“Notas” – 18/10/2014

O meu último post foi escrito antes do debate do SBT. Postei e saí de casa, e vi apenas compactos do debate. Quem lê pensa que o escrevi depois, não?

Satisfeito? Melhor que suas performances anteriores, mas ainda falta muito para tão pouco tempo. Mesmo que em alguns momentos ele tivesse feito o que meu texto sugeriu – fosse eu menos modesto e contasse com divulgação de meu blog, juraria que ele leu minhas observações – o tom de comício de cidade do interior persiste: “Respeite Minas Gerais”, “Ninguém tem o direito de ser corrupto, respeite o País” entre outros itens de sua retórica.

A revelação sobre o irmão da Presidente Dilma Rousseff empregado na prefeitura de Belo Horizonte sob o então prefeito Fernando Pimentel (Governador eleito que terá futuras oportunidades de nomear os amigos de seu partido) foi golpe direto na jugular e a reação emocional da Presidente demonstrou ser este o tom a obedecer. Ou quando Aécio Neves replicava em linguagem pedestre, sem canastronismo de palanque as declamações de números da oponente: “Então este investimento fracassou”. Cito de memória outro trecho: ”Se a senhora nestes anos todos soube de ilícitos do PSDB e não investigou, a senhora prevaricou”. Estes exemplos mostram que, em linguagem do homem das ruas e utilizando da ironia curta, Aécio desestabiliza emocionalmente quem traz textos pré – cozidos.

O trecho no qual ele faz menções aos blogs simpáticos ao Governo e que publicam comentários ofensivos, marcados por linguagem de porta de mictório foi muito ligeiro. Ele deve citar os patrocínios e ler ao menos uma das obscenidades publicadas e então perguntar: “A senhora não se envergonha de ajudar a manter este lixo?”  Se a pergunta em questão não o permitir, que faça como Dilma que,  tendo um pedido de resposta recusado num debate do Primeiro Turno, utilizou do tempo destinado a responder  a uma pergunta de Marina Silva para responder o que achava de seu direito.

O que este debate mostrou, mais que os anteriores, é que é inviável debater projetos com a candidata do PT, e já que se deve ir aos debates restantes, que o candidato do PSDB vá com o espírito armado para dizer logo no início:

“Olha, não vamos perder tempo com sofismas e declamações enervantes, vamos? Pois se for para cruzar acusações, ignoremos de vez as regras do debate e cada um diz o que quer no seu tempo, sim? Chega de tratar os telespectadores como lixeira.”

Aécio (como o PSDB, falando nisto) revela algo que é preocupante: falta de planejamento para a campanha. As frases nas quais se defende das acusações soam como improvisadas, e não deveriam ser, pois as acusações recitadas pela adversária são refrões entoados diariamente nas redes sociais e blogs inclinados ao PT. Possíveis de ser enfrentadas de maneira mais eficaz, portanto. Acusações sem provas devem ser respondidas com avisos de processos já encaminhados – ao que parece, a campanha de Aécio resolveu agir judicialmente.

Uma bobeada que me soou emblemática de falta de ensaio com assessores: quando Dilma lembrou que também nasceu em Belo Horizonte e, portanto, tem tanta autoridade para falar de Minas Gerais como Aécio, este deveria ter dito: “Mas está longe de lá faz décadas, entre sua soltura e hoje, quanto tempo houve para a senhora se aproximar do estado, pois afinal não foi a longa ausência de Minas Gerais o argumento utilizado pelos petistas para desautorizar o candidato Pimenta da Veiga?”

E acredito que passou há muito de responder, sem medo de protestos (de gente que o desaprova mesmo) aos lembretes do martírio de juventude, na autohomenagem que Dilma sempre celebra nestes momentos:”Fugi porque perseguida “. Este é um artifício pelo qual ela tenta se salvar de questionamentos, afinal uma mártir, e todos parecem intimidados. A resposta sobre o tempo que ela teve para se aproximar de Minas Gerais parece emperrada por esta chantagem emocional. Ora, há gente que também foi presa e torturada e que nem por isto apoia Dilma – ao contrário, admite ter lutado por uma Ditadura de Esquerda e não somente para enfrentar uma Ditadura de Direita, sacrificando-se pela democracia. Fernando Gabeira, por exemplo. Mas o PSDB não parece disposto a romper com a “Aristocracia da Dor” e aceita engolir respostas como “Eu estava lutando contra a Ditadura, pela Democracia, e você?”

Aécio Neves começou a reagir contra os conselhos pró-conciliação com o inconciliável que causaram desperdício de tempo, mas deve concentrar e potencializar ataques, se der tempo.
X

Reinaldo Azevedo postou em seu blog ontem imagem gravada por militantes do PSDB na qual uma militante pró –  Dilma insultava aos berros os referidos militantes. Uma militante loira foi qualificada como “Loira de merda. Puta. Vagabunda”.

Com menor ou maior estridência, estas cenas ocorrem no Brasil desde que a “questão racial” foi colocada em pauta – com ajuda, sempre prestimosa, do PSDB.

Os militantes insultados limitaram-se a filmar e a admoestar a militante do governismo. Nada de empurrar quem obstava a passagem, ou levar à delegacia a agressora verbal.

Reinaldo Azevedo não repreendeu a passividade dos militantes, nem lembrou ser esta ingrediente poderoso na mistura que deu ao PT e associados a escritura das ruas. Que me lembre do que ele escreveu, não defendeu que a simpatizante da candidatura oficial fosse processada pelo que disse à moça. “O que vem de baixo não atinge”. Até que as ratazanas escalem os bueiros, não?

Entendo o brado de Marilena Chauí advertindo contra o perigo representado por uma classe média obtusa: “Eu odeeeeeeeiooooooo a classe média. Odeeeeeeio!” Para a delícia de Lula e irritação dos que, não entendendo o que membros do clero acadêmico tomam por classe média, protestam: ”Ela é classe média também, e sustentada por nosso impostos”.
Pois eu fecho com a Professora Chauí: a classe média, com  sua alienação e pouco apreço por leituras maçantes, torna possível o domínio desta casta. Perguntem aos legítimos classe média,  leitores de “Veja” e devotos do PSDB se eles pretendem desviar seus filhos deste raio de influencia- a Universidade na área de Humanas- e eles, embora sabendo ser impossível escapar do domínio do PT neste meio, recuarão. Não toleraram a possibilidade do filho trabalhar em ocupação que não dê o status que a rendição à Universidade proporciona ainda que rentável. É o culto ao título de Doutor cobrando tributos.

O temor das conseqüências que possam advir do rompimento com regras de etiqueta torna possíveis figuras como Dilma Rousseff, Chauí e militantes ameaçadores.
O que vimos nesta campanha confirma o espírito debilitante da classe média (ainda que encarnado em um homem de classe alta) sendo tripudiado por quem conhece a lógica do Poder social que premia como aristocrático o comportamento da ralé.

X

Um médico denunciado no escândalo das clínicas de aborto tomava cerveja em seus procedimentos,  fazendo lembrar Nelson Rodrigues que, em uma peça, ”Perdoa-me Por Me Traíres”, trazia um aborteiro a chupar tangerinas no desempenho de sua função.

Olavo de Carvalho observou que “Nada acontece na política que não esteja antes na Literatura.” Abortos em série e impunidade são fenômenos da política, embora desavisados julguem tratar-se apenas de episódios policiais.

Os militantes anti- legalização do aborto estarão se municiando com os números que este caso forneceu- dados como número de mulheres que recorreram aos abortos, motivações e renda – para enfrentar futuras batalhas? Haverá outro episódio oferecido assim tão farto, tão apavorante, tão repulsivo?

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s