“Notas” – 13/09/2014

Entrevista do Millôr Fernandes ao programa “Vitrine” da TV Cultura, na década de ’90 (disponível no “YouTube”), traz sua resposta ao questionamento da entrevistadora sobre suas reservas a se tornar figura televisiva- se ele temia a distorção de sua imagem:

“Não é medo, é a certeza disto”.

No “Roda Viva” de alguns anos antes (fim de década de ’80), Millôr declarou cobrar por entrevista, estabelecendo valores que acabavam por dissuadir quem o convidasse. Pareceu uma tirada humorística, mas Millôr foi enfático ao condenar escritores que, por desejo de fama, nada cobravam: “Intelectual no Brasil é idiota”.

Em ambas entrevistas, a manifestação de desprezo pela “celebridade”, aquela em que se é alvo de abordagens de caçadores de famosos e o elogio da “notoriedade”, condição que torna ao notável ser reconhecido por outros notáveis. Em outra entrevista, observou que a “fama” (por ele obtida em seus dias de “O Cruzeiro”) abre portas profissionais, mas que o trabalho para se manter notório é gigantesco: foi além de desenhista e humorista, dramaturgo e tradutor, sempre criando, nunca se permitindo o repouso que poderia gozar com a conquista do reconhecimento profissional em plena juventude.

Penso nisto sempre que vejo articulistas comandando programas de TV, submetendo-se ao juízo de milhões que nunca leram uma linha do que escreveram e que os julgarão por suas performances televisivas. É o preço de se exibir (ainda que sob compensações pecuniárias persuasivas) ao público que não o próprio, e de trabalhar em ofício que, aos homens de estudo e escrita, é um atalho à notoriedade, ainda que se obtenha somente celebridade.

Quantas besteiras se escrevem em caixas de comentários sobre, por exemplo, William Waack, autor de livros importantes como “Camaradas” (sobre a Revolta Comunista de ’35, dirigida por Moscou), mas à massa que o conhece apenas via TV Globo, apenas um âncora “reacionário”. As tolices redigidas em português de porta de mictório nos comentários de textos que tratam de Mario Sergio Conti declaram pro si a ignorância sobre o trabalho escrito do autor de “Notícias do Planalto”- a estes comentaristas, Conti é apenas “um apresentador chato e sem carisma, ‘petralha’”.  Paulo Francis foi percebido por milhões que o viam no “Jornal da Globo”como um personagem cômico, aos milhares que conheciam seus textos, era um autor obrigatório – a confirmação de que algo se perde nesta mudança de escala.

O texto dos intelectuais após esta exposição a estas plateias revela cuidado de não perder a clientela recém conquistada e não raro conhecedores do material anterior desertam de seu publico, deixando-o aos novatos que desfrutarão do autor reduzido à autocaricatura e celebração de imitadores, de “genéricos” que começam a emulação a partir do produto oferecido às massas. Fim de linha.

Por isto, por observar o que resulta este acordo com as facilidades, tomo por modelos a seguir figuras como João Gilberto, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Élio Gaspari, que mantêm constância e volume de trabalho, afastados de exposições desnecessárias.

Além do Millôr Fernandes de muitos talentos e poucas entrevistas para as décadas em que atuou, reverenciado em vida por outros tantos criadores.

Estes personagens  simbolizam o amor ao ofício, que torna a notoriedade digna e não corruptora, pois resultante do trabalho na solidão, desinteressado da consequência .

X
Semana passada morreu o cantor Miltinho, monstro sagrado de outras décadas, e “outros carnavais”, intérpretes de grandes sucessos (“Mulher de Trinta”, “Mulata Assanhada”).

O site de “Veja” anunciou a morte de Miltinho do MPB-4, embora exibindo a fotografia do falecido recente, e também embora outros portais dessem a nota certa. Claro que me passou a constatação de que a “Veja” não é mais a mesma, que em dias de Élio Gaspari e de Mario Sergio Conti, estas batatadas constituíssem escândalo.

Demorou a corrigirem, espaço de tempo em que devem ter recebido avisos do engano.
Eu próprio quase escrevi mensagem, mas lembrei que não sou funcionário da casa e que o máximo que se recebe colaborando ali é um “Obrigado, valeu”.

Como disse Aracy de Almeida, segundo João Antônio em seu “A Dama do Encantado”: ”Quem canta de graça é galo”.

E já cantei enganos de graça ali mais que qualquer galo .

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