“Notas” – 23/10/2014

“Eles não gostam de pobre..não gostam de negro…não gostam de mulher…é …estou começando a ficar preocupado com este pessoal do 45, não é, Rogério?”

Presenciei esta performance de um orador de caminhão do PT na Av.Amazonas, nas proximidades do Mercado Central, Terça –Feira. Havia passado há minutos pela Pça Sete onde orador na Petelândia instalada ali garantia que “Aécio Neves está acostumado a bater em mulher…nós aqui de Minas ficamos sem saber de nada, porque a irmã dele controla a imprensa”. O aplauso dos militantes não abafava a indiferença dos que cruzavam o quarteirão fechado da R.Rio de Janeiro, seus olhares pareciam não notar orador e todos os militantes com suas bandeiras, adesivos e berros de palavras de ordem. Isto me lembrou Patrus Ananias em sua recente candidatura para Prefeito, discursando para seus correligionários e para as costas dos transeuntes que não diminuíam o ritmo dos passos rumo à Afonso Pena para ouvi-lo.
As filas nos pontos de ônibus estavam ocupadas por pessoas que não viraram suas cabeças para atentar às advertências do início do texto, dirigidas a eles.

“Deve ser desanimador falar a quem berra silenciosamente o desinteresse, à maneira bem mineira (como dizia o Drummond)”, pensei.

Lembrei de um pastor itinerante com suas pregações pelos ônibus. Ele avançava pelo corredor do veículo, berrava versículos, admoestava costumes, lembrava as desventuras dos que “desprezam a Palavra”, enquanto casais se aninhavam, amigos discutiam arbitragem do último clássico do Mineirão e um passageiro deitava o olhar melancólico sobre a paisagem do Centro enquanto bebia cerveja em lata.

“Fosse padre Marcelo Rossi, todos estariam ouvindo, dando atenção, pedindo autógrafo”; lamentou o pregador, desistindo da atenção daqueles pecadores, na altura da Rodoviária.

Assim agem os tribunos do PT desta véspera de atenção – berrando acusações de moral de beata de vilarejo a quem votará ou não no PT por motivos de outra ordem: custo de vida e melhoras sensíveis ou insatisfação com a vida fora dos filmes publicitários. Ninguém mudará o voto pelo esforço destes rascunhos de lideranças, advindas em sua maioria do mundo sindical, ou de algum a entidade estudantil subsidiada.

Vi também neste dia e ontem mesmo, muitos adesivos do PSDB estampados em camisas e vestidos. Não, não era na Savassi, e não eram pessoas semelhantes às exibidas no filmezinho da “TV Folha” postado no “YouTube”. Nada de madames lindas que misturam tempos históricos em seus desabafos anti-PT, nem jovens que lamentam o PT entre uma balada para endinheirados e outra. Não, eram negros, pobres, gente mal vestida e que não marchava unida em um determinado ponto do Centro. Vi estes eleitores tucanos em diversas ruas do Centro, com olhar duro, mal percebendo estudantes de barbinha e patricinhas fantasiadas de hippie com o adesivo da Presidente Dilma Rousseff. Não queriam briga, não queriam papo, e pela dispersão no avanço desta massa, quem imaginar militantes pagos não sabe o que é militância paga, simples. Muitos elementos lumpen portando no peito o adesivo azul em contraste com o que vi portando o adesivo vermelho (sindicalistas, estudantes bem nascidos, professores universitários) num quadro nítido que dispensa ironias sobre o termo “coxinhas” utilizado como recurso verbal máximo para descrever o eleitorado do PSDB.

Não adianto nada, e as pesquisas mais recentes apontam para reeleição, mas voltei para casa nestes dois dias seguro de que a parada será menos gentil do que imaginam os governistas.

Tenho visto, ouvido (e por vezes tendo a infelicidade de ser o alvo das explicações) um tipo novo no quadro político brasileiro: o petista acanhado. Ele admite as denúncias de corrupção, concorda que melhorias reais não surgem para confirmar números oficiais, mas diz: “Sei disto tudo, nenhum presta, mas no Aécio não voto”, sacando do colete a argumentação usual em blogs simpáticos ao Governo, sobretudo a encontradiça nas caixas de comentários: ataques pessoais ao candidato do PSDB, acompanhadas de inverdades históricas divulgadas por “professores” que “ensinam” que “Tancredo Neves apoiou a Ditadura e Aécio se omitiu “.

O petista acanhado contempla uma variação: a dos que, embora admitindo que o Governo não é a maravilha que alardeia, e que as denúncias de corrupção assustam pela dimensão, tem ele e sua família experimentado melhoras em suas vidas: a casa própria, o filho na faculdade, a casa mobiliada, as viagens de avião, a cota de um clube, as idas ao shopping.

Mas petista assumido, fora do ambiente estudantil e de “movimentos sociais”, tenho visto pouco. São eleitores circunstanciais, embora apaixonados, de um partido que soube cultivar as massas, e que tem sabido demonizar o partido com o qual disputa o Poder, através do pavor (justificado, pois o PSDB foi e tem sido incapaz de convencer, de forma eficaz, estes eleitores) de um retrocesso do poder de compras e de dignidade pessoal.

Agora coligações assinam trégua, parece. Que vem sido cumprida pelo PT pela reiteração das insinuações sobre fim de direitos trabalhistas e de programas sociais e pelos ataques pessoais nas caixas de comentários. Como agem sem retaliação, por que mudariam, a um passo da urna? A reação morna de Aécio e seu partido aos ataques de Lula e correligionários em comício aqui em BH estimula reincidências e a rejeição ao candidato do PSDB cresce como justo pagamento a quem se verga aos preceitos do bom-mocismo .

O PSDB demonstra, uma vez mais, não entender o que se combate.

X

Um assassino de diversas jovens, cujo único critério que obedeciam para ser vítimas era estarem vulneráveis aos tiros, alega ter sofrido abuso sexual na infância. E clama por tratamento.

Não sei se os “doutores em causas da violência” já emitiram parecer sobre o caso, e arrisco que não terão a facilidade de costume, pois o assassino não é negro, nem parece especialmente pobre. A vulgarização de critérios sociológicos facilita muito a lógica que acaba por explicar criminosos e ver na vítima (e na família, mais vítima ainda) alvo dos mistérios e caprichos de Deus: “Coitada, era a hora dela”. Quando se lembram deste pormenor: a vítima.

Mas embora a sociologia de almanaque não possa ser sacada desta vez, há os novos ingredientes para a explicação pré – cozida : abuso sexual na infância, uso de entorpecentes (embora porção mínima dos usuários saia roubando, estuprando e matando), bullying que o assassino sofreu (não foi este o pretexto para a chacina de Realengo?), e a psicologia para consumo das massas não cessará de contribuir com outras explicações aos crimes que a impunidade encoraja. Maldade do criminoso inexiste, pois aposentada pelo relativismo moral.

Esta campanha presidencial teve somente um candidato que pareceu e parece atento à criminalidade como fruto de penas leves (ou compreensivas, ou caducas por velhice): o do PSDB, e mesmo este foi, na maioria de tempo, pouco apaixonado neste combate.

Mais uma oportunidade desperdiçada que cobrará caro.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s