“Notas” – 04/10/2014

O texto de Quinta-Feira, escrito antes do debate dos presidenciáveis na Rede Globo, motivou comentário de um meu interlocutor: “Faltou você dizer no texto que a culpa pelos debates amarrados é da Lei Eleitoral”.

Sim, muito do engessamento do debate, de suas limitações que impedem troca de ideias que justifique o nome de “debate” é fruto de legislação que já passou há muito do estado de simples obsolescência, tendo atingido a desmoralização pelos fatos.

Como legisladores poderiam prever espetáculos como os promovidos pelos “nanicos” ou a falta de pressão de setores às estações de TV para que adaptem seus horários aos debates, e não os debates à grade de programação? Muitas leis no Brasil são redigidas com este alheamento, falando nisto. Legisladores no Brasil parecem acreditar que leis por si ditarão a fisionomia social do País e que não precisam atentar às particularidades do meio para o qual as leis foram elaboradas e os resultados são estes que sofremos: leis virtualmente impossíveis de cumprir sem prejuízo de outras tantas leis – redigidas e elaboradas com o mesmo furor de construir o Brasil das abstrações divorciadas do mundo real.

Os autores da Lei Eleitoral adivinhariam uma Luciana Genro exigir do adversário Aécio Neves “Abaixe este dedo!”, ou um Eduardo Jorge propondo que Levy Fidélix pedisse “Perdão ao Povo Brasileiro” pelas suas opiniões? Qual legislador poderia prever que candidatos que não representam parcela expressiva do eleitorado, embora merecedores de atenção – que se promova debates entre eles, já sugeri neste blog- retirariam minutos preciosos de candidatos com chances concretas de ser eleitos, “em nome da democracia que deve dar voz a todos”?

Também é oportuno lembrar que pelo menos dois candidatos dispõem de poder de influencia que poderia encaminhar mudanças nesta Lei, o Sen. Aécio Neves e a Presidente Dilma Roussef. Ambos tiveram espaço de anos para encaminhar – ela através de suas lideranças no Congresso, ele como Senador e político de peso, ex- Governador de um estado importante.

Portanto, debitar somente aos legisladores a culpa por um debate que não consegue debater com consistência questões de saúde, educação e segurança, me parece equivocado. Não se debate nada, apenas oponentes acusando uns aos outros de incoerência, auxiliados por marqueteiros e pelos minutos cronometrados que salvam os candidatos de explicar como pretendem realizar o que prometem. Não se muda voto pelo apresentado nestas horas.

Respondem sobre segurança sem mencionar mudanças de lei, declamando somente números que aos condenados ao desassossego da violência, nada têm de dados concretos, soando como abstração poética. Pois para quê investir em mais contratações de policiais se eles, os policiais, queixam-se de não poder agir? Ou investir em mais presídios se não se discute a adoção de penas alternativas para delitos leves, sem a qual todos os presídios do mundo serão insuficientes? Qual a serventia de maiores efetivos se o tabu do menor criminoso não é enfrentado como merece? Tabu que somente o PSDB ousou confrontar, mas que e inexplorado por Aécio Neves nos debates. A cronometragem do tempo e o temor dos julgamentos por quem conhece desta violência somente teorias desestimulam discussão profunda, e aí entram slogans, ou simplificações como a defendida por Dilma Roussef  que pretende aumentar penas de quadrilhas que se utilizem de menores – e quando as quadrilhas são chefiadas por menores, em latrocínios monstruosos?

Ou os debates sobre educação onde nenhum, mas absolutamente nenhum candidato, tem a coragem de admitir que esta é um fracasso completo neste País de universitários semianalfabetos e doutores professores igualmente ignorantes e de que o problema está longe de ser apenas o da baixa remuneração aos professores, sobretudo os do período de formação do estudante, na infância e adolescência (no meu entender, os mais importantes)?

Debater sem mencionar que estas políticas precisam ser discutidas com toda a sociedade antes de se esboçar projetos de lei é também desonestidade à qual os políticos se entregam, e culpar a Lei Eleitoral é mais uma vez o recurso providencial.Talvez no segundo turno se tenha algo parecido com um debate, mas penso que a passionalidade à qual o PT conduziu o Brasil não tolerará complexidades e realismo necessários a qualquer debate digno do nome. Discussões sobre políticas e não entre políticos, em suma.

Do que tenho lido na internet, somente Helio Fernandes e este blogueiro têm se manifestado com ceticismo sobre este simulacro de debate, e este é o assunto mais importante no momento- a chance, mais uma vez desperdiçada, de discutir o Brasil em rede nacional.

Amanhã conheceremos os frutos desta omissão.

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