“Notas”- 28/08/2014

Divertido ler análises sobre o debate presidencial do Primeiro Turno da Band; suas demonstrações tocantes de fé nos poucos minutos que candidatos dispõem, cada um, nestes debates com cinco ou seis candidatos, dentre os quais somente dois ou três tem chances reais de concorrer. Candidatos com 1% ou 2% são, claro, merecedores de atenção e respeito, mas subtraem muito do tempo que candidatos viáveis teriam fossem as regras mais exigentes.

Não se nega, contudo, que algumas das melhores intervenções da noite foram precisamente dos “nanicos”: Levy Fidelix e suas denúncias sobre a inoperância e incompetência que estão falindo o Brasil, ou o protesto do Pastor Everaldo sobre o financiamento brasileiro da ditadura cubana através de investimentos que poderiam (e deveriam) ser feitos no Brasil. Mesmo Eduardo Jorge do PV e Luciana Genro foram divertidos à sua maneira, com a diferença que o primeiro ainda tinha propostas (controversas, mas propostas) e a candidata do PSOL apenas oratória de cervejada de D.A secundarista – como o povo do Rio Grande do Sul elegeu uma figura assim para o Congresso uma vez? Suas arengas contra “o Capital” e cobranças juvenis de coerência com ideais de Esquerda às outras duas candidatas foram poderoso estímulo ao sono – e ao desligar da TV. Quantos minutos de questionamentos entre os candidatos “pra valer” foram desperdiçados assim, com performances de stand up comedy?

O resultado é que, na prática, somente os debates do Segundo Turno são realmente úteis como fóruns de ideias e apresentação de programas. Os do Primeiro Turno valem como tópico de redes sociais e entretenimento, apenas.

Dilma Rousseff tem seu público (não somente de beneficiários de cotas e bolsas, diga-se) e mesmo (posteriormente) acusada de declamar números controversos, soou convincente.

Marina Silva demonstrou que sob a candura e voz quase inaudível, repousa combatente implacável, sem temor de ofender ou magoar.

Aécio Neves, por mais que tenha se esforçado em soar veemente, foi (como o tem sido durante toda a campanha) vítima da escola de interpretação: “Sorria, mesmo dizendo que o adversário é mitômano inveterado e incompetente nato”. Não transmite fúria, mesmo porque não bate em traços do PSDB que o PT apenas herdou, juntamente com a política econômica, que prestaram serviço inestimável à extinção da meritocracia no Brasil.

A verdade é que os debates vêm perdendo importância como fator de decisão de voto em dias de discussão em rede social e hegemonia assentada nos movimentos sociais – o sujeito já liga a TV sabendo no mínimo em quem não votará de jeito algum e não há marqueteiro que convença este eleitor previamente trabalhado do contrário – sobretudo no formato que não permite digressões e mergulhos retóricos, a grade de programação das TVs pairando absoluta.

Quem, afinal, desejoso de ver o PT fora do Poder mudará o voto por considerar Marina Silva dona de retórica consistente como um mingau e escorregadia a ponto de não se fixar dela qualquer resposta conclusiva e  ridículas suas repreensões ao PT e PSDB que “desunem o País” (como se o Brasil precisasse dissolver os contrários para ser um lugar digno) sendo ela a candidata com condições numéricas de enfrentar ( e vencer) Dilma Rousseff?

Quem, petista ou apenas satisfeito com o Governo, mudará voto ainda que Dilma soe incompreensível em algumas explicações sobre as agruras do trabalhador que não o de seus filmes publicitários (ela própria parece acreditar no Brasil destes anúncios)?

Qual tucano será dissuadido com os sorrisos fora de hora de Aécio e sua hesitação em bater mais forte (mesmo quando Dilma utilizava de sarcasmo e indisfarçado fastio nas respostas), presentes em todo o debate? Marina lembrou (ao público brasileiro informou) que Minas Gerias tampouco era o paraíso dos filmes publicitários de Aécio- ele respondeu sorrindo, como invulnerável “aos ataques de quem não conhece Minas”.  Superior e bonachão assim.

Aos analistas que tentam diagnosticar o que faz Aécio soar inconvincente desperdiçam tempo, pois aparentemente adeptos mais de autoajuda (praticada com seus comensais nos restaurantes finos) que de estudos de realismo político. Estudassem e perceberiam que Aécio soa como um político talhado a publico mais macio, de seu estado natal. O candidato do PSDB é, aos olhos de eleitores não – tucanos, um retorno ao Brasil pré-2002, retorno sonhado somente por tucanos e conservadores que tendem a idealizar o passado.

José Serra perdeu duas (não seguidas, lembre-se) e já foi catalogado como político “pesado”, “desagregador”, “emérito perdedor de eleições”, etc, etc, etc- e hoje lidera a disputa pelo Senado, ostentando Poder que falta agora ao candidato que a cúpula do PSDB (sobretudo FHC) escolheu como “cara nova” do Partido. Estes mesmos analistas tomaram esta decisão como artigo de fé e hoje buscam explicações em debates, ou nos poucos minutos, com ênfase no tom de voz, no olhar que deve ser ensaiado diante do espelho …

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