“Notas” 08/07/2014 – “O Mineiraço” e outras notas

E o dia do confronto com a mediocridade chegou, fazendo lembrar Antonio Carlos Magalhães prevendo a derrota de Paulo Maluf para Tancredo Neves no Colégio Eleitoral:

”Ele tem vencido de amadores, agora vai enfrentar um profissional- e vai perder”.

Enquanto adversários eram igualmente medíocres, a sorte (conceito vago, mas atribuiu-se à “estrela do Felipão”prodígios na instancia cósmica que preside os jogos) e a vantagem psicológica (discutível, embora com o apoio da torcida) da Seleção Brasileira eram fatores que auxiliavam, embora fosse visível aos analistas que esta fase de imprecisão técnica chegaria ao fim à medida que o torneio avançasse. Mas esperar por uma humilhação destas, nem o pessimista mais militante.

Lembro da Copa de 1994, a saudação entre amigos ”Hoje o Brasil volta. A surra será de quanto?” era meio de relaxar a tensão e o “Merda” desejado ao companheiro de cena por atores na coxia; nosso amuleto verbal. E chegamos assim ao sofrimento de torcer em uma final de pênaltis, lembram? Minha primeira festa de vitória pela Seleção, pois nascido em ’73.

Mas pergunto a quem me honra com a leitura: quantas Copas assistimos – engolindo por uma espécie de patriotismo desviado de função – treinadores presunçosos, exercitando o Poder através de vetos a jogadores que a maioria dos que acompanham futebol julga dignos de figurar na escalação e escolha de outros por critérios subjetivos como “lealdade” e “coerência”, concedendo entrevistas em tom senhorial, mesmo após vitórias apertadas sobre seleções nitidamente inferiores? Ou explicações supersticiosas sobre idiossincrasias destes monarcas de agasalho, ungidos por uma imprensa primária e pouco dada ao realismo? Quantas Copas são para jogadores da Seleção Brasileira temporada de anúncios publicitários encadeados com maratonas de pagodes e comemorações após jogos (ou em véspera de jogos decisivos), enquanto adversários recolhem-se às concentrações estudando vídeos de jogos, exercitando a humildade dos que conhecem a hora de comemorar e não a adiantam a prestações ?

Atletas tratados como superstars (economizando autógrafos e sorrisos) por envergar uma camisa que coleciona vitórias esparsas temos visto com freqüência.

Agora é procurar “o culpado providencial” e encolher a cabeça ante as comemorações que argentinos já devem estar (nestes minutos) preparando em seus boletins (devem estar elaborando seus deboches com dedicação afetuosa). Culpar pessimistas também é esperado: ”Agora estão felizes? Não era o que vocês desejavam?” Castigando Nelson Rodrigues com citações tortas nos sites patrocinados pelo Governo, claro.

O Mineirão, por sua vez, não poderá se queixar de não ser palco de eventos históricos, esta goleada de certa forma superou o “Maracanaço” de 1950, pois os gastos e expectativas foram maiores,  sem falar dos gols que sucediam-se em velocidade que causava o efeito de assistirmos o mesmo gol em reprise (eu pelo menos tive esta dúvida em uma sequencia de gols em um intervalo de tempo traumaticamente reduzido – “Opa, foi outro”. Carreiras devem estar sendo repensadas, sobretudo aos que anunciaram Copa previamente ganha, pois “o futebol é podre”. Estes profetas aposentarão ( ou serão aposentados por seus patrões) o turbante e a bola de cristal comprados em bazar de antiguidades?

Bem, há a Olimpíada ainda. E outras tantas Copas. E podemos esperar mudanças na cúpula do futebol e na imprensa esportiva, surras desta extensão costumam deixar lições valiosas; para não deixar o clichê fugir, ”nada será como antes”. Sobretudo, voltar aos problemas e às soluções que exigirão muito de cada brasileiro, pois 2014 começa agora.

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Reportagens sobre “revitalização” de alguma área de Nova Iorque mencionam novos bares, ou algum café “charmoso” ou a empreendimento imobiliário da região ”descoberta” por “intelectuais que fogem dos altos aluguéis de Manhattan”. Nenhuma nova escola de artes dramáticas ou biblioteca, ou associação para jovens músicos, ou um novo jornal que mostre que a guerra contra o papel impresso ainda continua. NY está parecida com uma BH (“a capital dos bares”), pelo que estas reportagens mostram. Muito barzinho com gente tagarelando sobre contratos ou divagando sobre vida sexual dos famosos- sob as bênçãos da intelectualidade universitária que impôs sua agenda à cidade subjugada por empreiteiros. Sonhar com NY por seu passado de algumas décadas é como suspirar pela Florença dos dias de Maquiavel ou a Paris do Sec XIX. Ou a Londres idem.

O filme de Woody Allen, “Midnight in Paris”, fisga por esta nostalgia inevitável em dias de aridez, ainda que o personagem perceba que esticamos o pescoço para trás, no sentido das “épocas de ouro”, ainda que possamos viver em um tempo interessante. Mas suspeito que Woody Allen saiba que sofremos uma nostalgia justificada, sobretudo por sua Nova Iorque.

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Eça de Queiroz ( por seu personagem Fradique Mendes) em carta a Eduardo Prado deplorava a escolha que O Brasil fez após sua independência de Portugal: cobrir a exuberância tropical com o “tapete” europeu, a deserção da tarefa de desbravar outros paradigmas ,o gosto pela afetação e o culto das etiquetas.

“O constitucionalismo, o artigo de fundo”, importados na determinação de viver a História já vivida por outros povos. Parece referir-se ao Brasil de hoje, que importou o “politicamente correto” e a “agenda da reparação”, ainda que estas duas aquisições não arranhem o mínimo da estrutura de classes entre nós- antes a cristalizando.

Não é para isto, afinal, que o dinheiro rega estas flores de plástico- e doutores em “questões de raça e gênero” sejam tão contemplados com colocações no sistema universitário e mesmo no Poder no sistema atual?

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Que escreveria Nelson Rodrigues sobre os jogadores desconjuntados e paralisados pela goleada? Os que citam Nelson Rodrigues sem o ler podem imaginar? Uma sugestão para esse exercício imaginativo: reler (ou ler) suas crônicas que tratam das derrotas e da prostração da vontade em momentos de decisão.Não precisam tratar de Seleção brasileira, seus escritos sobre jogos entre brasileiros são muito válidos.

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