“Notas”26/07/2014

Em entrevista publicada na série de livros que “O Estado de S.Paulo” organizou sob o título “A História Vivida” (três ou quatro livros de entrevistas com personalidades, dos mais diversos setores da vida nacional), o Marechal Nelson de Melo definia a UDN como o “Partido burro dos homens inteligentes” e o PSD como o “Partido inteligente dos homens burros”. Estas definições aparecem creditadas por vezes ao Roberto Campos (um dos entrevistados da série, por sinal), mas foi com Nelson de Melo que com elas tomei conhecimento.

Quem discordaria? A entrevista fora concedida em fins da década de ’70 e o PSD (ou seus membros melhor servidos nas legendas MDB e Arena) tinha aproveitado melhor o arranjo de forças no pós-64, ao contrário de muitos ex-udenistas que mesmo tendo exibido os esforços mais vistosos na conquista do Poder acabaram (ainda que na Arena) marginalizados. Carlos Lacerda é o exemplo mais conhecido da pouca astúcia udenista  (Lacerda dedica à incompetência e pouca disposição para o combate de membros da legenda algumas das páginas mais amargas de seu “Depoimento”). Excelentes oradores, mas…

Como a luta política não é torneio de eloquencia, muitos destes campeões da retórica são devorados pela onda cavalgada por homens práticos, que os enamorados pela própria imagem ensaiando no espelho discursos à massa consideram vulgares e indignos da afeição popular. Estes devotos de Padre Vieira e Rui Barbosa morrem amargurados, como amargurados terminam a vida os bons moços preteridos pelas deusas da quadra de ginástica que preferem a eles os aprendizes de vândalos do fundo da classe, e quem não reconhece que estes delinqüentes mirins têm seus argumentos? Os programadores de flashback das rádios parecem mesmo ter nascido para embalar estes idealistas…

Hoje o PSDB parece encarnar este tipo de agremiação de letrados não educados para o pátio da escola, ou palco da vida política. José Serra (por duas vezes, uma delas contra Dilma Rousseff) e Geraldo Alckmin tiveram seus momentos de malogro em debates com estrelas do PT que pareciam aos observadores facílimos de fulminar com argumentos e lógica elementar.

Deve haver registro no “Youtube” dos debates, mesmo para que futuras gerações aprendam como não discutir, como não titubear. O candidato tucano da vez, Aécio Neves,  parece mais disposto a discutir no chão da rua, mas deixa-se por vezes encurralar nas cordas, como o recente episódio da pista de pouso construída em chão de parentes; Aécio apresentou suas explicações, seguro de que elas por si encerram o assunto. Augusto Nunes deu seus conselhos em coluna, conselhos que dificilmente (considerando o histórico de zelo de etiquetas sociais do PSDB) serão aplicados em tempo. Ou as insinuações sobre a vida privada que inspiram reação tardia e desconjuntada de busca em computadores privados, enquanto sites que publicam acusações nas caixas de comentários seguem tranqüilos, sem visitas de oficiais de justiça.

Apostam os otimistas no descrédito que os de sua classe dedicam aos prosadores do governismo, esquecidos de que o eleitorado brasileiro não se encaixa, todo ele, nos tipos que são os comensais dos formadores de opinião nos restaurantes onde políticos de oposição são aplaudidos – por aplausos em restaurantes, Joaquim Barbosa seria o candidato indiscutível.

Os minutos de TV à disposição do governo serão, por obra das composições e do adesismo – por que não admitir? – fartos e tropeços retóricos da gente do PT serão compensados com exibições dos beneficiados por programas governamentais que, à falta de alternativa apresentada a eles, são eles próprios, a retórica e a eloqüência governista.

Onde os libelos da oposição contra a impunidade? Quais filmes estão sendo exibidos com depoimentos dos decepcionados da massa após doze anos de um governo que conquistou votos anunciando mudanças, sobretudo dos nordestinos que esperam ainda por obras anunciadas no primeiro mandato de Lula? Esperam que o PT produza estes filmes com os minutos que dispõe?

O “Partido Inteligente de Homens Burros”demonstra, onde quer que atue sua inteligência,  perícia em identificar inimigos e os neutralizar com o ostracismo – e esta capacidade em perceber ameaças e as minimizar – não desmente sua alegada burrice ? ”O Partido Burro de Homens Inteligentes” não está, uma vez mais, preparando-se para ser suplantado pelos que subestima criminosamente? Pela provável última chance?

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Exposição de Salvador Dalí concentrada em Dante é programa obrigatório que me obrigo a ir, violentando minha aversão ao público típico deste programa; os intelectualoides que contemplam quadros dando aulas aos circunstantes, exibindo erudição de escola de arte aos berros (vigiando as reações da plateia compulsória sem disfarçar), disputando atenção com as telas, geralmente em grupetos de vedetes “culturais”.

Dalí vale passar por isto;  pelo grotesco da classe pretensamente ilustrada e por vigias  (lembro de exposição, no Palácio das Artes, sobre a presença holandesa em Pernambuco, onde um vigia de gravata me recomendava não tocar nas telas) grosseiros, recrutados sabe-se por qual critério. Programas do tipo em BH são insalubres para meu gosto.

Mas como não visitar estas preciosidades de um gênio, como não ir todos os dias ao encontro de Dante com Dali no “Inferno” da “Divina Comédia”?

Deixar os mestres me lembrar do que ofícios de arte exigem e devolvem aos que se aplicam, sem medo de sacrifícios temíveis -e necessários- no aprendizado do tesouro legado pelos antecessores.

Vou me queimar em Dalí e nascer a cada dia desta exposição mais sedento de realizar na prosa o que o mestre ensinou possível em sua magia com pincéis.

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Há no “YouTube” diversos vídeos de festas jamaicanas- que fornecem aos observadores mais que o espetáculo de degradação de jovens que se esfregam no que parece ser uma dança que simula a cópula de animais.

Aos apressados, vídeos simplesmente ridículos e mal filmados (ou ao contrário, dependendo da preferência estética do espectador, pois o cinegrafista parece ser um discípulo de Glauber Rocha que fixou-se em documentários de bailes- a câmera rodopia ao ritmo das oscilações de interesse do operador nos diversos pontos do salão), de interesse meramente sexual, vídeos para aficionados por mestiças de lingerie.

Para quem identifica traços culturais sob o exótico mais estridente, este material é repleto de sugestões coloniais. Tanto os homens como as mulheres exibem a altivez de súditos de Elizabeth II nos olhares de desdém e na gesticulação.

Mulheres reviram os olhos à passagem de convivas que buscam a atenção da equipe de filmagem e chegam a gesticular obscenidades quando focalizadas- exigem curtir sua festa sem a intromissão de cinegrafistas. Portam bolsas como as damas da família real inglesa, ainda que de calcinhas e cinta-liga, e ostentando o dedo do meio.

As expressões faciais que lembram personagens de dramas ingleses soturnos, em mansões opressivas, casam-se com as demonstrações de sensualidade vulgar, ou aristocrática ao ponto da abolição de policiamento de conduta frente aos plebeus.

Estes vídeos, mais que a dramaturgia atual, ou teses acadêmicas redigidas em linguagem de bula, têm me dito sobre as diferenças entre os colonizadores ingleses e portugueses. Duvida? Vá aos vídeos, também no “YouTube”, de bailes funk, e comprove a caretice dos similares brasileiros das festas jamaicanas.

Ou deduza o que dos traços ingleses ostentados pelos jamaicanos são herdados ou emulações, o que é, também, exercício que igualmente vale mais que leituras de tratados ilegíveis sobre colonização e identidade.

Assistindo-os, meditei sobre a importação de modismos como “política de reparações” e toda a tralha “politicamente correta” comprada por atacado pela casta acadêmica.

E invejei os freqüentadores de bailes que nada esperam, exceto a próxima festa.

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