“Notas” 12/07/2014 “Sobre memorialistas e outros”

O gênero memorialístico, exuberante em outros países, ainda é pouco explorado, no Brasil que já possui seu montante de pessoas interessantes que poderiam legar suas recordações de jornada aos compatriotas.

Memórias de homens que viveram na esfera do Poder – as porções de espaço onde decisões são tomadas e o clima mental é preparado para recebê-las- constituem exceções, e não por falta de demanda. Há quem busque informação na internet e livrarias, sobre personagens e fatos explicados sob a lupa da intimidade, dos pormenores sobre eventos e personalidades que escapam ao registro ligeiro de manchetes de jornal.
Os livros de memórias e biografias já ocupam um filão de mercado, mas quantos livros de memórias são lançados de autoria de jornalistas que ocuparam posições de destaque e que privaram de políticos do nível mais alto e donos de órgãos de comunicação entre nós? Livros que ajudariam a educar o publico leitor sobre o que convencionou-se chamar “opinião publica” e suas conseqüências na Política, mesmo após boas acolhidas de títulos como “Chatô” de Fernando Morais e “Notícias do Planalto” de Mario Sergio Conti, são ainda obras esparsas e isoladas entre muitos livros de história que pouco trazem de ineditismo (antes servindo como obras- sem dúvida, úteis- de popularização do gênero historiográfico) e toneladas de papel gastos com inutilidades de auto-ajuda empresarial.

Livros sobre jornalismo, de nível, quantos temos como itens obrigatórios? Além dos citados, “A Regra do Jogo” do Cláudio Abramo, “Minha Razão de Viver” (memórias do Samuel Wainer editadas por Augusto Nunes) e uma ou outra reedição de coletâneas (imprescindíveis) de artigos jornalísticos- mesmo este subgênero (coletânea de artigos) sendo algo também escasso. Algumas gemas desta área de interesse encontram-se esgotadas, registre-se.

Escrevi, por diversas vezes , sobre o crime de não possuirmos um livro-depoimento (semelhante ao de Carlos Lacerda, outro item obrigatório) do jornalista mais antigo em atividade no Brasil (e certamente no Mundo), Helio Fernandes. Editoras assediariam o veterano jornalista com propostas irrecusáveis,  fosse ele um jornalista europeu ou norte-americano, que não estariam indiferentes ao valor de um livro com tal personagem. Aqui…entrevistas onde repetem perguntas e respostas idênticas são oferecidas ao leitor.

Há, claro, amostras do que poderiam render certas biografias. O próprio Helio Fernandes foi tema de um especial (com horas de gravação e que já foi comentado aqui no blog) do “Observatório da Imprensa”, conduzido por Ancelmo Gois e Alberto Dines, cujo compacto já está disponível no site do programa e no “Youtube”.

Ou o texto-depoimento de Sandro Vaia à revista “piauí”( ainda sob Conti), ”Detrás das Dunas do ‘Estadão’ “, onde Vaia narra sua experiência como Diretor de Redação d’”O Estado de S.Paulo” (além de pinceladas sobre suas passagens pelo “Jornal da Tarde” e outras passagens biográficas). Um texto que faz salivar interessados sobre um dos mais importantes jornais da história brasileira (focalizado em um dos mais turbulentos períodos da sua história), escrito com a verve irônica do autor, que apresenta o jornal dos Mesquita como poucas vezes um órgão foi mostrado aos não-íntimos do ofício. O leitor sente-se colocado ao lado de Ruy Mesquita em seu gabinete e nos corredores do jornal – instituição; e percebe que um livro esconde-se ali.

Paralelas às obras que estão por se escrever, há memórias derramadas, em textos redigidos com a caneta da autopiedade, onde adjetivos substituem observações, de coadjuvantes do mundo jornalístico, figuras que poderiam caber no qualificativo certeiro de Lula sobre certo burocrata norte-americano: ”Sub do sub do sub”. São os memorialistas mais produtivos no momento, atendendo à demanda da internet sobre informações sobre grandes órgãos e profissionais relevantes. Quem pode culpar os leitores deste material, quando é por aí que a curiosidade sobre os grandes pode ser atendida- e os grandes não escrevem suas memórias, ainda que lançando-as em capítulos em blogs? Os jornalistas menores preenchem a cratera, apenas. E o nivelamento por baixo ganha mais esta.

Claro que o referencial desaparecerá junto com os grandes, engolidos um dia pela morte, mas quem parece perder o sono (sobretudo nas faculdades de jornalismo, onde precisamente deveria haver o interesse por este acervo de memórias) com mais este desperdício?

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Como fingir, ainda que só em casa, interesse pela disputa do terceiro lugar em Copa do Mundo? Ora, esta disputa e a disputa por um possível quadragésimo terceiro lugar têm o mesmo peso, pois quem lembra com reverencia do vice?

O que poderia se salvar de um fôlego após a derrota estupefaciente de 7×1 foi queimado pelos jogadores nesta partida contra a Holanda, devemos reconhecer. Dá a sensação de que com mais um pouco de esforço, um pouco menos de comemorações picadas, quem sabe…

Como escreveu Claudio Abramo em artigo no qual analisava as causas do fracasso do Plano Cruzado (constante do “A Regra do Jogo”):

”É…não foi desta vez,  fica para a próxima”.

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E mais uma manifestação popular no centro de BH causando congestionamento e sorrisos zombeteiros da população que ouve dos manifestantes: “Você aí parado, também é explorado”, grito que restou do estoque de slogans das manifestações da “Quebra da Construção Civil” de fim da década de ’70, os mesmos slogans gritado por massa trabalhada pelo mesmo partido que inspirou a jornada setentista: O PT.

Como as temporadas anuais de “Carmina Burana”no Palácio das Artes, estes slogans são parte da atmosfera rotineira de BH, capital da rotina. E as manifestações, de tão constantes, estão seguindo o mesmo destino de traço cultural que não surpreende, apenas causa doses cavalares de enfado. Todos perguntam:

“Este não era o prefeito que o PT mandou votar, quando elegeu-se a primeira vez? Onde os insatisfeitos de hoje naquele momento?”
O chão de terra ainda é extenso à frente em Minas Gerais e em sua desolada capital.

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