“Notas”- 02/10/2014

Poucos dias separam o Brasil … do destino com o qual vem se acertando há décadas – não virá de um pleito onde o fanatismo e slogans ocos substituem discussões sobre os problemas com os quais os brasileiros esperam solução desde a volta das eleições presidenciais.

O desanimo de parte do eleitorado (incapaz muitas vezes de distinguir siglas partidárias) é compreensível, pois debates e programas eleitorais são desertos de retórica e de ideias. O que preocupa os brasileiros  (segurança, principalmente) é discutido somente em números e pouco se fala de valores – quais os valores que governarão o espaço público brasileiro e qual meio de vocalizar temores são mal percebidos pelos marqueteiros e pelos profissionais da política que declamam números como se eles não encerrassem dramas humanos e carências concretas. Não admira que apenas os apaixonados por partidos tenham interesse na campanha e o numero de indecisos e nulos/brancos na casa dos dez por cento (Datafolha) a poucos dias das eleições .

Há entre as torcidas partidárias quem aposte no debate de hoje da Rede Globo como fator que converterá os indecisos e os indiferentes.  É uma ilusão que exigirá um tanto de eleições para se mostrar vã, no ritmo brasileiro de constatação de obviedades; em 2035 talvez os debates tenham outro feitio, menos amarrado aos segundos do cronômetro e mais franco nas polêmicas que serão aceitas como necessárias ao aprimoramento da inteligência da população que se educará civicamente nos confrontos entre as diversas pulsões sociais. Nesta eleição, não se verão conversões em massa, realizadas por defesas de teses e argumentação poderosa. Não haverá minutos para que isto seja possível.

Não noto, fora das fileiras partidárias, grande entusiasmo, e suspeito que fosse o voto não obrigatório, as abstenções seriam chocantes.

A imprensa não parece disposta a fazer autocrítica de seu comportamento de torcida – claro que trato da imprensa adversária do Governo. O que transparece em artigos e respostas aos leitores é um cansaço – e quem não estaria cansado após tantas denúncias em carrossel?- e um desejo de que o candidato do PSDB, Aécio Neves (mesmo os que admitem Marina Silva expõem este ânimo) vença logo e os libere das batalhas. Como se uma hipotética vitória do PSDB ou do PSB não iniciasse por si outras tantas batalhas com os inconformados com a perda do Poder- e de tudo que advém dele, como já observou Helio Fernandes.

Não sei qual ideia estes analistas fazem da estrutura da massa brasileira, ainda por criar musculatura de coletividade crítica. Parecem apostar que tudo o que de ruim este período (presumindo que estas eleições fechem este ciclo) deixou de herança será anulado com a vitória e posse de alguma das duas candidaturas oposicionistas. Como se não precisassem temer por greves gerais, ondas de boatos e todo o repertório ensaiado na internet todos os dias há anos. Não se dignam mesmo a tomar conhecimento do que é feito neste nível, recusam mesmo informações sobre ataques à honra, tomadas como fofocas apenas.

Quando as ruas foram esvaziadas no que se pode considerar o crepúsculo das Jornadas de Junho, que fizeram de concreto para pressionar investigações- e pressão para que o que se estivesse investigando fosse divulgado- sobre o financiamento de vândalos? Eu escrevi em meu blog, sem qualquer repercussão, as datas me livrando da culpa que recairá um dia sobre os omissos -ou pouco esforçados- jornalistas que não viram naqueles atos de violência algo de proveitoso ao alvo da fúria popular. Que não concordassem com as manifestações, compreende-se, mas que não reconhecessem que os poderosos tremeram como nunca tremeram, julgo falha de análise escandalosa. Nada reconhecem que não seja resultado de pesquisa ou de eleição, ainda que escrevam em país de eleitores não-leitores, que se permitem argüir sobre assuntos que não leram – o que deveria servir como fator de relativização das pesquisas. Não para a maioria dos jornalistas.

O artigo de Mario Sergio Conti de hoje, Quinta-Feira, n”O Globo”, traz a conclusão do autor sobre o que vimos nesta campanha e vemos no modelo de democracia em vigor, de que saída para os seus impasses, se houver, “não parece que virá das urnas”. Como discordar? Como depositar esperança neste campeonato de promessas de felicidade?

Tenório Cavalcanti em entrevista ao Tarso de Castro (e Fausto Wolff) para a revista “Status”, em 1978, declarou: “No mundo se vive de prometer dinheiro, saúde e felicidade (…)Agora eu quero ver dizer como vai fazer.”
O que vemos nos programas eleitorais hoje não desmente o mítico líder da Baixada Fluminense, antes o confirmando – a senhora que ganhou dentes para aparecer no programa de Dilma Roussef e os favelados que abraçam, ilustram e eternizam a declaração do fundador da “Luta Democrática”. O Brasil não avançou um centímetro na sua formação política .

Isto tudo acima pode ser dito como:
“Ganhe quem ganhar, domingo próximo , ou no 27, não é nem o começo da briga.”

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