“Notas”17/07/2014-“Propaganda do PSDB, remake de novela, Ruy Castro e Eça de Queiroz sobre o Brasil

O imediato pós Copa traz o PSDB à campanha através de filme publicitário no qual familiares de Aécio Neves prestam depoimentos sobre sua pessoa: “alegre”, “humilde”, “é gostoso estar perto dele”, são alguns dos atributos do candidato, segundo os seus mais próximos. Mãe, tio materno, primos, irmã e filha (evocando recordações do pai levando–a ao Mineirão) informando os eleitores o que ganharão tendo pessoa tão adorável como Presidente.

Este modelo de publicidade política é relíquia dos dias românticos da luta por votos, quando candidatos apresentavam-se como pretendentes às massas, como se apresentassem à família da noiva. Modelo que tem parentesco com táticas como beijar bebês e comer pastéis de pé com a barriga esfregando o balcão. Quantas eleições foram ganhas seguindo este manual de propaganda, mesmo em dias ingênuos ?

O que tucanos não parecem perceber é a dimensão do tempo, que desperdiçado em lutas internas, deverá ser recuperado com poucos minutos à disposição no programa eleitoral, demandando, portanto, esforço concentrado. As propostas deverão ser claras e apresentadas da forma mais condensada possível, com os holofotes posicionados sobre pontos de insatisfação popular, com potência máxima. Operação com ênfase em depoimentos de populares queixando-se da falta de segurança, do poder de compra diminuído, das filas em hospitais cujos leitos são raros,  etc, etc.

Mas como oposicionistas perceberiam o perigo quando a porção da imprensa que se inclina a eles dedica aos temas coberturas desprovidas de dramaticidade, e a revista “Veja”, o veículo mais abertamente simpático ao PSDB, dedica capas às modalidades de dietas, e nunca ao “Foro de São Paulo”ou aos avanços concretos (e de efeitos duradouros) da agenda governista que vem minando a meritocracia, causando mal-estar aos trabalhadores com a distorção de conceitos da social-democracia, como bolsas concedidas sem qualquer contrapartida exigida – e reportagens desta natureza, se bem apuradas e redigidas, tendo destaque (capa, numero de paginas não inferior a dez, etc) seriam ferramentas eficazes no desmonte do discurso oficial que dita que apenas “elitistas brancos de olhos azuis”, ou “coxinhas”, desaprovam bolsas e cotas aplicadas sem consulta à população.

Sem exibir os motivos -com exemplos e rostos- da rejeição do Governo nas pesquisas, as vaias e insultos dirigidos à Presidente cairão no ralo do tempo que engole ondas de revolta (como engoliu as manifestações de rua) e promessas sobre novos programas e bolsas tornarão a persuadir, sobretudo os que temem perder o pouco que é bem mais do que nada.

Exibir o “Aécio Boa Praça”, apostando na legenda do avô ao eleitorado que em grande numero pouco sabe de Tancredo Neves (pois nascido depois de sua morte), bem…pode ser…

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Remake de “O Rebu” (novela de Bráulio Pedroso dos anos ’70), será atração das 23:00 na Globo. Há algum tempo, remake de “O Astro” foi atração da mesma faixa de horário, com algum sucesso e o filão foi reaberto na Globo, que já levou ao ar outras versões de novelas de sucesso, como “Selva de Pedra” e mesmo “Roque Santeiro” (um dos maiores êxitos da história da TV brasileira) era uma versão da novela censurada, também da década de ’70. Não esquecendo “Ti TiTi”, remake exibido no horário do original (19hs) e igualmente bem sucedida. Ou “Guerra dos Sexos”, ou “Paraíso” idem, idem. Ou “Pecado Capital”(originalmente exibida às 21hs, salvo engano, tendo sua versão exibido na faixa das 18hs).

Cláudio Abramo no “A Regra do Jogo” declarava ser este gênero (telenovela) a nossa contribuição à dramaturgia, pois cinema, segundo ele, era algo que deveríamos, resignadamente, admitir estar acima de nossa capacidade (“Não damos pra coisa”), enquanto novela, era elemento de nivelamento cultural e linguístico.

Ainda que discutindo a suposta incapacidade de nossos cineastas ou o tipo de nivelamento que as novelas promoveram, Abramo acertou na mosca quando percebeu nesse produto uma marca nitidamente brasileira, ou como reza o clichê verdadeiro, nosso produto cultural de exportação melhor sucedido. Há muito de colonização no brasileiro que acha ser obrigação demonstrar desdém por novelas, mas segue devotamente séries de zumbis ou de investigação estrangeiras tão ou mais risíveis que as tramas das telenovelas brasileiras.

Mas há também um cansaço do publico por novelas mal amarradas de autores ainda por se firmar, ou de autores consagrados que vêm demonstrando cansaço- e aí nada como requentar tramas e personagens que tiveram consagração, sobretudo nas décadas de ’70 e ’80 a exemplo do cinema que não hesita em realizar remakes e mais remakes, sempre contando com publico que prefere uma boa história “velha” que uma história”nova” coalhada de vícios de linguagem e velhice dramatúrgica expressa em fórmulas e diálogos frouxos.

Sempre haverá quem lamente o espaço ocupado por estes standards, alegando que eles são obstáculos às novas linguagens e aos talentos que surgem esperando por uma chance e todo o resto das lamúrias dos que preferem esquecer da força que talentos autênticos têm, e que naturalmente encontrarão seu próprio escoadouro, não necessitando de paternalismos da indústria. Esquecem também que alguns dos produtos originais não tiveram à época a apreciação merecida, ou versão que fizesse justiça ao texto.

“O Dono do Mundo” foi novela que, por ser amarga- personagens cínicos e locação no subúrbio dos surfistas de trem e das beldades que prostituíam-se na Zona Sul – em um Brasil com restos de ingenuidade (início da década de ’90), foi mal recebida pelo público, ainda que com interpretações memoráveis. Jamais foi sequer reprisada no “Vale a Pena Ver de Novo”. Um remake dela não seria má pedida, pois melhor que as inéditas das 21hs dos últimos anos.

Estas reciclagens de material são preferíveis às mediocridades ou à morte da teledramaturgia.

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Ruy Castro no Jô Soares falando sobre futebol me lembrou o que Eça de Queiroz escreveu sobre escolhas equivocadas dos brasileiros (escrevi sobre isto no post do dia 08/07 último) quanto aos exemplos colhidos no estrangeiro. O colonizado escolhe o que é mais fácil de imitar, notadamente os defeitos do colonizador.

O futebol brasileiro, segundo Ruy Castro, inventivo e belo, deslocou-se para a Europa que exibia futebol esquemático, duro, demasiado técnico no pior sentido (burocrático, frio, feio) e deu-se, através dos anos a troca: eles aprenderam a jogar “bonito” e o Brasil aprendeu (mal) os esquemas táticos mais óbvios, e isto, segundo o escritor, explica muito do desnível escandaloso do futebol da seleção brasileira comparado às seleções europeias.  O que Ruy Castro deplorou na entrevista é a perda da própria noção do quanto decaímos no futebol.

O que nosso não tem sido assim desde que o Brasil adotou sub patriotismo e nacionalismo de gabinete no mesmo intervalo de tempo em que esqueceu autores brasileiros que buscavam explicar nossas razões, ocupado em importar correntes de pensamento que deram no “politicamente correto” mais provinciano e mal traduzido?

Eça de Queiroz satiriza em “Os Maias” a juventude portuguesa reproduzindo grotescamente modelos de comportamento ingleses e franceses, realçando nesta cópia desfocada o que tinham de atraso. A Universidade no Brasil é muito responsável por este delírio projetivo, que expande-se por todos os campos sociais e artísticos- e o futebol brasileiro hoje ser antiestético é apenas mais uma das conseqüências desta deformação.

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