“Notas” – 25/09/2014

A candidatura Aécio Neves se arrastando de ponto em ponto e os incentivos expressos em ataques à Marina Silva seguem como rotina de colunistas de “Veja”.

Não admira que a uma semana da eleição, com a presidente Dilma Roussef a dez pontos apenas de eliminar a questão no Primeiro Turno, o candidato do PSDB não dê mostras de disposição de renunciar à sua candidatura, preferindo a derrota como terceiro colocado em uma eleição (decidida, ao que tudo sugere, em 5 de Outubro) decisiva para o futuro do modelo político que pode dar outra chance ao seu partido e a si próprio.

Quando um político lê diariamente articulistas que garantem que os brasileiros esperam apenas que ele se coloque de forma mais nítida contra desvarios para que decidam por ele sem hesitar, ele parte para a escola de interpretação “falando grosso com faces em fogo”- e até aí tudo se compreende (embora se lamente a resolução tardia)- o problema é quando o alvo de suas admoestações é, não quem o desmoraliza sistematicamente em cada debate, dirigindo-se a ele no tom de quem dá lições ao amador em política e em administração, mas a candidata imediatamente superior a si nas pesquisas, convencido de que é este, e não o alvo maior, aparentemente inatingível, a prioridade de suas baterias.

Os terapeutas de autoajuda em roupas de jornalistas têm nisso grande responsabilidade, a qual deverão negar quando o fracasso comparecer na data marcada. Nunca admitem falhas de análise e de percepção dos ânimos gerais, mesmo por tomarem como únicas amostras dos referidos ânimos aplausos ao político que adotaram nos  restaurantes chiques. Um meu interlocutor que até dois meses atrás jurava que Aécio levaria esta no Primeiro Turno, nem admitindo a hipótese Marina (com Eduardo Campos ainda vivo, diga-se), hoje já admite a candidatura Marina como mal menor, mas nunca ouvi dele um “Você estava certo, ele não empolgou…”

Não culpo Aécio Neves, um estreante no exame de seu nome em nível nacional, mas os que venderam a ele a ilusão de que bastaria apontar as inúmeras falhas da atual gestão – a ideia de que tudo seria relativamente fácil, uma vez a massa fosse esclarecida de suas boas intenções.

Que a pesquisa Datafolha de amanhã me desminta.

X

O discurso de Dilma Rousseff na ONU foi histórico, um marco daquela casa, muito além do que julgam sua defesa do diálogo com os decapitadores do “Estado Islâmico”uma piada em hora imprópria – poucos dias após mais uma decapitação.

O que o mundo inteiro assistiu ali foi demonstração do que é  (no que vem se transformando, e justiça seja feita, desde os dias do PSDB) uma das maiores economias do mundo; sua escala de valores e a linguagem pela qual esta escala é demonstrada – períodos truncados, recursos ao berro como ferramenta retórica, os ingredientes, enfim, do que é conhecido entre nós brasileiros por “Dilmês”.  Acredito que lingüistas já elaboram módulos de análise daquela peça oratória, que certamente pareceu-lhes muito particular e inovadora.

O que poucos percebem é a coerência absoluta de Dilma Rousseff com a ideologia de seu partido – e da casta acadêmica e de parte considerável da classe política – aplicada ao tópico violência: ela é Chefe de Estado de país com dezenas de milhares de homicídios anuais, muitos deles com requintes de crueldade que fariam os “ativistas“ (que a “coalizão imperialista” resolveu deter) do IL ter complexo de inferioridade- complexo de incompetência provocado sobretudo pela dimensão numérica – as vítimas nestes últimos anos no Brasil mostram que eles ainda têm muito a aprender conosco quando o assunto é paralisar populações pelo medo. Daí o apelo de Dilma ao diálogo, pois em seu país menores que incendeiam as vítimas contam com leitura menos brutal do fenômeno – são internadas, “apreendidas” e recebem medidas “sócioeducativas”.

A ONU foi apresentada a uma visão nova do mundo, baseada no diálogo e na compaixão e, sobretudo na relativização do papel das vítimas, compreendidas no Brasil como coatores no processo civilizatório. Os decapitados compõem junto aos visionários do movimento que avança no Oriente Médio uma narrativa diferenciada, sendo uns, isto sim,  escolhidos pelas circunstancias históricas que exigem o preenchimento deste papel na sua dialética.

Não acredito que foi pura amostra de aversão da presidente Dilma à leitura que a faz comparar a Guerra do Iraque com esta missão, missão que muitas lideranças islâmicas e antiamericanas julgam (ainda que a contragosto) inadiável, pelo mal que estes assassinos fazem ao mundo islâmico, ao que fomentam de islamofobia. Não pode ser apenas esquerdismo de cervejada de Diretório Acadêmico o motor de seu discurso. Ninguém é tão ignorante assim, tão desinformado do pavor e repulsa que estes facínoras causam em toda a comunidade islâmica, mesmo, reitero, em inimigos tradicionais dos Estados Unidos.

O que ninguém percebe – serei o único?- é que Dilma Rousseff resolveu naquele discurso demonstrar algo inédito entre Chefes de Estado, sobretudo no Brasil, sempre ávido de pertencer aos círculos maiores do Primeiro Mundo: altivez diante das possibilidades de um dia, em qualquer hipótese, o Brasil ser admitido no Conselho de Segurança da ONU em caráter permanente. Ela demitiu o Brasil desta ilusão que nos custa aventuras, por ex, no Haiti.
“Conselho de Segurança da ONU, nunca! Somos superiores a isto”.

Penso que eles entenderam o recado.

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