“Notas” 19/07/2014 – Edição 100 do “Cadernos”

“Edição dedicada ao João Ubaldo Ribeiro, escritor que não tive a honra de agradecer pessoalmente os livros que li com deleite, nem de confessar meu adiamento da leitura de ‘Viva o Povo Brasileiro’.

Com sua partida ontem, 18/07/2014, o deserto cultural brasileiro ganhou mais um avanço rumo à brutalidade do nivelamento por baixo absoluto.Vai, João Ubaldo,  juntar-se a Jorge Amado, Glauber Rocha, Tarso de Castro e demais amigos que assistem, de um lugar melhor que este aqui, as nossas humilhações.”

O blog chega enfim à centésima edição em cinco anos e seis meses aproximados, intervalo de tempo no qual os recessos foram a regra e períodos de renovação regular de conteúdo foram escassos. Custei mesmo a iniciar o blog, meu irmão Alexandre insistindo bastante contra minha relutância em lidar com computadores e publicar textos que eu sabia que poucos leitores teriam no curto e médio prazo, pois mesmo os que vociferam contra a “mídia golpista” não procuram incluir em suas leituras autores não lançados por esta mesma mídia que deploram.

Nem mesmo sabia, quando comecei o blog, que textos poderiam ser mais extensos que um bilhete, pois eu acreditava que mais sumários os textos, melhor. Alguns deles até reescrevi, acrescentando remendos que me aliviassem de vergonha, à medida que percebi que textos devem ter seu tamanho escolhido pelo autor e não por convenções que só limitam e padronizam ao tédio infinito os artigos lidos na internet. Hoje busco desenvolver os textos até o cansaço meu e do leitor que julgo faminto de linhas escritas.

Ainda um desconhecido, tenho mantido as duas atualizações semanais que espero ainda aumentar até o sonho da atualização diária que parece ser mesmo a prova de iniciação de qualquer blog que tenha pretensões maiores que ser leitura de amigos do blogueiro. Sigo confiante em leitores como eu que, tendo chegado a um blog por busca de assunto determinado no “Google”, tornam-se leitores apaixonados pelo blog; seguindo, recomendando. Há alguns blogs que conheci por este caminho e que me apaixonaram e são minhas leituras quase diárias (neles não havendo atualização, procuro textos antigos). Somos, estes blogueiros e eu, beneficiários da tecnologia que nos libertou da espera de uma vida para publicar e de atingir o que Churchill chamava de “mentes irmãs”.

É difícil formar um publico maior quando não se tem um blog setorial ou que, no Brasil, abrace algum dos lados antagônicos na política partidária. Um blog que ostente perfil nitidamente conservador, ou declaradamente esquerdista, pode contar com leitores que desejam mais doses das poções ideológicas que julgam ser vitais e que buscam nas garrafas idênticas. Quantos que chegaram ao “Cadernos” esperando um blog similar aos que seguem, não desertaram sem voltar a cabeça para uma despedida?

Mas blogs que tenham agenda própria, que alimentem a pretensão de escolher temas que pertençam a um mesmo campo de dedicação intelectual e que não facilitem a vida dos rotuladores e que não sejam citados por formadores de opinião- exceto em links, e nunca em seus artigos- e não sejam meios de ganhar a vida do blogueiro, chegar ao numero 100 é um feito merecedor de edição especial. Quem escolhe não facilitar a vida de possíveis leitores preguiçosos tem que acolher com resignação a tarefa de postar com alguma freqüência, ainda que o numero de acessos aconselhe a “deixar para lá este blog”.

Leitores recentes que me julgam tucano, se buscarem o que escrevi de críticas ao PSDB, perceberão que sou, na verdade, um oposicionista que continuará mantendo este hábito de escrever pensando a caneta como artefato ainda que numa possível vitória dos tucanos. O que me desagrada no PT é muito encontradiço no PSDB e em parte considerável da política brasileira, ávida por um Poder estéril, pois descomprometido com qualquer desejo de transformar o País nivelando por alto, aumentando expectativas que aumentem, por conseqüência, as cobranças. O que combato aqui é precisamente o nivelamento por baixo que deixou o Brasil refém da desoladora possibilidade de escolher entre PT e PSDB.

O que é constante no “Cadernos” é a luta pela militância intelectual e cultural, o combate ao conformismo dos que assistem as cidades serem destruídas e “encaretadas” pelo “politicamente correto” e pelas “revitalizações”; a matriz universitária de alguns de nossos males, sobretudo o de imitar modas de países enquanto louva-se nacionalismo de carregação.

Elogios às figuras díspares como Olavo de Carvalho e Cláudio Abramo, por ex, são tão encontradiços por este espaço como críticas aos que elogio – Mario Sergio Conti, tanto como texto escrito quanto como entrevistador é um exemplo de personagem que trato como assunto relevante, e portanto, sujeito aos poréns que são irmãos dos textos de admiração.

Pretendo continuar assim, para leitores também assim – analíticos, apaixonados, porém não estúpidos, que queiram um autor interessante para acompanhar, ainda que discordando:

“Hoje o Pawwlow escreveu besteiras, vamos ver no próximo o que vai sair daí.”

Que outras cem edições venham, lutarei para realizar.

Aos que me acompanham, meu abraço e o clichê sincero:

Este blog é de vocês também.

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