“Notas” – 30/08/2014

Não sou um seguidor de Silas Malafaia (embora seus programas de madrugada tenham me proporcionado diversão algumas vezes) nem de qualquer outro líder de qualquer outra denominação. “Igrejas de crente” lá e eu cá, que continuem lotando e que seus fiéis mais fanáticos sejam contidos pelo Estado em seus apetites legislatórios sobre vida privada de seus concidadãos- que cantem seus hinos e doem com “liberalidade” suas “ofertas”, e que deixem as boates e bares funcionando, em suma. Sei o quanto evangélicos exigem de freio do Estado para que não dominem a vida social e não tentem instalar seu reino sobre infiéis, pois certa vez, comparecendo a um culto (ao qual concordara em ir sob promessa de que não me tentariam converter), ao fim deste, a pessoa que me levara (hoje distante do meio evangélico e militando mesmo em margem oposta) exigiu que eu me desfizesse de medalha de São Jorge que eu guardava na bolsa, portanto…

Não aplaudo aqui o recuo de Marina Silva (recuo atribuído ao ultimato de Malafaia) de posições em seu programa que contemplavam a agenda ditada por lideranças LGBT por outro motivo que não o de desejar sociedade não tutelada por membros da casta acadêmica que se nomeiam representantes de segmentos, ainda que inúmeros representantes destes segmentos declarem não se considerar representados por estas lideranças.

Não apenas conservadores se irritam com o despropósito de censura estatal às religiões, posto que ninguém é obrigado a aderir aos seus quadros e comungar seus valores. A verdadeira liberdade reside em um modelo social em que as religiões defendam suas doutrinas, ainda que pareçam obscurantistas e retrógradas. Obscurantismo existe no desejo de censurar livros sagrados, ou reescrevê-los ao sabor de suscetibilidades, pois eles dirigem-se somente aos fiéis ou estudiosos de religiões – não gostando do que encontram ali, ofendidos podem abster-se da leitura, ou escrever mais umas tantas refutações – lembro de um conhecido que anunciava (em uma festa infantil) com ar grave e voz quase sussurrante, um “livro de crítica à Igreja”, tomando o cuidado de redigir de forma “a não ofender sentimentos”. Parecia sentir o peso da responsabilidade de tamanho ineditismo que decerto tornaria seu nome inscrito entre os grandes pensadores.

Marina fez o cálculo mais razoável: perderia umas dezenas de milhares de votos (ou quem acredita que certas “lideranças” liderem mais almas e mentes que este montante?) ainda que significativos e com poder de vocalização e articulação; e ganharia milhões de votos de evangélicos, e de quebra outros tantos milhões de votos de indiferentes às religiões, porém adeptos de uma sociedade onde os consensos sejam construídos obedecendo ao que a sociedade tem de mais diversificado (e mesmo não articulado) na sua formação.

Ainda que o perigo de pressões do segmento evangélico sobre um hipotético Governo Marina seja real- e exija recusa enérgica da sociedade, que estará atenta à preservação da natureza laica do Estado – este perigo ainda é menos ameaçador que o representado por avanços do clero acadêmico sobre a sociedade, utilizando-se do subterfúgio de defensores de minorias – que de fato demandam defesa contra agressores e intolerantes que nutrem orgulhosa alergia a todo material impresso. As necessidades não se devem misturar – direitos defendidos não podem se transformar automaticamente em outros direitos por simples pressão de grupos.

Marina Silva sabe que tem sobre si todas as expectativas e cobranças, na condição de líder das pesquisas eleitorais – e todas as discussões desta campanha (tão curta, fruto de uma tragédia) ajudam o País a abandonar a inércia resultante da polarização PT x PSDB, na qual duas visões limitadas e limitadoras de Brasil contribuíram para que as discussões políticas tenham atingido nível tão baixo, de parte a parte. Adversário político precisa deixar de ser inimigo de morte.

E portanto, ainda que um possível Governo de Marina Silva seja um desastre, terá por si só algo de benéfico e necessário para a superação dos impasses atuais.

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