“Notas” – 27/09/2014

“Não pode ser só erro, só descuido. Tem alguma coisa por trás”, assegura meu interlocutor. É incompetência demais, algum interesse tem nisto”.
“Qual? Perder leitores, anunciantes?”
“Já viu o que o Governo anuncia nestes órgãos?

Não são poucos os que supõem se tratar de cálculo o que é apenas incapacidade de porção da imprensa brasileira que se proclama porta-voz das oposições. Muitos acreditam que é um esforço, efetuado com raro empenho, em desmoralizar de vez por todas com as discordâncias no Brasil, demonstrando serem os críticos do elemento dominante na política uns seres foragidos de alguma instituição de pacientes submetidos a alguma terapia de sono intensivo.

“Olha, o que o Governo anuncia é pouco comparado aos anunciantes privados, o problema é de outra ordem, bem diversa”.

Traço ao interlocutor as mudanças em comandos de redações dos últimos anos, e noto ser este um assunto desanimador aos não apaixonados por jornalismo: é duro explicar os critérios de alguns empregadores e a política de herdeiros que , desinteressados dos afazeres próprios do ofício, delegam funções de importância crucial aos profissionais que somente jogam seu jogo de Poder, afinal sabedores (sobretudo os antigos de cada empresa) da inutilidade de doarem de si mais que o necessário, pois herdeiros não costumam se comover pelo que julgam ser somente cumprimento de deveres profissionais de comandantes venerandos de redações.

Assim órgãos que já tiveram diretores emblemáticos (que em outras paragens talvez fossem mais valorizados), têm, em seus respectivos comandos, profissionais apenas medíocres chefiando outros medíocres que sabem que é bobagem dar de si mais que algumas horas e imitações do que imaginam ser esforços de pesquisa e apuração. Sabem que cargos de chefia são poucos e sujeitos a preferências de ordem pessoal, muitas vezes. Há quem o ignora?

As capitanias hereditárias, as quais também têm peso significativo nesta política de meritocracia cordial – “Por que me matarei de trabalhar se filhos, amigos dos filhos e filhos dos amigos serão, eles sim, contemplados com aumentos e promoções?”e tome legendas mal redigidas, títulos grotescos, erros primários (alguns apontei aqui no blog, todos inimagináveis em outros tempos) e um sumário “erramos” quando leitores acordados percebem as barbeiragens.

Falo, claro, de revistas e jornais que podem ser alvo de crítica – não de acampamentos de subsidiados governistas. O que meu interlocutor se pergunta é como foi possível este nivelamento por baixo, dado por verdade inapelável, por fato há muito aceito, consumado e dado por tradição. Respondo me socorrendo com Fran Lebowitz ao Martin Scorsese no documentário do cineasta com a colunista: Lebowitz observa que drogas e AIDS levaram da cena novaiorquina os nomes mais talentosos que, voltassem à vida, ficariam espantados com os nomes que brilham hoje na cidade, que formam as redações, sobretudo no departamento de artes- ilustradores e fotógrafos, e maquiadores e estilistas- “gente da terceira fileira”, material humano indiferenciado, que em outros tempos seria coadjuvante vocacional apenas.

O Brasil, continuei ao meu interlocutor, sofreu da mesma devastação. Morte e aposentadorias – muitas delas precoces, criminosas- abriram caminho para profissionais obscuros, burocráticos, medíocres e que em dias gloriosos mofavam em editorias menos prestigiadas das publicações. Hoje, vingam-se protegendo e promovendo nomes que não são sequer temas de anedotas, anedotas eles próprios. Destilam o recalque com esta inversão de valores – ao mesmo tempo em que vociferam contra o PT, que ao menos tem a desculpa de promover esta inversão por ideologia, por acreditar que não existe hierarquia mental e espiritual.

Não é possível hoje culpar os recém-formados em comunicação social que devem a profissão à reserva de mercado para diplomados em jornalismo, pois os chefes destes jovens presumidos jornalistas deveriam guiar estes noviços, sendo a escola que eles efetivamente não tiveram na Universidade. Mas não se pode dar o que não se tem e o resultado é a miséria editorial impressa e/ou estampada nas telas dos computadores.

Não sei o que será do futuro, posto que as grandes redações vieram de grandes profissionais oriundos de grandes redações, que por sua vez vieram de…

Daí ser tolice acreditar em um complô dos poderosos, na premissa de que não é possível que todo este espetáculo de incompetência seja acidental – quando estes poderosos são homens que, como dizia Gilberto Amado, “podem mais do que sabem”.

A premissa de que vivemos sob o jugo e conspiração de sábios devotados ao Mal desmoraliza-se, ao menos no Brasil. O Mal aqui é miserável e burro, genuinamente terceiro-mundista.

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