“Notas” – 11/10/2014

Marina Silva parece não ter alcançado a dimensão da urgência em declarar apoio à candidatura do PSDB, o mais depressa que puder, atropelando nomes à frente. Espera não se sabe quais compromissos assinados pelo candidato que passou à frente no Primeiro Turno, buscando uma pompa na derrota que pode cristalizar sua tendência à irrelevância.

Após as eleições, a discussão programática teria lugar, mesmo pela possibilidade de se partir para a Oposição imediatamente após a vitória de Aécio.

Eduardo Jorge ameaça ser o que ela foi na eleição de 2010 e nesta de 2014 – o nome que atrai a si elementos dispersos entre os insatisfeitos com as grandes legendas que renunciam à política dita pragmática. Sua adesão de primeira hora ao candidato Aécio Neves mostra que ele tem visão de médio prazo (que são quatro, ou cinco anos?) e que não brinca com a força simbólica destas eleições; as mais emblemáticas quanto ao recorte ideológico desde a redemocratização- o realismo político sendo exigido como em poucas vezes de nossa história.

Alguém deveria lembrar Marina Silva da virtual desmaterialização política de Jânio Quadros após sua renúncia, da qual só se recuperaria em 1985. Transformado em tópico de programa humorístico, a caricatura tomando o espaço do retrato oficial. As entrevistas que faziam rir nos noticiários dos anos ’80 e as gargalhadas após menções à possível candidatura presidencial demonstraram que o desmanche de seu potencial político fora irreversível.

O preço – a folclorização em vida, que impede tomar seu nome à sério – não pode ser mais alto a um político que esteve a poucos passos da faixa presidencial.

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Os “homens que entendem das coisas” tão satirizados por Carlos Lacerda como fauna tipicamente brasileira (os especialistas, os “doutores no assunto”) podem procurar outro nicho de mercado – o da propaganda política não os acolherá mais tão docilmente como em outros tempos. Augusto Nunes notou recentemente que esta eleição desmoralizou os marqueteiros, e não apenas pelo triunfo momentâneo de Aécio, acrescento.

O que Aécio Neves demonstrou ser factível e eficaz em matéria de comunicação com os eleitores (olhar diretamente para as câmeras, usar de ironia sem medo de soar “agressivo”, etc) fosse aplicado por outros tantos candidatos (como Pimenta da Veiga, por ex), muito resultado seria diverso do que foi. Os manuais de etiqueta eleitoral perderam qualquer respeitabilidade, ao que parece em definitivo.

Como merece ser tratado qualquer material elaborado por ignorantes em História que aparentam desconhecer o peso da audácia e da dramatização na conquista das mentes, sobretudo conquista coletiva em curto prazo. Aplicam aos políticos os conselhos dados usualmente aos aspirantes a diretores regionais de alguma companhia de venda setorial e dão a este procedimento fumaças de ciência política. Como vendem a mistura para gente igualmente nada amiga de leitura, ninguém se desmoraliza e o fracasso permanece filho de pai desconhecido. Depois de 2014, parece que não mais.

Devem ter aprendido.

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Os exemplares do direito de espernear exibidos por Dilma Roussef após a divulgação dos depoimentos de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef são singelos avisos do que Aécio enfrentará nesta campanha, e terá que confrontar com energia caso seja eleito.

Não deixarão barato, sobretudo blogs e sites que têm tudo a perder com sua eleição.

Enquanto blogueiros de “Veja” soltam foguetes e escrevem textos tratando o PT como página virada, rasgada, esmagada e arremessada à lata de lixo da História, petistas fazem planos, reunindo-se, como de sua tradição, sem olhar relógio e calendário da semana.

Espero que tucanos estejam com o mesmo espírito, pois há ainda como se arrepender amargamente.

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Ferreira Gullar, novo Imortal da Academia Brasileira de Letras me devolve o menino descobrindo uma “Antologia Poética” da Ed. Summus. Lia e relia os poemas que o entusiasmavam a despeito de não os entender. Um em particular, “A Galinha” (“Galinha/morta, flutua no chão, Galinha/Não teve o mar, nem quis, nem compreendeu aquele ciscar quase feroz” ). O poeta na TV Mulher em entrevista à Marília Gabriela foi o sinal de que deveria escrever uma carta, que, escrita com a imprudência de um menino de sete(?), oito (?) anos, foi enviada por sua mãe (ao endereço da editora, acredito).

Dias depois, a resposta – reprodução manuscrita de “A Galinha” e “um abraço do Ferreira Gullar”. O menino guardou a carta por anos até perdê-la numa das inúmeras mudanças de casa. A lembrança daquela folha sobreviveu no coração do menino indiferente aos risos provocados por  (mais este) clichê.

Como sobreviveu a admiração e o gosto pela poesia de Gullar, e pelas ideias expostas em crônicas e entrevistas do intelectual cuja obra o menino da narrativa, Fernando Pawwlow, leu o mais que pôde. As delícias do “Poema Sujo”, seu trabalho como roteirista de iniciativas interessantes da TV Globo em minisséries, suas críticas de arte e as polêmicas com os ramos mais ignorantes e oportunistas da Esquerda brasileira.

O menino que descobriu na biblioteca materna um livrinho que seria um seu companheiro, sente-se homenageado e, como muitos, divide contigo, artista Gullar, o contato da carne com o Fardão.

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