“Notas” – 02/08/2014

Um senhor cultivando orquídeas em um sítio decadente mastigando as lembranças de seus dias de militar da área de informações- sua formação militar, os cursos de especialização, a militância no Movimento Anti – Comunista, a proximidade com o Poder, e o que testemunhou como interrogador –tudo entrecortado por um depoimento a uma comissão.

O final do filme seria seu assassinato, controverso (para sempre?) e rápidos flashs da imprensa e um fade-out sobre a cadeira palco de seu depoimento.

Sim, a figura de Paulo Malhães daria um filme- ou seriado- seu depoimento na “Comissão da Verdade”(disponível no “Youtube”) mostra um senhor cujo semblante é o de uma biografia do jogo brutal de forças dos dias do Governo Militar. Mesmo considerando-o vítima de uma vaidade crepuscular (o consolo para a velhice limitada fisicamente) revi algumas vezes o velho oficial do Exército encenar seu momento Garcíamarquezano aparentemente deliciado com a avidez dos seus interrogadores por informações que ele parecia certo de levar em breve para lugar de onde elas não enviariam relatórios. Falou mais que o perguntado, e somente sobre o que quis, estabelecendo o que era matéria de conhecimento público e o que deveria permanecer oculto por respeito aos mortos de ambos os lados do conflito no qual atuou.

Conhecia o nome citado por Paulo Francis (como Pablo Malhães) nos dois volumes de suas memórias- n “O Afeto Que Se Encerra”  (Pág.54, Terceira Edição, Ed Civilização Brasileira), o oficial aparece ameaçando o jornalista de tortura (junto ao Coronel Fontenelle) no DOI CODI, por ocasião do rapto do embaixador americano no Brasil e no “Trinta Anos Esta Noite”  (Pág.190, segunda reimpressão, Ed.Companhia das Letras), mencionando a “guerra revolucionária” no interrogatório do jornalista, cujo sobrenome Heilborn, parecera-lhe inglês, o que fez com que Francis não o levasse muito em consideração.

Mas o moralismo da classe artística brasileira extrairia deste material a dramaticidade ou a tentação de produzir filmes piegas e moralistas sobre o período emporcalhariam a iniciativa?  Filmes sobre jovens de classe média que tiveram seus sonhos esmagados pelos repressores malvados, o cinema brasileiro já os tem em estoque,  um “Pra Frente, Brasil”, ou um “Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia” são ainda exceções na filmografia sobre violência no Brasil.

Não é proibido imaginar José Carlos Oliveira ainda vivo escrevendo um livro que seria convertido em roteiro, ou Paulo César Peréio interpretando Malhães, em algum filme (ou filme – seriado para a TV) dirigido por algum cineasta de talento.

Nos Estados Unidos, um personagem desta natureza, com tal biografia  (sobretudo com o encerramento que ela teve) não seria desperdiçado (e diversos diretores aproveitam uma mesma história, sem que a Arte perca com este aproveitamento de material por vários criadores), mas aqui não temos o hábito cultural de encenar nossos personagens e fragmentos de História com o carinho que eles exigem para a Imortalidade. Quantos filmes a epopeia dos “18 do Forte”mereceu? Ou a Guerrilha do Araguaia?

“Ah , mas isto não seria homenagear um torturador e assassino de jovens que lutaram para salvar o Brasil de uma Ditadura?”

E vencem assim (neste casamento entre o simplismo e o moralismo de aldeia) o nivelamento por baixo e o esquecimento de nossa História.

X

Falar em nivelamento por baixo, o embate entre conservadores americanos por ocasião do lançamento de um livro sobre a Segunda Guerra Mundial pela historiadora Diana West (conservadora) e seus críticos neocons reforça o contraste entre a cena intelectual de um país onde o debate entre Direita e Esquerda sempre foi constante e vital e outro cujo espírito de adesão desestimula qualquer debate e avanço nas discussões do espaço público. Os neocons criticaram o que pareceu excessivo no livro e os conservadores lembraram o que parece a eles inconfiável nestes filhos desgarrados da Esquerda, nominalmente aliados.

Os conservadores americanos mantêm revistas e fóruns de discussões entre seus diversos segmentos, com linguagem rude e acusações pesadas que funcionam como aquecimento intelectual para as discussões com membros da Esquerda – a qual igualmente se robustece nas discussões entre revistas e grupos nas lutas internas para discussões nos grandes meios de comunicação com conservadores, e este confronto guia muito da grande política no Congresso e na luta pela hegemonia na América. Afiam-se as garras nos próprios ninhos.

Aqui…o compadrio, o temor de ser mal compreendido, a politicagem barata nos departamentos universitários (que se estende aos feudos da casta acadêmica na imprensa), o parentesco como indicativo de competência, as etiquetas sociais observadas com rigor implacável (ai daquele surpreendido dando vexame) são o aquecimento de boa parte dos campos ideológicos que disputam seus territórios num ensaio trôpego de hegemonia.

O Brasil já foi país que contava com revistas e intelectuais aptos ao debate e disputa pelo Poder, em ambos os hemisférios políticos, mas a estagnação mental (que Carlos Lacerda qualificava de “tranqüilidade lacustre dos medíocres”) impôs seu feitio e portanto, é obrigatório aos que pretendem seguir a carreira de polemista mirar-se nas lutas travadas entre intelectuais onde ainda há precisamente isto: vida intelectual.

O nível baixo que há nas disputas entre Governo e Oposição é fruto disto: não há mais nos campos opostos o fórum aberto e corajoso que habilite militantes a discutir nas redes sociais sem aludir à vida pessoal dos candidatos e eventuais casos de corrupção.

E este jejum de ideias será o guia de milhões na urna. Culpa dos “intelectuais”, não?

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