“Notas”25/07/2014-Sobre o “anão diplomático”

“Obras da Copa, alguns bilhões, prejuízos pelos feriados, alguns milhões …mas ver o Ministério das Relações Exteriores de Israel tirar sarro da diplomacia brasileira usando a goleada ….não tem preço.”

Este parece ser o mantra dos adversários do Governo do PT nas redes sociais e artigos. Como a opinião publica no Brasil é articulada em clima de disputa partidária, mesmo em questões internacionais, e a Esquerda há algum tempo tomou para si a bandeira palestina, não sufocar murmúrios de indignação com o que está ocorrendo em Gaza é arriscar-se a ser tomado como governista ou esquerdista de anedota. Justificar bombardeios de hospitais e blocos residenciais valendo-se dos pretextos ofertados pelo Hamas é uma obrigação de quem deseja marcar a diferença com os que defendem os palestinos enquanto silenciam sobre monstruosidades ocorridas sob regimes amigos do atual governo.

Não se evolui ao estudo pormenorizado de fontes que não as rotineiras, para começar. Os artigos de Pepe Escobar sobre o conflito no Oriente Médio, por ex, são recusados pelos que deploram as simpatias eurasianas do autor, mesmo que sejam repletos de informações sobre as nuances de cada facção em guerra. Mesmo sendo brilhantemente redigidos por um dos textos mais pessoais da imprensa (consegue ser tão bom em Inglês como em Português), seus textos são ainda privilégio dos que não sabotam a busca por informação por questões de simpatia. Os artigos de Paulo Francis sobre o tema, também eram valiosos para se entender o que ocorre por estes dias na Faixa de Gaza. Faz falta informação escrita de qualidade, em suma.

Houve semana passada, no GloboNews programa apresentado por William Waack no qual três intelectuais debatiam o atual conflito, e Waack  (que insistiu no uso da razão contra emocionalismos que, embora legítimos, contribuem para tornar a questão ainda mais nebulosa) apresentou suas credenciais de quem esteve na região e sabe bem mais que repetidores do chavão: “Palestinos não querem paz, sabotam todas as ofertas de Israel.” Citou fontes que indicam que os acordos foram sistematicamente descumpridos por Israel e foram firmados com o intento de suavizar pressões internacionais e não o de “construir a Paz”.

Quem não lembra de David Nasser (a quem não se pode acusar de qualquer simpatia esquerdista que “desautorize” a simpatia pelos palestinos, sempre invocada pelos conservadores) na “Manchete” de Adolpho Bloch, escrevendo artigos que hoje seriam considerados demasiado duros com os israelenses? Há, salvo engano, dois destes textos na coletânea de sua colaboração na revista,”Autocensura”, um que é resposta decidida a um médico que escrevera protestando contra Nasser e convidava-o a um café. O jornalista respondia que enquanto a paz com dignidade não fosse oferecida aos palestinos (e citava dados que desmontavam a argumentação sinuosa do médico), o café teria que esperar.

Houve uma jornalista, Helena Salem, que cobriu a Guerra do Yom Kippur  (1973)para o “Jornal do Brasil”, sob Alberto Dines. Desta cobertura, saiu o livro “Palestinos:os novos judeus” e é também leitura que seria útil a quem palpita sobre o martírio palestino baseado em leituras de imprensa esquerdista mal feita ou articulistas de “Veja”.

É neste contexto intelectual que a admoestação atrevida (que revela que Israel está mal servido intelectualmente em seus quadros diplomáticos, pois pensava-se que metáforas futebolísticas fossem peças da oratória de lideranças populistas apenas) do porta voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, foi recebida: o Brasil não parece preparado intelectualmente para rebater a tentativa de piada, lembrando (ou informando) ao burocrata a atuação do “anão diplomático” na criação do Estado de Israel.

Carlos Lacerda esclarece, em seu “Depoimento”, a participação brasileira no episódio. Após lembrar que Osvaldo Aranha fora escolhido por questões de ordem (a Presidência da ONU era rotativa) e não por méritos, Lacerda recorda sua pregação pela abstenção brasileira, pois acreditava que a partilha da Palestina resultaria em guerra que não interessaria em nada ao Brasil e relata conversa que tivera com o chanceler Raul Fernandes, na qual este, primo de Lacerda, mostra-lhe a instrução que havia dado à delegação brasileira: “Na questão da Palestina deveis abster-vos de votar”. Mas Osvaldo Aranha, “envolvido pelo ‘New York Times’, envolvido pelo clima muito pró judaico de Nova York” decidiu votar pela criação do Estado de Israel, e por isto, segundo Lacerda, “o Brasil é um dos responsáveis pela instituição do sionismo como Nação”(“Depoimento”, Ed.Nova Fronteira, terceira edição, pág 97).

Sem dúvida é injusto exigir que o piadista conheça este pormenor histórico de um país que ele demonstra desprezar, pois não são muitos jornalistas brasileiros que conhecem História do Brasil. Ele certamente animou-se ao gracejo pelas demonstrações de tibieza da diplomacia brasileira frente aos abusos cometidos por nossos vizinhos, como a Bolívia, por ex. Ou pela presteza com que o Brasil mergulhou no pesadelo haitiano por uma hipotética cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Não foi pelo voto a favor da criação de seu país (pelas razões alegadas por Lacerda) que ele qualificou o Brasil como “anão”.

Não são poucos os que tomam partido de Israel nesta contenda por simpatia pelos Estados Unidos (assim como há quem seja favorável aos palestinos por motivos desta natureza) e relativizam os assentamentos, ou os feitos de Ariel Sharon (como o acobertamento aos massacres de civis em Sabra e Shatila pelas “Falanges Cristãs” libanesas) enquanto Ministro da Defesa ou a biografia de Menachem Begin em seus dias de chefe do grupo Irgun e o Massacre de Deir Yassin. Consideram estes fatos meros pretextos evocados por islâmicos devotados a “varrer Israel do mapa”, e portanto, notas de pé de página a ser removidas em edições da História.

Quanto ao juízo sobre o Brasil enunciado pelo porta-voz, quem discorda?

Afinal, o Brasil não rompeu relações como faria qualquer país insultado, sobretudo Israel. Assombração sabe a quem aparece.

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