“Notas”- 31/07/2014-“Reflexões nesta hora da Argentina”e “Um exercício de imaginação”

A conta pelas escolhas aconselhadas por um ideologismo stalinistóide, filho de leituras mal-digeridas de Marx pela casta intelectual (sobretudo universitária) de países subalternos sairá, cada vez mais, em bloco; pois em bloco estes países resolveram atuar nas últimas décadas. Um banquete de pobres-diabos na churrascaria de grã-finos.

Como investigar os defeitos específicos dos próprios países é por vezes desagradável aos membros da classe média alta que povoam departamentos universitários (quem quer se admitir parte do problema?), devaneios continentais consomem o tempo que deveria ser canalizado em detectar os vazamentos internos de recursos.

Bem, não farei aqui a biografia do “Mercosul”, nem pintarei painel das esquerdas latino-americanas com seus organismos de Esquerda, nem mesmo discutir o artificialismo de discutir um país de origem colonial diversa (que tem pouquíssimo em comum com seus vizinhos) como se a fatalidade geográfica fosse um fator preponderante na sua realidade política.

Qualquer leitor médio sabe do que escrevo, e o sentimento de ociosidade ao tratar desta profecia já realizada – o respingo no Brasil de uma crise argentina – é quase paralisante. Mas mesmo articulistas liberais no Brasil temem escrever o óbvio: passou, há muito, da hora do Brasil isolar-se de seus vizinhos (ainda que estes voltem a ser governados por gente menos lunática) hispânicos e buscar laços com países que, embora separados pelo Oceano, apresentem mais que a conta de banquetes nos quais o Brasil dá uma mordiscada aqui e um gole ali  (quando muito).

Rirão governistas: “O Brasil já faz isto, mal-informado. Veja acordos com países africanos”. Responderei: “Não, propagandistas, não falo de perdoar dívidas que não seriam pagas tão cedo mesmo, e sim parcerias estratégicas de prazo longo, circuitos culturais, intercâmbios bem costurados (não acordos ortográficos impraticáveis, que lingüistas sérios deploram). Ou isto, ou o isolamento necessário para sanar nossas mazelas de décadas.

Havia um slogan salazarista por ocasião do declínio colonial europeu na África, quando potencias europeias livravam-se de suas colônias (e dos problemas com lucros minguantes que elas significavam em pleno séc XX – quando a parceria comercial mostrou-se mais vantajosa que manter uma estrutura em outro país e responder por todos os gastos, mesmo que com recursos arrancados das colônias): ”Orgulhosamente sós”. A menção a esta divisa do império salazarista português não significa elogio do colonialismo, e sim reconhecimento à decisão de não tomar decisões em bloco (ainda que, no caso, a decisão custasse caro) com outros países. O Brasil será assim quando? Precisará ser esmagado pro uma crise de um vizinho pouco grato e cioso apenas de seus interesses (que adapta acordos ao seu feitio) para decidir-se a desertar de blocos comerciais ditados por natureza geográfica e sub ideológica?

Talvez seja tarde para o Brasil evitar a contaminação nesta crise que virá agora, mas como dificilmente a Argentina se emendará…ou Bolívia…

X
Quem não se diverte com exercícios de imaginação envolvendo vultos em situações do tempo presente? “Que diria Borges de Cristina Kirchner?, por exemplo.

Leio nas caixas de comentários de blogs governistas ataques aos que criticam o Governo e imagino alguns dos ídolos destes MAVs sendo alvos da mesma fúria “anti-intelectuais vendidos à mídia podre”:

Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Raul Seixas. Vá a qualquer perfil de Facebook de um universitário destes e você encontrará estes ícones acompanhados, não raro, de frases apócrifas – chegam a concorrer com Arnaldo Jabor nesta categoria.

Lamentam muito Lobão e elogiam Raul,  ignorantes da amizade de ambos, ou do horror de Raul aos intelectualoides “caretas” e, pior, simpatizantes de qualquer governo. Mesmo quando insultam Roger Moreira, nem desconfiam que era artista elogiado por Raul, que considerava “Inútil”o exemplar do que havia de consciência no rock brasileiro dos anos ’80.

Lobão e Roger, se analisarmos bem o que dizem em letras e/ou entrevistas, pouco mudaram. Sempre foram partidários da meritocracia (e espírito de total independência de favores de grupos de medalhões ou entidades governamentais) e muito ácidos às panelinhas. Lobão quando apoiou o PT via no partido estes valores. Quem duvide, que leia o que ele declarava à ocasião.

Portanto é possível imaginar Raul sendo qualificado, vivo (e usualmente crítico aos governos) fosse:

“Este aí fumou muito, cheirou muito, e hoje vive rastejando aos pés da Globo e falando mal de um Governo que faz mais que se drogar para aparecer”,ou

“Raul? Quem é esta múmia? Ah, o tal que se dizia ‘Metamorfose Ambulante’. Explicado. Muda tanto que não sabe nem o que fala”.

“Pára de beber, tio, tá ridículo,coitado, dó dele, Dilma vai se REELEGE-E-E-E-ERRRR!!!!”

“Juntou os três malucos alienados: Lobão, Roger e Raul, vcs perderam,otários.”

Ou Drummond, tão mal citado e provavelmente pouco entusiasta deste nosso governo:

“É, vovô branco, não perdoa mesmo as cotas, os negros na faculdade, enchendo aeroportos, né? Tomou a sopa hoje, múmia de Minas?”

“Coitado, viu tanto a pedra no meio do caminho que ela surgiu para os da tua classe, né velho reaça. Dilma é a pedra no meio do caminho dos coxinhas.”

“Quer voltar para a tumba, ou para passado onde só os de sua cor e classe tinham vez?”

“Drummond? KKK, quem é ele mesmo?”

Clarice Lispector talvez não fosse a pensadora oficial de perfis de subliteratas de Facebook vivesse hoje, pois o que escrevia sobre “os contentes” não mudasse muito hoje:

“Esta não é a doida que coloca personagem comendo barata? Explicado, tia.”

“Tentei ler um livro dela. Dormi e tive um pesadelo no qual os coxinhas tinham voltado ao Poder. Xô ,bruxa velha, Dilma vem aí.”

Quem acha que estes comentários não seriam feitos, releia o que se publicou no 247 sobre João Ubaldo Ribeiro quando seus artigos eram transcritos ali- lembro de “Agora faz o quatro”.

E o que se publica sobre Ferreira Gullar,  para dar um só exemplo.

Com patrocínio do Governo Federal, claro. Afinal, este governo incentiva a Cultura.

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