregos em redes estatais de TV, ou militância em “coletivos”, pois nestes ambientes a exigência destes traços fisionômicos e registros vocais parece mais rigorosa que numa fábrica, ou banco de investimentos. São tribos onde caciques exigem a castração espiritual absoluta.

Alguns buscam se vingar de antigos empregadores tentando expressões  (“PIG-Partido da Imprensa Golpista”continua solitária exceção) que não pegam, ainda que alguns poucos de seus leitores tentem emplacá-las em áreas de comentários de sites e blogs. E este é um dado de grande colaboração ao biógrafo no capítulo profissional destes personagens- o que trata de competência, ou inventividade, que consagra uma carreira.

Os biógrafos destes combatentes do oficialismo poderão achar a tarefa enfadonha pela uniformidade, ou grotesca além da faculdade de fazer gargalhar. O fígado e a boca terão, para  cada natureza de biógrafo,  a compensação correspondente.

Pouco provável é que estas biografias apresentem como hipótese futura uma volta dos perfilados aos postos que ocupavam anteriormente, seja na iniciativa privada (sobretudo na Imprensa “burguesa”, não parece crível ainda haver vagas para eles, mesmo porque quais empresas comportariam tantos arrependidos quando o navio for atingido pelo iceberg?), seja na maquina estatal quando esta estourar seus pulmões em definitivo.

O que possíveis biografias não conseguirão é despertar nos biógrafos e leitores qualquer sombra de compaixão a estas criaturas .

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