“Notas” – 27/10/2014

A internet, pátio no qual devotos das mais diversas teorias da conspiração se encontram para trocar narrativas de “revelações”, estará, já nas próximas horas, repleta de narrativas de episódios estrelados por urnas eletrônicas e outros ingredientes de fraudes eleitorais. Não que tais episódios sejam por si fantasiosos, ou que a fraude seja uma impossibilidade, mas o fato é que as urnas confirmaram as expectativas mais realistas sobre um modelo de democracia de eleitores não-leitores.

Não se muda esta realidade com duas ou três performances assertivas em debates, como imaginavam os simpatizantes da candidatura Aécio Neves – ou os antagonistas da candidatura vitoriosa de Dilma Rousseff. Agora é buscar culpados, mesmo porque não há muito a fazer, segundo pensam muitos que diminuirão de ânimo com esta derrota, nos próximos dias. A autocrítica dos formadores de opinião não me parece provável, não veremos, acredito, o articulista X ou o editorialista Y virem confessar que subestimaram partido que aplica há décadas os preceitos organizacionais que a hegemonia exige. Nem publicações reverem suas políticas editoriais. Nem uma tomada coletiva de consciência dos combatentes bem-intencionados e mal preparados da internet, no sentido de estudar com seriedade autores que formaram as mentes que comandam o sistema vitorioso e cultivo do hábito de refletir – além de estudar o idioma minimamente- antes de postar mensagens rebatendo militância virtual treinada.

Quantos zombadores da oratória da candidata à reeleição postam “a muito tempo (sem o h)”? A percepção de que não se pode cometer erros de português e de lógica que eles, os MAVs (que estão em maioria e bem instalados no Poder) cometem, parece ser aos oposicionistas de internet, um capricho fútil. Não acredito nisto nem no médio prazo – os oposicionistas passarão muito tempo mais na Oposição sem desenvolver mecanismos de assimilação da realidade, sem passar em revista suas deficiências mentais e de determinação. E se esta tropa mal treinada é mesmo a vanguarda do movimento de revolta, então não se pode cobrar de insatisfeitos desarticulados e sem poder mínimo de vocalização ações que possam – um dia, em uma eleição ainda por vir – proporcionar um resultado que seja diverso dos últimos quatro finais de apuração que deixaram aos anti- PT a sensação de “Mais um pouco e ganhávamos esta”.

 

Lamentamos os votos dos nordestinos e dos mineiros, mas por que cobramos desta massa o que não cobramos de gente de nosso convívio que advoga o voto nulo, como maneira de protestar (e se livrar de cobranças por escolhas) ou dos que não transferiram o título em tempo útil, ou dos que viajam, ou mesmo descuidam do relógio no horário de verão e perdem a hora de votar? São, todas estas, pessoas “instruídas ”- e que não dependem dos programas assistenciais do Governo (eleitores por natureza vulneráveis aos boatos e ameaças), mas prisioneiras de algo ainda mais daninho ao civismo: hábitos mentais cristalizados na preguiça e na covardia, que servem a si a anestesia do “um voto a mais, ou a menos, não serei o culpado por uma derrota que virá de qualquer jeito”.

Quem não ouviu um vizinho, ou colega de trabalho, ou amigo ou parente renunciar de suas responsabilidades com estas palavras? Os votos nulos cobrem (e deixam troco) os votos que separaram a candidatura derrotada da vitoriosa, mas não servem de lição a quem não se acostumou a pensar a política como guerra contra opressores e não concurso de escolha por afinidades pessoais – “No Aécio, não rola”- como se fosse eleição para amigo ou pra genro.

“Guentem o PT então, caros!”

A culpa do PSDB na vitória do PT também merece ser analisada: como enfrentar um partido há anos no Poder, escolhendo o candidato no ano da eleição? Como desmantelar a rede de boatos e insultos pessoais se negando a admitir a dimensão da ameaça? Quando o PSDB se adaptará ao hábito de recorrer à Justiça em baterias de processos, como o PT faz (como no caso recente da exigência do direito de resposta à “Veja”) sem qualquer temor de críticas?

No capítulo dos sites que publicam comentários insultuosos, perdi a conta de quantas vezes tentei alertar os dois blogueiros de “Veja” nos quais comentava: Augusto Nunes e Ricardo Setti – sem qualquer exame por parte deles do mérito: “Você superestima estes caras”, “São sujeitos sem importância”, “Ninguém lê estes caras”, “Se insistir em ler estes sujeitos, me poupe do que sai ali, não tenho interesse”. Procurem meu nome nas colunas e verão diversas respostas a comentários meus ( alguns que pedi para não publicar, que contêm somente as respostas dos jornalistas), ou comentários meus, sem resposta. Mas comentários grandiloqüentes, torneios de frases de efeito, foram, depois de receber os elogios –“Ma-ra-vi-lha, estamos juntos nesta, amigão”- publicados como artigos. Comentários ao gosto dos titulares do espaço – moralizantes e cantores de uma vitória que somente os membros de determinados extratos sociais no Brasil anteviam.

“Fracasso é filho de pai desconhecido” e a constatação de Carlos Lacerda –“No Brasil ninguém se desmoraliza”- me ocorrem neste momento que exige profundo exame de falhas.

Quem está eufórico sabendo que a candidatura da reeleição teve fabricantes de boatos como seus mais eficazes operários? Na véspera da eleição, discuti em um bar com sujeito que tentou me vender (não sabia com quem estava falando) suas ficções: “Tancredo apoiou a Ditadura”. Tentando abortar minha objeção com o recurso típico dos petistas (era um “petista envergonhado”, negando sua condição de petista ,embora com estrelinha vermelha na lapela): “História não discuta comigo”.”

“Discuto sim, amigo, Tancredo Neves reagiu com energia ao Sen.Auro Moura Andrade quando esse declarou vaga a Presidência da República em 1964.” Ele, o petista sem dizer o nome, reagiu como apresentado à informação (embora senhor de mais de cinquenta anos). Tentou mais uma: “Tancredo foi governador biônico”. ”Não, foi o primeiro governador eleito desde a Ditadura, na leva de 1982”.

”Ah é., concorreu com Hélio Costa, não?”

“Não, com Eliseu Resende, do PDS.”

A conversa parou ali, ele murcho e eu cansado pelo esforço (não remunerado) de ensinar história recente do Brasil a quem recebeu a educação de professores do petismo. Conversas do tipo, de gente me recomendando leituras – “meu professor de História me ensinou, depois te passo os livros”- tive vezes sem conta e noto que o esforço que anônimos como eu fizeram não teve a contrapartida dos formadores de opinião bem pagos e influentes. Como este meu oponente, milhões compareceram às urnas forrados de tolices e com temores que, por não terem recebido contestação judicial, pareciam embasados em possibilidade de terem sua razão de ser.

Portanto, acho injusto o rigor com que muitos eleitores sem instrução e temerosos da supressão de programas assistenciais têm sido considerados após este resultado eleitoral. Eles tiveram a porção mínima da culpa, são maioria apenas numérica. A maioria moral dos responsáveis por este desastre encontra-se entre os que poderiam ter feito muito mais que fizeram, mas a auto lisonja (além da lisonja alheia) não estimulou. No meu texto anterior, citei Carlos Lacerda e sua apreciação sobre “pessoas demasiado satisfeitas consigo próprias”, “que não fazem esforço no sentido de melhorar (…)até que vem o concorrente e triunfa”. Falei ali do petismo, mas penso que os seus oponentes encaixam-se no mesmo perfil retratado por Lacerda – os homens que julgam ter a superioridade moral que os livra do esforço de melhorar, de passar em revista hábitos e métodos de trabalho.

“Ganharemos deles, eles terão que procurar emprego no 1 de janeiro, amigos”, pode ser dito agora pelos petistas, não? Os cantores da vitória do dia seguinte aos resultados do Primeiro Turno poderão se divertir nas sessões de masturbação grupal que recebem entre nós brasileiros o nome de “debates”. Ou “hangouts”. Onde nada se debate, apenas se lamenta (uns atravessando as falas dos outros) a superioridade moral do derrotado, mal compreendida pelos eleitores comprados por bolsas e iludidos por recitais de boatos. Soam como adolescentes nas rodas de masturbação grupal enaltecendo as virtudes físicas de alguma musa da TV, lamentando as escolhas afetivas do alvo das fantasias, mas sem qualquer possibilidade de realizar desejos, pois nenhum dos adoradores tem o contato da deusa, ou conhece quem tenha… Como escreveu Claudio Abramo em artigo (constante do livro “A Regra do Jogo”) no qual analisava as causas do fracasso do Plano Cruzado: “É… não foi desta vez”.

Sem autocrítica corajosa, não haverá outro resultado ainda que outras vezes surjam- e não sabemos se haverá outra vez.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s