“Notas” – 25/10/2014

A Presidente Dilma Rousseff recomenda a uma economista, no debate da Rede Globo, que esta escolha algum entre tantos cursos técnicos que seu Governo oferece e muitos gargalham, postam o vídeo no “YouTube”, fazem memes, comentam qualificando a presidente de “débil mental”. Eu não.

Compreendo a sugestão da Chefe de Estado e a considero coerente com tudo o que diz nos debates e em sua maneira de buscar soluções para o que parece sem solução; quando algum  problema exige que outros tantos problemas anteriores sejam analisados, e o tempo não o permite, que se use a imaginação: “Em alta do preço da carne, ainda há  frango, ovos, biscoitos recheados”.

A Presidente parece convencida das soluções que apresenta, e de simplória, inspira simpatia dos telespectadores, pois “afinal, a mulher quer ajudar, coitada”.  A culpa não é dela, mas de quem lhe faz oposição.

Que Aécio Neves não tenha emendado com observação de que cursos técnicos não devem ser substitutos aos empregos que exigem outra qualificação (sobretudo a quem já possui diploma e idade que exibe biografia de outro feitio), lamenta-se. E foi sem qualquer dúvida a melhor performance do candidato que finalmente descobriu como debater com sofismadores e fujões de perguntas: utiliza-se do tempo para sua resposta para responder o que achar que deve, reservando alguns segundos somente do tempo para responder o que oponentes formulam.Como eles fazem, falando nisto. Funcionou ontem, e poderia ter funcionado em outras ocasiões, poupando Aécio de muito do que o estigmatizou nesta campanha; irritado com sofismas e desconversas, qualquer candidato eleva a voz e ergue o dedo. Pra quê?

As perguntas dos indecisos dispensam editoriais sobre o que não funciona no Governo que se anuncia como o melhor da História do Brasil; em doze anos, com maioria no Congresso e com órgãos civis aparelhados e boa parte da imprensa dócil, muitos dos problemas levantados por aqueles brasileiros deveriam ter sido ao menos atenuados. Eu, fosse um presidente pleiteando mais quatro anos, me envergonharia da pretensão diante do que estes brasileiros expuseram como chagas: o desemprego no país que segundo seu Governo tem a menor taxa de desemprego da sua História, a Educação que não prepara quem a recebe ao mercado, a violência que massacra cidadãos (a Presidente parecendo nada comovida com o drama de uma família expulsa de sua casa por bandidos) e o desalento que a corrupção traz aos brasileiros comuns que não têm como educar os filhos segundo valores de retidão e honestidade, pois os exemplos de cima negam o discurso familiar. Não consigo visualizar estes indecisos sorteados no debate como eleitores possíveis do atual Governo, a balança pendendo à Oposição, ainda que esta seja pouco apetecível a muitos. Como repetir um prato que não sustenta e causa mal-estar, por outro lado? Como não recusar o que causa tamanha desconfiança no futuro?

O debate não serviu ao que se propõe (ser ultima chance de acabar com a indecisão de eleitores), pois não há indeciso que esteja satisfeito com o Governo, pois não haveria indecisão – vota-se no Governo e estamos servidos por mais quatro anos. Mas foi, em contrapartida, uma síntese irretocável da percepção que a massa tem do atual Governo: incapaz de fornecer segurança, educação e emprego, a despeito dos impostos e da propaganda que proclama o Paraíso onde um dia existiu o Brasil.

Não importa que Aécio não tenha continuado no mesmo fôlego da primeira pergunta (indagou à Presidente se ela não se envergonha do nível da campanha) e tivesse utilizado seu tempo para vomitar os ataques pessoais, ou mesmo anunciar processos aos que o atacaram em comício.

Os indecisos de ontem, o Povo ali presente, foram de eloqüência que compensou o bom-mocismo tucano e que mostra aos poderosos de turno que, ainda que vençam esta eleição, já não contam com a hegemonia; há sinais na sociedade de saturação e esta é a matriz de muitas revoltas sociais. Não haverá muito que comemorar quando o dinheiro para anestesiar as massas com assistencialismo mal gerido diminuir de volume e a distribuição de culpas se mostrar (ainda mais) problemática. Talvez as massas recusem setores acomodados ou mornos da Oposição, mas este Governo não terá dos governados qualquer respeito.

Não adianto o que sairá das urnas e deixo sem qualquer ciúme as bolas de cristal aos adivinhos que, acertando em alguns pontos, erram no todo: a crença sobrenatural de que esta eleição seria a chance para consertar anos de incompetência e falta de realismo da Oposição. Este engano não cometi, pois sei que ainda que o PSDB seja vitorioso, o PT ainda detém setores da sociedade que só serão resgatados com demonstrações de que há opções ao projeto petista.

Carlos Lacerda, em entrevista ao Léo Gilson Ribeiro para a revista “Status”, pouco antes de morrer (a entrevista é posterior às sessões de entrevistas do “Depoimento”), dizia temer “homens demasiado satisfeitos consigo próprios”, pois quando se chega ao ponto da confiança que leva ao relaxamento total frente aos adversários, a derrocada é quase sempre certa. Lacerda citou determinada marca de creme dental, dizendo: ”Pode ser que a  K seja realmente a melhor pasta, mas por pensar assim, o fabricante não  faz esforço para melhorá-la , aí vem o concorrente e triunfa sobre ela” (cito de memória). O PT, apesar de estar muito longe de ser o melhor, se convence de que é o melhor, e nesta confiança exagerada no que sua máquina fabrica, pode ter cavado sua sepultura com o salto alto. A sepultura pode estar sendo cavada ainda, e quatro anos passarão de qualquer maneira, mas chegará o dia em que o partido deverá ser apresentado à sua obra, pois não se percebem em seus líderes qualquer sombra de autocrítica, ao contrário, atacam quem ousa lembrar que a maquiagem está se derretendo sob o sol, e o que se vê debaixo desta não estimula.

A oposição (o PSDB, mais precisamente) se confirmada a derrota, terá oportunidade de examinar estratégias e criar oficinas de discussão política, como as que a Esquerda sempre alimentou, com ênfase nos debates internos que são a escola de líderes e o treino aos debates eleitorais. Não é possível que uma bola que Dilma chutou no pé de Aécio seja desperdiçada, como esta aqui: ao lembrar de elogios ( tática que julgo falha de saída, pois ser elogiado por este Governo depõe contra qualquer oposicionista – além de lembrar a muitos que Aécio Neves quando do elogio era percebido pelo PT como o tucano mais potável, o contrário do “rancoroso e desagregador“ José Serra) que Dilma endereçou ao então Governador Aécio, Dilma respondeu: “Sua máquina de propaganda é tão eficaz que acreditei no ‘choque de gestão’, e só depois vi que o estado estava endividado, etc, etc”.

Não teria sido oportunidade de perguntar: “Mas Presidente, a senhora acredita em máquinas de propaganda? A senhora é tão mal informada assim sobre um estado como Minas Gerais? A senhora utiliza-se de mecanismos de promoção do governo estadual para formar juízo da competência deste governo ?” Seria nocaute, a ironia se provaria arma superior ao intelecto da oponente, e a desmoralização seria garantida.

Não é vergonha alguma um cidadão desconhecer o que se oculta sob toneladas de material promocional, mas a um chefe de estado isto é imperdoável. Um tiro certeiro que se preferiu não dar.

Esta campanha – indiferente ao resultado das urnas – foi histórica: ex-petistas declarando voto no PSDB (ainda que reiterando diferenças inconciliáveis), artistas antes obrigatoriamente associados ao dever de servir como cabos eleitorais do PT não demonstraram acanhamento em abraçar a bandeira do PSDB, e,  mais que tudo isto:

O desfile dos extratos mais básicos da população desmentindo a fantasia de que “pobre e negro vota em PT,  branco e ‘coxinha’ no PSDB”, a coragem (antes temerária) em cobrir carros de adesivos do PSDB e o recital de desculpas de muitos eleitores do PT (“não gosto do PT, mas Aécio, Never”) configuram o início do fim da hegemonia petista.

E maldito o que julgar isto pouco!

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