“Notas” – 20/09/2014

Sandro Vaia e Rodrigo Mesquita : dois depoimentos, duas versões e uma conclusão

Leitor do blog que soube do texto – depoimento de Sandro Vaia (“Detrás das dunas do Estadão”) à revista “piauí” (publicado originalmente em 2007, edição 12 da revista) porque eu o citei em um texto aqui, me enviou email com link para o artigo “A Agencia Estado sob a ótica de Rodrigo Lara Mesquita”, publicado no site “Jornalismo Econômico”. Como sou um interessado pela imprensa e escrevi artigos nos quais trato de “Estado de S.Paulo”  e escrevi aqui no “Cadernos” pequeno texto quando da morte de Ruy Mesquita, meu amigo e leitor deduziu corretamente: o texto me interessava e exigia minha atenção.

O texto, de leitura obrigatória aos interessados em informação e história do jornalismo, narra o germe da iniciativa de transformar a “Agencia Estado” em parte de algo maior: jornalismo em tempos de internet;  novos conceitos como “interação”, “informação em tempo real”, “ação em rede”, etc,  a serviço de um tempo que julga as formas tradicionais de comunicação obsoletas e sem resposta aos desafios do Séc XXI. O jornalismo econômico, sobretudo, exigia já na virada da década de ’80 para ’90, novas modalidades de prestação de serviços e Rodrigo Lara Mesquita foi o visionário que intuiu e implementou estas modificações no Brasil com profissionais qualificados e hoje a internet como motor da mídia no País é uma realidade que nos torna, neste particular, ombreados com o que se faz no resto do mundo.

O texto traça esta odisseia ligeiramente (parecendo ser um esboço de texto maior ou de série de artigos) e termina com nota que, aos que nada acompanham de imprensa – e de “O Estado de S.Paulo” – soa incompreensível: Lara Mesquita lamenta jornalistas “que tinham passado pela direção da AE, mas que nunca entenderam plenamente os objetivos desta empresa”, pois o objetivo deles, segundo o autor, “míope e medíocre”, fruto do que ele atribui à “idade provecta”, era se apoderar da direção do jornal “O Estado de S.Paulo”, com “resultados dramáticos”.

Muitos certamente terminaram a leitura sem saber de que e de quem tratava o memorialista da Agencia Estado. Meu amigo e leitor foi um que, quando do envio do link, me perguntou se eu sabia quem eram os jornalistas atacados sem identificação de seus nomes.

Aos leitores que terminaram a leitura traçando conjecturas sobre os destinatários da fúria do articulista –e sobretudo ao meu amigo – leitor  recomendo a leitura, ou releitura (no caso deste amigo), atenta do texto -depoimento de Sandro Vaia à “piauí”.

Logo no início do longo texto memorialístico, Vaia alude à sua trajetória no “Grupo Estado”,  de membro veterano do “Jornal da Tarde” e Diretor de Informação da “AE”, até ser Diretor de redação de “O Estado”- deixando pouco trabalho de imaginação, portanto,aos leitores do texto de Lara Mesquita. O depoimento de Vaia passa, em seguida, aos desgastes entre a redação de “O Estado” e da “AE”- “Não dividiam as mesmas mesas de churrasco”- e o tamanho do desafio de dar à AE, emperrada em lucros pequenos (inadimplência alta), um motor novo, quando Sandro Vaia foi, por força de uma tragédia (o assassinato de Sandra Gomide pelo então diretor de redação do jornal, Pimenta Neves) e não de uma maquinação maquiavélica e carreirista, guindado à direção do jornal mítico. Vaia logo emenda com elogios à visão de longo alcance de Rodrigo Lara Mesquita, qualificando-o como “conflitivo, talentoso, passional”, um visionário admirador de internet percebido por alguns membros do clã Mesquita como um “obcecado pelo Poder”.

O texto – depoimento não é peça de acusação ou autoelogio, me parecendo, portanto, digno de fé.  O registro das atribulações da gestão que sucedeu a um diretor controverso cuja gestão terminou em tragédia que expôs o jornal ao escândalo é feito sem acusações a qualquer membro em particular de um clã esmagado por concorrentes mais dinâmicos e dias menos exigentes,  que preteriram um jornal apegado a fórmulas e preciosismos em favor de um jornal febril e buliçoso, a “Folha de S. Paulo”. Um retrato de um período crepuscular de um jornal formador de leitores, sobretudo.

A descrição da intervenção que afastou Mesquitas de postos-chave é justa com o clã, e principalmente com Rodrigo Lara Mesquita, que teve que ceder seu cargo na direção da AE ao jornalista (também veterano na casa) Elói Gertel. Vaia narra a intervenção como uma imposição, que, bem ou mal executada, teve aval da família – lembro agora de reportagem na ocasião em que um dos filhos de Ruy Mesquita, talvez Ruy Mesquita Filho, surgia como autor de nota interna à redação comunicando a retirada temporária dos membros da família, sendo esta “não um adeus, mas um até breve”.

Nada, enfim, no texto de Sandro Vaia denota atitude de sarcasmo ou desprezo à família em cujos jornais trabalhou por décadas, intervalo de tempo que contou com hiato de poucos anos, nos quais dirigiu a revista “Afinal”. Rodrigo Lara Mesquita, repito, foi retratado como um talento injustiçado, um homem à frente de seu tempo.

Por que escrevo sobre isto, se não tenho todos os dados da história e tampouco procuração de Sandro Vaia para defendê-lo do que me pareceu uma agressão? Porque isto me levou às reflexões de Cláudio Abramo em seu livro de depoimentos “A Regra do Jogo”, sobre sua passagem pelo “Estadão” (jornal que ajudou a reformar nos anos ’50) e observações sobre  patrões que, após se utilizar por anos de talentos, os descartam assim que eles,  ou ficam fortes a ponto de competir em autoridade com os proprietários, ou quando saem da empresa – Abramo menciona reportagens comemorativas do jornal nas quais seu nome não era sequer mencionado, como fosse ele uma lembrança apenas de si para si na história do jornal.

Me perguntei ontem ao ler o texto de Lara Mesquita e reler o de Sandro Vaia se vale a pena um profissional de talento empenhar décadas de sua vida a uma empresa que não sua, para depois ser acusado (sobretudo não nominalmente) por herdeiros, de maquinações e ser retratado como uma vítima da “idade provecta”.

Tal acusação, partindo de homem de sessenta anos, como Rodrigo Mesquita, soa pitoresca.

Eu, por minha vez, declaro que adoraria  chegar à “idade provecta” de Sandro Vaia com a folha de serviços que ele ostenta na imprensa brasileira e com o prestígio que desfruta entre os grandes jornalistas que trabalharam com ele nas redações pelas quais passou.

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